CELACANTO PROVOCA MAREMOTO – CRÔNICA

A ordem foi muito clara: todos deveriam comparecer às aulas do dia 13 de dezembro de 1968. Impreterivelmente! E aqueles que desobedecessem a orientação da direção da Escola arcariam com o ônus da ‘desobediência’…

Pois é, minha gente: eram tempos difíceis! O pior de tudo é que eu era o presidente do Grêmio Estudantil Viriato Corrêa e tinha a ‘responsabilidade’ de boicotar a ordem. “Carlos, nós representamos a resistência ao golpe. Temos a obrigação de combater esses absurdos, esses desmandos!”, ponderava Eduardo, o inflamado diretor cultural do grêmio.
Por conta disso, talvez já pensando na reação dos estudantes, o diretor da Escola se antecipou e convocou a diretoria do Grêmio para uma reunião do gabinete dele. Já viram, né?! Mal entrou o último representante da agremiação estudantil, o diretor iniciou a leitura do comunicado que seria afixado nas portas de cada sala de aula da escola.
“Em respeito ao Ato Institucional nº 5, a ser promulgado no dia 13 de dezembro, as férias escolares serão antecipadas para o dia 16 de dezembro de 1968”, leu em voz alta o emocionado diretor.

Nós ficamos sem nada dizer, aguardando apenas o desfecho da reunião. Mas o diretor voltou à carga: “nem preciso dizer a vocês que estarei na porta do meu gabinete amanhã aguardando a entrada dos alunos. E, evidentemente, terei ao meu lado toda a diretoria do grêmio como prova da adesão. Ficou claro?! Agora, queiram voltar para as suas respectivas aulas!”

Céus! Nunca vi um grupo tão desolado como aquele, meus amigos. Em outras épocas, por certo, a nossa reação seria pichar todos os muros em volta da escola com frases de repúdio. Mas, convenhamos: naquele momento seria um tresloucado suicídio… Afinal, a repressão viria com tudo, sabíamos disso.

No dia seguinte, quando cheguei ao colégio, estava um verdadeiro alvoroço. “Você viu, Carlos, o que escreveram nos muros?”, perguntou-me Cidinho, diretor musical do grêmio. “E aí, Carlos, o que significa aquilo?”

Saí apressado e fui até o portão de entrada da escola. Ao lado, uma enorme pichação estampava a frase: “IMUNIZAÇÃO RACIONAL: PAZ, EQUILÍBRIO E BÊNÇÃOS!”
Rapidamente criou-se uma aglomeração de estudantes e mil teorias foram aventadas para o significado da frase. Houve quem dissesse que aquilo representava a ‘retomada do poder’ por meio da “Cultura Racional”. Outros afirmaram que era um desagravo do movimento universitário, insatisfeito com a apatia dos estudantes secundaristas. Enfim, foram muitas teorias criadas no bojo da enigmática pichação. A verdade é que ninguém conseguiu saber o verdadeiro significado e o propósito daquela frase no muro…

O que eu sei dizer é que o mundo precisou girar mais um bocado. E após alguns anos, um dia eu cheguei mais cedo em casa, disposto a assistir a um filme qualquer na TV. Justo nesse dia, vejam vocês, estava programado o seriado “National Kid”, um verdadeiro ‘subproduto’ da indústria cinematográfica japonesa. O filme do dia era: “A revolta dos seres abissais: Celacanto provoca maremoto”. Céus! Não é que essa frase, “CELACANTO PROVOCA MAREMOTO”, espalhou-se por todos os cantos da cidade?

Aparecia em muros, bancas de jornal e tapumes de obras. Disseminava como uma verdadeira praga pela cidade…

Foi quando eu me lembrei da outra frase, “IMUNIZAÇÃO RACIONAL: PAZ, EQUILÍBRIO E BÊNÇÃOS”, que durante anos ficou pichada no velho muro de nossa escola. Além do sonho desfeito, ainda tivemos que pagar um alto preço pela ignorância. Como consequência, equivocadamente assumimos que a pichação era coisa de ‘comunista’ ou algo assim.

Agora, eu tenho algo a confessar, meus amigos. Eu nem tive coragem de contar isso na reunião de confraternização dos 50 anos do grêmio estudantil….

 

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OS  ‘CANGACEIROS’  DA  ZAMENHOF – crônica

É bem verdade que eu já conhecia muitos truques do Luiz Henrique. Mas, o fato é que ele era um cara muito esperto e sempre tinha um ‘ás de espada’ escondido na manga, lá, isso sim. Além do mais, nós devemos reconhecer um oponente de peso, qualificado para as ‘missões’, não é verdade?

E a missão do dia era comer frutas na chácara da colina da Quintino do Vale. Para tanto, formamos três grupos de ‘voluntários’, muito embora nem todos podiam ser considerados como ‘voluntários’, porquanto não era dado a ninguém o direito de escolha. Caso alguém ‘amarelasse’, os cascudos comiam solto!

O meu pelotão era formado por Isaac, Durval e eu. O do Luiz Henrique tinha o Roberto, Pedro Itália e ele. Já o grupo do Edinho contava ele e mais o Paulinho e Celso Cabeção. Nem preciso dizer que a escolha dos grupos demorou quase a manhã inteira, pois sempre vinham as reclamações. Havia queixas contra o Roberto, pois era desajeitado e muito gordo para subir nas árvores. Acusavam também o Celso Cabeção de ‘esconder’ as melhores frutas e por aí afora…

Assim, sanadas as ‘pendências’, fomos em direção à chácara. A primeira dificuldade era pular o muro lateral, uma vez que o portão era vigiado pelos moradores do prédio ao lado. E aí, já viram: como era alto, tínhamos de dar ‘cadeirinha’ para o ‘pesado’ Roberto… Ufa!

Já no lado de dentro, Ênio marcava no relógio um minuto cravado para o início. Os grupos, portanto, tinham que escolher a árvore da sua preferência. Só depois disso é que começava a subida dos pelotões para o desafio.

Enquanto corria a contagem, eu fiquei de olho na velha mangueira, uma vez que por ser dezembro haveria mangas a dar no pau… Luiz Henrique preferiu o sapotizeiro, pois considerava a subida mais rápida. E Edinho apostou tudo no pé de carambola.

Sim! O combinado era que todos os grupos levassem sacolas de pano para colocar as frutas. Ao descermos, faríamos a contagem delas e saberíamos qual grupo era o vencedor. Ah, outra coisa importante é que o grupo perdedor, efetivamente, seria perdedor! Ou seja, ficaria sem nenhuma fruta, pois teria que ‘doar a colheita’ aos grupos vencedores. Desse modo, chupariam apenas os próprios dedos!

Contudo, minha gente, sempre há o ‘elemento surpresa’ em qualquer empreitada, não é o que dizem? Nesse caso, ele veio de onde menos esperávamos: Celso Cabeção. É que já estava acabando o tempo da prova, devidamente cronometrada por Ênio. E ao anunciar que faltavam dois minutos para o término, podíamos perceber que o pelotão de Edinho estava em apuros, já que a caramboleira tinha pouquíssimas frutas. Notamos também que somente dois integrantes deles estavam na árvore. Celso Cabeção, não sei por qual motivo, havia descido. Por conta disso, nós tínhamos mais tempo para escolher as melhores frutas. E o clima de ‘vitória’ já transparecia entre nós, sabe como é?!

Faltando trinta segundos para o fim da prova, ouvimos apenas o forte zunido da pedra arremessada por Celso Cabeção. Pimba! Bateu bem no principal vespeiro que estava na jaqueira do centro do terreno. Meu Deus do Céu.. Voou vespas para todos os lados e começou o corre-corre!

Resumindo: pulamos das árvores feito condenados e deixamos cair as sacolas com as frutas colhidas. Em pânico, saímos da chácara o mais rápido possível. Somente quando chegamos no prédio da Zamenhof é que paramos de correr. Foi feita a contagem e deu Edinho na cabeça. Meu pelotão ficou em último lugar, vejam vocês, por causa da artimanha de Celso Cabeção…. Desgraçado!!

Chacara

MENSAGEM PARA ALEXANDRE – crônica

“Vivemos de beleza, de silêncio e belezas. / Trilhamos uma estrada incerta e traiçoeira. / A estrada perfumada por um crime.”    (“Aparência”, de Marcos José Konder Reis).

 

Pois é, Alexandre. Você bem sabe o quanto lhe sou grato pela ajuda recebida. Algo que transcende a relação profissional entre o médico e o paciente. Afinal de contas, você foi o artesão responsável por esta ‘reconstrução’. Por isso mesmo, tornou-se muito importante saber que você me lê. Aliás, é bom que se diga, foi você que me incentivou a botar a mão nessa ‘caixa-preta’ e extrair de lá o que pudesse… Como as coisas que tenho escrito, por exemplo. Sim! Você tem agido como um catalisador, compreende? Além disso, nós temos em comum o gosto pelas letras, pelas memórias e, principalmente, pelas emoções que elas desencadeiam.

Também sei, amigo Alexandre, que os tempos andam bicudos. E que, por isso mesmo, nós temos tido poucos motivos para comemorar, não é verdade? Ainda assim, eu insisto: foi você que abriu as comportas da velha represa. Portanto, tornou-se ‘cúmplice’ pelo que ainda está para vazar…

Essa introdução toda, Alexandre, serve apenas para lhe dizer que estou às portas da minha merecida aposentadoria e, com isso, quero me dedicar com mais corpo e alma ao ofício da escrita. Já tenho prontos dois livros: sendo mais um de crônicas e outro de contos. E planos para um romance, se fôlego eu tiver para essa longa e difícil empreitada.

Aliás, certa vez assisti a uma entrevista com o ‘mestre’ Jorge Amado e lá pelas tantas ele falou do pânico que sentia toda vez que escrevia um novo romance. Ainda que ele já tivesse escrito dezenas de bons livros, mesmo assim, sempre sentia ‘pânico’. Da mesma forma, o meu querido tio Holdemar vivia momentos de profundo ‘sofrimento’ quando criava um livro novo. Tadinho… O homem penava feito um órfão abandonado!

Quanto a mim, não sei dizer como será o processo. Por ora, percebo apenas que eu me sinto ‘revigorado’ toda vez que produzo um texto novo. É como se eu estivesse ‘quitando’ antigas dívidas, Alexandre. De certo modo, creio, acho que isso é verdadeiro e que, de fato, eu estou ‘quitando’ antigas dívidas. Desse modo, consigo fazer as pazes com o meu passado.

Então, sigamos a vida…

 

Em tempo: há dois anos, João Pedro estava sendo apresentado ao mar dos Ingleses. Por certo, ele ficou profundamente encantado. E eu… bem mais ainda!

Eu e JP

PÉ NA ESTRADA – crônica

Que ele era um homem diferenciado, ah! disso ninguém duvidava. Mas o fato é que nem mesmo os filhos conheciam suas andanças, suas paixões e seus amores extraviados. Porquanto ele era uma criatura bastante reservada. Tímida, até. E o que eu posso dizer, meus amigos, é que reencontrá-lo na pacata e hospitaleira Petrópolis foi algo inusitado e emocionante. Aliás, somente após aquela tarde, ouvindo suas histórias, é que eu pude perceber o quanto a vida muitas vezes pode ser incompreensível ou até mesmo injusta… Lá, isso é verdade!

Afinal, ali ao meu lado estava uma das mais incríveis criaturas que eu conheci na vida. Por certo, um homem brilhante. Ético. Culto e generoso. No entanto, devo reconhecer, nem mesmo tais atributos são suficientes para tornar um homem feliz e realizado. E Luiz sabia disso. Tanto é verdade que ele não se surpreendeu quando Glória, sua companheira, mais uma vez reclamou sobre a desarrumação da sala de estar… Sem nada dizer, Luiz foi para o quarto, organizou as duas malas e, ao passar pela cozinha, anunciou: “eu estou indo embora. Vou para Jackson!”

– E por diabos, onde fica isso?, perguntou Glória.

– Tennessee!

– Tá bom… pode ir. Mas, ao menos, penteia o cabelo!

Pois é, meus amigos… já se passaram vinte anos desse episódio. E confesso a vocês que eu gostaria de ter notícias do amigo Luiz. Saber se a vida foi generosa com ele… essas coisas que o destino apronta. Mas quem consegue entender?! Talvez, somente bebendo um “Jack Daniel’s” e ouvindo um emocionado “country-blues”, Jackson, embalado pelas vozes de Johnny Cash e June Carter:

“Nós nos casamos numa febre, mais quente que um broto de pimenta,

Nós temos conversado sobre Jackson desde que o fogo se foi.

Estou indo para Jackson, eu vou arrasar,

Sim! Eu vou para Jackson,

Se cuida, cidade de Jackson.

Bem, vá para Jackson; vá em frente e acabe com a sua saúde.

Vá tentar a sua sorte, seu grande tagarela, faça um grande bobo de você mesmo,

Sim! Vá para Jackson, vá pentear seu cabelo!

Querida eu vou curtir em Jackson

Veja se eu me importo!

Quando eu chegar naquela cidade, as pessoas vão me reverenciar.

Todas as mulheres vão querer que eu as ensine o que elas não sabem,

Eu vou para Jackson, não tente me impedir.

Porque estou indo para Jackson.

‘Tchau’, foi tudo o que ela escreveu.

Mas elas vão rir de você em Jackson e eu vou estar curtindo um barril de cerveja.

Elas vão te levar pela cidade como um cão escaldado,

Com o seu rabo enfiado entre as pernas,

Sim, vá para Jackson, seu grande tagarela.

E eu vou estar esperando em Jackson, atrás do meu leque japonês.

Nós nos casamos numa febre, mais quente que um broto de pimenta,

Nós temos conversado sobre Jackson desde que o fogo se foi.

Estou indo para Jackson, e isto é um fato.

Sim, nós vamos para Jackson, para nunca mais voltar…”

JackDaniels

ÊNIO E A SOLUÇÃO DOS PROBLEMAS – crônica

Eu bem sei que os ‘valores da vida’ sofrem bruscas transformações. Muitas vezes, é verdade, eles ficam por conta de certos modismos. Outras vezes, no entanto, o que dita o ritmo é apenas o senso de oportunidade. E estratégia! Mas, calma, aí, minha gente… Eu explico.

É que o Ênio era um companheiro especial, dotado de rara inteligência e senso de observação. Em nossas brincadeiras juvenis, lá pelos idos de 1965, Ênio sempre tinha uma solução inusitada e, invariavelmente, brilhante. Algumas vezes, é bom que se diga, isso causava irritação até na gente, pois morríamos de inveja de sua alta criatividade.

Aliás, nesse particular, se pensarmos bem, veremos que o mundo continua o mesmo. Ou seja: são poucos os que efetivamente ‘criam’, já que a grande maioria da galera apenas ‘copia’. No fundo, devemos reconhecer, isso é injusto. Mas, fazer o quê, meus amigos? A mediocridade sempre será maioria em qualquer ‘peleja’ que se tenha pela frente. Portanto, o melhor é deixar pra lá. Tem coisas mais importantes pela frente…

Lembro também que certo dia nós estávamos querendo abrir um ‘clubinho’ no saguão de entrada do nosso edifício. Porém, não conseguíamos adesão dos proprietários dos apartamentos do prédio. Muito embora fizéssemos forte campanha junto aos moradores, ainda assim, os resultados eram pífios.

Até que o Ênio chegou e, ao ver o nosso desespero, argumentou: não são os pais que vão definir os rumos da votação, pessoal. São os filhos, nossos colegas, isso sim! Foi quando ele se sentou na cisterna da garagem e começou a fazer desenhos em várias folhas. Quando terminou, Ênio pediu que afixássemos os cartazes no elevador, no “hall” de entrada, nas lixeiras e em todos os lugares de grande circulação. Eram desenhos de crianças brincando. Crianças com semblantes felizes. Moral da história: no dia marcado para a votação, houve alto comparecimento dos pais e fortíssima adesão à nossa reivindicação… Ganhamos de lavada, com 78% dos votos favoráveis. Agora, nós tínhamos um espaço só nosso: com mesa de totó, pingue-pongue e futebol de botão. Com isso, Ênio se tornara o nosso verdadeiro herói!

Depois disso, o mundo girou mais um bocado. E o indefectível tempo, sim, parece ter passado mais ligeiro que os nossos sonhos. Daí, nós começamos a trilhar outros caminhos, bem mais difíceis e complicados. E para mim, ainda havia um problema a mais a enfrentar: a súbita ausência de Ênio, que resolver nos deixar. Como consequência, a minha capacidade de ‘ponderar’ sofreu um forte abalo, uma vez que eu não recebia mais os sensatos “argumentos” de Ênio.

Pois é, meus amigos. Para meu infortúnio, a partir daquele momento eu tive que ‘crescer’ sozinho. De um jeito ou de outro. Afinal, Ênio não estava mais entre nós…

Até que um dia eu fui apresentado à obra de Guimarães Rosa. Somente assim é que fui compreender essa difícil e emaranhada questão: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem…”

 

(Foto:  o meu querido ‘Canelau’, quando tinha apenas 10 anos!)

Canelau

“GALOS, NOITES E QUINTAIS” – crônica

Há quem afirme que ‘nordestino’ não é somente aquele que nasce no Nordeste. Não! Bem mais do que isto, nordestino é aquele que ‘carrega’ o Nordeste dentro de si por onde quer que vá…

“GALOS, NOITES E QUINTAIS”

Outro dia eu estava dirigindo o carro, indo para o trabalho e, como de hábito, acabei colocando o “pendrive” para tocar com as músicas favoritas. Pois não é que o sistema aleatório de escolha musical me pôs, logo de cara, a belíssima canção de Belchior, intitulada “Galos, noites e quintais”? Céus! Eu sou louco por essa melodia! Até porque ela já embalou inúmeros momentos de minha vida. E quase sempre, para minha sorte, foi me conduzindo de modo ‘harmonioso’ em direção ao meu desarrumado interior… Fazer o quê?!

Então me lembrei dos versos da canção. Timidamente abaixei o volume e comecei a cantarolar: “Quando eu não tinha o olhar lacrimoso / Que hoje eu trago e tenho / Quando adoçava meu pranto e meu sono / No bagaço de cana do engenho / Quando eu ganhava esse mundo de Meu Deus / Fazendo eu mesmo o meu caminho / Por entre as fileiras do milho verde / Que ondeia, com saudade do verde marinho…”

Pois é, minha gente. Quando se tem 26 anos, em 1977, ano em que essa música foi construída, parece que o mundo todo é inocente e cabe na palma de nossa mão. Por isso, talvez, nós guardamos tantos sonhos e tantos projetos para serem concretizados depois…

“Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo / O mal que a força sempre faz / Não sou feliz, mas não sou mudo / Hoje eu canto muito mais”.

O que sei dizer é que, pelo sim ou pelo não, essa música me abriu as portas dos sonhos e me apresentou ao novo mundo. Assim, investido com as minhas esperanças, aos vinte e cinco anos de idade iniciei uma viagem semelhante à do poeta Mario Quintana, quando confessou: “Aliás, a casa me assustava mais do que o mundo, lá fora. A casa era maior do que o mundo! E até hoje – mesmo depois que destruíram a casa grande – até hoje eu vivo explorando os seus esconderijos…”

Independente do meu percurso, o mundo girou mais um bocado. Seguiu a roda do seu caminho e me apontou alguns novos para escolher. E foi por conta disso que, desde cedo, compreendi que o destino de uma criatura é algo mágico e individual, por mais coletiva que seja a nossa trajetória. E desse modo, venho pelejando nesta vida, tentando fazer o meu melhor. Sabendo que tanto posso errar aqui, quanto ter medos, acolá… Afinal, como dizia ‘Riobaldo’, do Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso!”

Talvez seja, companheiro, talvez, não. Mas o que importa nesta vida é que cada um descubra o seu ‘motivo’; cada um que dê conta do seu legado e as diferentes ‘sentenças’ para cumprir. O resto, convenhamos, é apenas paisagem…

“Não sou feliz, mas não sou mudo / Hoje eu canto muito mais..”

‘ESTÁCIO’, MEU VELHO E QUERIDO AMIGO – crônica

Ah! meu velho Estácio, quantas vezes eu evoquei você em pensamento. Isto porque, saiba, foi você o responsável por quase tudo que aprendi. E continua me acompanhando em muitas viagens. Em quase todas, reconheço, foram bons os caminhos que trilhei… Sim! Por isso mesmo eu devo a você, meu amigo, boa parte das esperanças que conservei. Por sinal, foi com você que eu aprendi a ‘soletrar’ esse mundo… Disso, eu nunca esquecerei, parceiro!
É bem verdade que já faz um bom tempo que deixei gravado nas esquinas do bairro a memória de um menino ávido para conhecer a vida. Mas ele cresceu. Tornou-se um rapaz inquieto e um homem perseverante: desses que buscam na vida algum sentido a mais, além da mera sobrevivência… E não terá sido surpresa para você, meu bom Estácio, que esse menino tenha buscado o magistério e se tornado professor de química.
Aliás, você bem sabe, ele sempre se mostrou grato aos professores que o ajudaram a formar o caráter. Talvez, pelo fato de ter estudado a vida inteira em escolas públicas, esse fosse o caminho natural: quitar essa antiga ‘dívida’, repassando o conhecimento para outras gerações.
A seguir, vieram dois casamentos, sem a presença dos desejados filhos; vieram mudanças no percurso, cidades e amigos a conquistar; vieram novos sonhos e novos desejos de família. E foi proveitosa tal insistência, pois rendeu a ele um lindo filho e uma esposa maravilhosa.
No entanto, apesar de todo o ‘chacoalhar’ dessa viagem, o certo é que ele nunca perdeu de vista as origens nordestinas. Tampouco as lembranças desse velho e querido amigo, Estácio.
Afinal, foi ali na esquina da Zamenhof que eu fui compreender a importância e o legado que vêm das ladeiras do Estácio. E caso alguém duvide, basta lembrar a linda canção de Luiz Melodia:

“Se alguém quer matar-me de amor
Que me mate no Estácio
Bem no compasso, bem junto ao passo
Do passista da escola de samba
Do Largo do Estácio

O Estácio acalma o sentido dos erros que faço
Trago, não traço, faço, não caço
O amor da morena maldita domingo no espaço
Fico manso, amanso a dor
Holiday é um dia de paz
Solto o ódio, mato o amor
Holiday eu já não penso mais…”

( Imagem: Largo do Estácio, 1940 – Foto de Ferreira Júnior )

Estácio

 

AS RESPOSTAS DO TEMPO – crônica

 

Outro dia eu estava organizando a pasta de imagens no meu computador. Foi quando descobri que possuía muitas fotos: novas e velhas. E aí, meus amigos, eu acabei me deparando com uma série especial que havia feito ao visitar a ‘Feira Cultural’ do colégio do meu filho. É que na escola dele havia um grande painel afixado na parede contendo diversas frases de renomados escritores. Lembro até que parei para ler e me deliciei com tanta sabedoria estampada nas paredes. É bem verdade que algumas frases eu já conhecia, e admirava. Mas houve uma, em particular, que me chamou a atenção: a do escritor Luís Fernando Veríssimo. No improvisado cartaz estava escrito: “Quando a gente acha que têm todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas!”

Nossa! Aquilo me bateu fundo, minha gente. Senti até saudades das ricas e densas sessões de terapia… Isto porque, estando eu próximo dos 70 anos de vida, inevitavelmente surge o questionamento: “E se mudarem as minhas perguntas, que faço das respostas que garimpei até agora?!”

Pois é. Queiramos ou não, isso é algo que teremos que encarar. E por certo, haveremos de responder às indagações que o mundo coloca em nossa frente. Porquanto a vida, desafortunadamente, não pede intervalo ou pausa para pensar e tampouco concede “salvo-conduto” aos inadimplentes, não acham? Por outro lado, de algum modo, também festejo a chegada dessas ‘novas’ demandas, visto que somente assim poderemos ter novas possibilidades para respostas. E aí, que sabe, poderemos acertar algumas ‘coisinhas’ que não soubemos responder adequadamente nas primeiras vezes?!

Então, que venham as perguntas!

Verissimo

HISTÓRIAS DE PROFESSORES – Parte 1

O que eu posso dizer é que aquele período dos anos 70 e 80, no Rio de Janeiro, foi de muita efervescência para os professores que trabalhavam nos cursinhos pré-vestibulares. Sim! É que havia uma ferrenha disputa entre os inúmeros cursinhos para ver quem aprovava mais no vestibular. Verdade é que eles gastavam verdadeiras fortunas em propagandas nos jornais e TV, cada um afirmando que possuía a melhor equipe de professores, as maiores salas de aula e o material didático mais adequado possível. Naquela época valia qualquer esforço para conseguir o disputado aluno, desde concurso de bolsas de estudo aos treinamentos de provas simuladas no próprio Maracanã, local onde aconteciam as provas do vestibular unificado.
Lembro bem que em 1973 eu era o novato na equipe de quinze professores de química, com apenas 22 anos de idade. E evidentemente, por ser novato, peguei as últimas 13 aulas da grade no período noturno, sendo 8 em Madureira e 5 em Niterói. Ou seja, era o que cabia a um “soldado raso” naquele batalhão de professores com capitães, majores, coronéis e até generais.
Contudo, como dizem por aí, o “tempo” é o melhor aliado do homem. Por isso, passados apenas três anos, eu já tinha a patente de coronel e era respeitado na equipe. Porquanto na hora que a equipe se reunia para resolver as questões e divulgar o gabarito da prova do vestibular, sim, o “bicho pegava” e muitos majores, coronéis e até generais sumiam do quartel pois, no fundo, tinham mais fama do que competência…
No entanto, o que eu gostaria de contar era o caso ocorrido com o Reinaldo, o melhor professor de matemática do cursinho. Ainda que o tratassem como capitão ou major, por ser autodidata, sem ter finalizado nenhum curso superior, Reinaldo era, antes de tudo, “auleiro”. E dos melhores, meus amigos!
O antológico “causo” se passou em um outro cursinho, onde Reinaldo dava aulas. Certo dia o coordenador geral do curso procurou o Reinaldo para solicitar a indicação de um professor de inglês. Reinaldo, imediatamente, disse que conhecia o melhor professor de inglês com quem trabalhara.
– Ótimo, Reinaldo. Peça para que venha falar comigo!
– Tudo bem. Eu encontro com ele hoje e transmito o seu recado. Só tem um pequeno problema: é que ele usa aparelho para surdez e teve que trocar as pilhas e só chegam depois de amanhã. Portanto, amanhã, quando ele vier para a entrevista estará sem o aparelho. Desse modo, para não o constranger sugiro que o senhor fale bem alto com ele.
– Combinado!
Quando chegou a noite, a primeira coisa que o Reinaldo fez foi acertar o encontro com o Miranda, professor de inglês.
– Miranda, é o seguinte: o coordenador geral do curso é surdinho. Portanto, quando você for para a entrevista, não se esqueça de falar bem alto. Ele fica “pau da vida” quando alguém fala baixo com ele… sabe como é?!
-Tranquilo. Deixa comigo!
A partir daí, meus amigos, o relato dos funcionários do cursinho foi bastante rico em detalhes. Segundo eles, o Miranda, professor de inglês, foi conduzido até a sala do coordenador geral. Lá, chegando, deu-se o seguinte diálogo:

– BOM DIA, PROFESSOR!
– BOM DIA…
– O SENHOR RECEBEU AS MELHORES REFERÊNCIAS… SABE QUE SÃO APENAS DEZ AULAS?!
– SEM PROBLEMAS!
O coordenador, já incomodado com a gritaria, perguntou?
– O SENHOR ESTÁ GRITANDO POR QUÊ?!
– FALO ALTO PORQUE SOUBE QUE O SENHOR É SURDO…
– SURDO, PORRA NENHUMA! QUEM LHE DISSE ISSO?

Aí, os dois se olharam e só então perceberam que era uma ‘pegadinha’. Sem que combinassem, deram uma bela e sonora gargalhada.
– Ah, só podia ser coisa do Reinaldo… Um verdadeiro ‘caco’!