OS NOSSOS DESTINOS NAS MÃOS DE DONA EFIGÊNIA

É o tal negócio: uma coisa sempre depende de outra. Talvez, por isso, a primeira coisa acertada a fazer era ganhar o famigerado ‘par ou ímpar’. No entanto, eu nunca tive sorte nessa disputa… Paciência, fazer o quê? Tem sempre gente ‘sortuda’ nesse mundo, não é verdade? Tem gente que ganha tudo: rifas, sorteios nas quermesses e acertam até na loteria com uma facilidade que me irrita… Como conseguem isso?!

Bem… Certo mesmo é que no futebol de rua o importante era ganhar o bendito par ou ímpar, já que assim podíamos escolher de cara o ‘Chiquinho’, o craque do nosso bairro. Desse modo, é verdade, nós começávamos com meio caminho andado. Afinal, Chiquinho só faltava fazer chover naquela ladeira da Zamenhof, no velho e bom Estácio dos anos 60. Já os meninos do outro time, irritados com o talento dele, procuravam derrubá-lo de uma forma ou de outra. Mesmo assim, Chiquinho aguentava tudo calado, sem reclamar do jogo desleal dos adversários. Preferia ‘responder’ na bola!

Quanto a mim, confesso, eu era apenas um coadjuvante sofrível, mas que se esforçava para não comprometer. Só não gostava de ir para o gol, pelo sistema de rodízio, uma vez que eu não era lá muito ‘corajoso’. Aliás, é preciso reconhecer, encarar as ‘bombas’ que vinham do lado de cima da ladeira não é para qualquer um não…

Também é verdade que a minha ‘carreira de jogador’ não durou muito. Porquanto havia na rua o tal do ‘Luisão-maluco’ que me intimidava em cada partida. Céus, bastava eu dar um drible bem dado e lá vinha a ‘cacetada’ por trás. Nem precisava me virar para saber que era a ‘praga’ do Luisão-maluco. Ele até anunciava em voz alta: “se tentar fazer gracinha aqui, meu chapa, vai levar porrada!” E para piorar a situação, ele tinha meio metro a mais do que eu, além dos quinze quilos a mais… de músculos! Aí, já viram, né?!

Foi quando eu resolvi que o melhor a fazer era jogar ‘golzinho’ com bola de meia. Era algo que exigia habilidade, concentração e não envolvia time algum, uma vez que era um esporte individual. Apenas um de cada lado da rua. E não é que eu me especializei no jogo e me tornei bom jogador?!

O diabo era quando eu estava do outro lado da rua e tinha que arremessar para o lado do prédio. Já viram, né?! De vez em quando, a gente errava a mira e acertava a vidraça do segundo andar. Putz… Aí, era um salve-se quem puder! Eu corria o mais rápido que podia para não ser pego pela D. Efigênia… Isso porque, minha gente, além do ‘esculacho’ pelo prejuízo da vidraça e o castigo que levaríamos dos pais, o mais doloroso era ter que frequentar as aulas de violino que a D. Efigênia impunha. Isto porque, após várias vidraças quebradas, essa foi a forma que ela encontrou para que demonstrássemos ‘arrependimento’ pelo ‘delito’ cometido. Ou seja: tínhamos que assistir as aulas de violino durante mais de um mês. E, convenhamos, naquela época não havia o Supremo Tribunal Federal para nos conceder “habeas corpus” e nos libertar da fatídica sentença!

 

bola de meia