A CULPA É DO 43

 

Eu estava arrumando a minha estante, aproveitando o tal do ‘confinamento social’ e não é que eu dei de cara com esse CD “Steamin’ with The Miles Davis Quintet”. Caramba… eu nem lembrava mais desse álbum. Isto porque ele fazia parte de uma remessa de CDs usados que adquiri no ano passado. De fato, na época, como eu estava envolvido com a finalização do segundo livro de crônicas, não tive tempo para apreciar os discos.
Contudo, o que importa é que ao limpar a estante eu vislumbrei o CD de Miles Davis e seu fabuloso quinteto. Na verdade, devo confessar, esse foi um daqueles discos que eu nem quis ouvir na casa do Flávio, pois achei que era ‘compra certeira’. Por isso, preferi me debruçar na análise dos outros álbuns. E ao guardá-lo na estante, eu sabia que mais dia, menos dia ouviria o CD e me deliciaria. Bem… esse dia chegou: hoje!
Por conta disso, eu me sentei na poltrona do escritório e liguei o computador. Como agora ele dispõe de uma abençoada ‘SSD’ para dar partida, tudo ocorre muito rápido e só deu tempo de pegar a garrafa de “43”, o meu licor preferido. Ah! Benditos espanhóis!
O que sei dizer, minha gente, é que eu resolvi escutar o disco pelo final, na sexta faixa, que é um clássico do jazz: “When I Fall in Love”. Céus!, foi um verdadeiro delírio. Miles Davis, em estado de graça, derrama todo o lirismo que a melodia requisita. E além do trompete de Miles, temos também o piano de Red Garland acolhendo discretamente a melodia, como um bom mestre de cerimônia. A quinta faixa, “Well, You Needn’t”, é bem ‘nervosa’ e trabalha o limite de cada músico. Joe Jones, na bateria, por exemplo, teve que se virar um bocado para ditar o ritmo. Obrigando Coltrane a soltar o fraseado, talvez, de modo inquieto e sobressaltado demais…
Já a quarta faixa, “Diane”, foi o intervalo que eu necessitava para a segunda dose do licor. Ufa… Já mais relaxado na poltrona, ela me lembrou do Miles Davis de Paris, na segunda metade dos anos 50. “Não toque o que está lá, e sim o que não está!”, conclamava Miles ao seu quinteto. Creio que deu certo, uma vez que Coltrane, Paul Chambers, Joe Jones e Red Garland entenderam bem direitinho o recado dado pelo chefe!
Quando os primeiros acordes da terceira faixa, “Something I Dreamed Last Night”, foram soltos pelo suave trompete de Miles Davis, eles ecoaram livremente pelo escritório. Porém, reconheço, eu já estava na terceira dose do “43” e o mundo ao meu redor se mostrava leve e solto. Coisa linda!
A partir daí eu já não lembrava mais do vírus e nem do confinamento. Só pensava nas águas claras de Maragogi, em Alagoas. Debaixo daquela barraca, deitado na espreguiçadeira, a única coisa que eu percebia era o inebriante cheiro de camarão vindo da cozinha do bar. O que era aquilo, meus amigos?!
Foi quando veio a segunda faixa, “Salt Peanuts”. Chegou ‘atropelando geral’. Eu não tive nem tempo de pegar a bandeja de queijos, cortados em cubos. Afinal, Joe Jones estava ‘quebrando o barraco’, com um solo de mais de dois minutos de bateria! E eu, já sem fôlego, preferi encerrar a audição e deixar a primeira faixa para outro dia…
Afinal, eu já estava dormindo na rede cearense, talvez, sonhando com as águas verdes e cristalinas de Maragogi!