ALTAIR

 

Verdade é que nem sempre a vida é justa. Muitas vezes, devemos reconhecer, o destino ‘sacaneia’ algumas pessoas e põe no chão criaturas que, no fundo, são boas. Pois saibam, então: Altair foi uma dessas ‘vítimas’. Então, para afastar qualquer dúvida, eu peço que me deixem contar como tudo aconteceu.

Nós estávamos no início dos anos 60. Segundo os entendimentos, era o tempo em que havia muita inocência pairando no ar. Mas era também o período em que começaram a aflorar os ‘maus espíritos’. Ao menos, era o que dizia D. Maria de Piabetá, a nossa fiel cozinheira. Muito embora fosse carioca, ela mais parecia uma daquelas baianas que vendem acarajé no Pelourinho, em Salvador. Ah, meus amigos, D. Maria parecia uma verdadeira ‘Mãe de Santo’, isto sim, pois adivinhava tudo. Ela trabalhou em nossa casa, com profunda dedicação, por mais de vinte anos, preparando toda a sorte de quitutes e guloseimas. Que criatura maravilhosa foi aquela mulher! O que mais impressionava a todos que a conheceram era o constante sorriso bondoso, estampado nas largas bochechas para quem quisesse apreciar. E posso assegurar a vocês que ela representou o que de melhor eu tive na infância distante. Aliás, Dona Maria chegava a nossa casa bem antes das sete da manhã, mesmo morando em outro município: Piabetá, próximo a Magé, no Rio de Janeiro. Muito embora já tenham se passado mais de cinquenta anos desde que aprendi a saborear as ‘especiarias’ de Dona Maria, o seu rosto, no entanto, eu tenho dificuldades para resgatar na memória. Já os aromas que ela esparramou ao meu redor, ah, eu jamais esqueci…

Abençoada seja, minha querida ‘Dona Maria’!

Mas o que eu estava querendo contar para vocês era sobre o Altair. Na época, eu devia ter uns sete ou oito anos de idade e a garagem do nosso prédio era repleta de esconderijos perfeitos para crianças com imaginação. E a turma de meninos do ‘Edifício Esperanto’ aprontava um bocado. Com isso, seu Severino, o porteiro do prédio, sofria em nossas mãos; ora era um vidro quebrado e barulhos de crianças correndo em disparada, ora era um morador aborrecido porque ‘alguém’ havia apertado todos os botões, fazendo o elevador parar em andar por andar.

Lembro que nessa época nós estávamos querendo abrir um ‘clubinho’ no saguão de entrada, porém, não conseguíamos adesão dos proprietários dos apartamentos do prédio. Embora fizéssemos forte campanha junto aos moradores, ainda assim, os resultados eram pífios.

Foi quando o Ênio, um brilhante colega da turma, chegou e, ao perceber o nosso desespero, argumentou: não são os pais que vão definir os rumos da votação, pessoal. São os filhos, nossos colegas, isso sim!

Eureka!! Ênio sempre tinha uma solução inusitada e, invariavelmente, brilhante. Algumas vezes, é bom que se diga, isso causava irritação até na gente, pois morríamos de inveja de sua alta criatividade.

Sabendo disso, ele se sentou na cisterna da garagem e começou a fazer desenhos em várias folhas. Quando terminou, Ênio pediu que afixássemos os cartazes no elevador, no “hall” de entrada, nas lixeiras e em todos os lugares de grande circulação. Eram desenhos de crianças brincando. Crianças com semblantes felizes. Moral da história: no dia marcado para a votação, houve alto comparecimento dos pais e fortíssima adesão à nossa reivindicação… Ganhamos de lavada, com 78% dos votos favoráveis. Agora, nós tínhamos um espaço só nosso: com mesa de totó, pingue-pongue e futebol de botão. Com isso, Ênio se tornou o nosso verdadeiro herói!

Sim, o certo é que eu estava querendo lembrar algo sobre o Altair. Pois bem. Para começo de conversa, Altair era o ‘faz-tudo’ do prédio. De encanador a pintor ou de marceneiro a eletricista, o que sei é que ele ‘jogava nas onze’. Era um negro alto e forte, dono do sorriso mais branco que eu já vi na vida. Do mesmo modo em que era corpulento, também era simpático e educado com todos. Uma verdadeira ‘dama’, como diziam os nossos vizinhos.

Eu tinha uma especial simpatia pelo Altair, porquanto ele sempre atendia os meus pedidos: fosse para preparar o ‘cerol’ para a linha da pipa ou até mesmo para construir um carrinho de rolimã e descer em disparada a íngreme ladeira da Zamenhof. Era com ele que eu contava!

Contudo, como eu disse no início da história, o diabo é que a vida nem sempre é justa. Pois não é que o coitado do Altair se casou com uma moça, da Baixada Fluminense, e ela infernizou a vida do pobre homem?! Pois é. Nunca se soube os detalhes. Sabíamos apenas que ele andava cabisbaixo, preferindo nem voltar para casa após os serviços no prédio.

Daí até se entregar à bebida, foi só questão de tempo, aliás, pouco tempo. Altair já não aparecia para efetuar os serviços contratados. E não tratava os moradores com a costumeira elegância. Sim! Foi muito triste acompanhar aquilo tudo, meus amigos. Afinal, observávamos a ‘derrocada’ de um homem de bem. Abruptamente. E quem procurasse pelo Altair, bastava ir à esquina de nosso edifício, bem debaixo da marquise, e veria um verdadeiro ‘trapo humano’, sujo e malcheiroso…

Até que um dia apareceu no tortuoso caminho do Altair um daqueles ‘maus espíritos’ que a D. Maria de Piabetá previra. Ele atendia pelo apelido de “Pará”. Céus! Ele era o ‘cão chupando manga’. Um sujeito perverso, capaz de terríveis maldades. Como diziam os os frequentadores da esquina da Zamenhof, ele era um tremendo ‘fio desencapado’!

Assim, ao perceber a decadência de Altair, Pará começou a insidiosa perseguição, fazendo toda a sorte de provocações. Que iam da obrigação de fazê-lo beber um copo cheio de cachaça, aos chutes para acordar o pobre coitado debaixo da marquise, impondo um tremendo martírio. Algo muito triste…

Lembro até que eu, Luiz Henrique, Ênio e Edinho nos mobilizamos para buscar ajuda nos apartamentos do prédio e pouco interesse houve dos moradores em socorrer o pobre Altair. Uma baita injustiça!

Três meses se passaram sem notícias do nosso ‘faz-tudo’. O que aconteceu de fato, ninguém ficou sabendo. Soubemos apenas, tempos depois, que o enterro ocorrera no Cemitério do Caju, numa cova destinada aos ‘indigentes’. E isso, meus amigos, era tudo que ele nunca fora: indigente.

Merda de vida!

Nota do autor: Ênio faleceu em 1974. Luiz Henrique tornou-se um respeitável e competente auditor da Receita Federal. Edinho transformou-se em um bem-sucedido empresário no ramo da limpeza. E ‘Pará’, após três mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa, acabou sendo acusado de fazer parte de grupos de milícias. Afastado, foi submetido a julgamento, sendo condenado a vinte anos de prisão. Atualmente, cumpre sentença em regime semiaberto por conta de outros delitos.

 

* Texto dedicado a Luiz Henrique, Ênio (in memoriam) e Edinho, os ‘mosqueteiros’ da querida Zamenhof: porque também somos o que perdemos!

LuizHenrique

(Na foto: eu e Luiz Henrique, após sessenta anos de amizade )

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...