CELACANTO PROVOCA MAREMOTO – CRÔNICA

A ordem foi muito clara: todos deveriam comparecer às aulas do dia 13 de dezembro de 1968. Impreterivelmente! E aqueles que desobedecessem a orientação da direção da Escola arcariam com o ônus da ‘desobediência’…

Pois é, minha gente: eram tempos difíceis! O pior de tudo é que eu era o presidente do Grêmio Estudantil Viriato Corrêa e tinha a ‘responsabilidade’ de boicotar a ordem. “Carlos, nós representamos a resistência ao golpe. Temos a obrigação de combater esses absurdos, esses desmandos!”, ponderava Eduardo, o inflamado diretor cultural do grêmio.
Por conta disso, talvez já pensando na reação dos estudantes, o diretor da Escola se antecipou e convocou a diretoria do Grêmio para uma reunião do gabinete dele. Já viram, né?! Mal entrou o último representante da agremiação estudantil, o diretor iniciou a leitura do comunicado que seria afixado nas portas de cada sala de aula da escola.
“Em respeito ao Ato Institucional nº 5, a ser promulgado no dia 13 de dezembro, as férias escolares serão antecipadas para o dia 16 de dezembro de 1968”, leu em voz alta o emocionado diretor.

Nós ficamos sem nada dizer, aguardando apenas o desfecho da reunião. Mas o diretor voltou à carga: “nem preciso dizer a vocês que estarei na porta do meu gabinete amanhã aguardando a entrada dos alunos. E, evidentemente, terei ao meu lado toda a diretoria do grêmio como prova da adesão. Ficou claro?! Agora, queiram voltar para as suas respectivas aulas!”

Céus! Nunca vi um grupo tão desolado como aquele, meus amigos. Em outras épocas, por certo, a nossa reação seria pichar todos os muros em volta da escola com frases de repúdio. Mas, convenhamos: naquele momento seria um tresloucado suicídio… Afinal, a repressão viria com tudo, sabíamos disso.

No dia seguinte, quando cheguei ao colégio, estava um verdadeiro alvoroço. “Você viu, Carlos, o que escreveram nos muros?”, perguntou-me Cidinho, diretor musical do grêmio. “E aí, Carlos, o que significa aquilo?”

Saí apressado e fui até o portão de entrada da escola. Ao lado, uma enorme pichação estampava a frase: “IMUNIZAÇÃO RACIONAL: PAZ, EQUILÍBRIO E BÊNÇÃOS!”
Rapidamente criou-se uma aglomeração de estudantes e mil teorias foram aventadas para o significado da frase. Houve quem dissesse que aquilo representava a ‘retomada do poder’ por meio da “Cultura Racional”. Outros afirmaram que era um desagravo do movimento universitário, insatisfeito com a apatia dos estudantes secundaristas. Enfim, foram muitas teorias criadas no bojo da enigmática pichação. A verdade é que ninguém conseguiu saber o verdadeiro significado e o propósito daquela frase no muro…

O que eu sei dizer é que o mundo precisou girar mais um bocado. E após alguns anos, um dia eu cheguei mais cedo em casa, disposto a assistir a um filme qualquer na TV. Justo nesse dia, vejam vocês, estava programado o seriado “National Kid”, um verdadeiro ‘subproduto’ da indústria cinematográfica japonesa. O filme do dia era: “A revolta dos seres abissais: Celacanto provoca maremoto”. Céus! Não é que essa frase, “CELACANTO PROVOCA MAREMOTO”, espalhou-se por todos os cantos da cidade?

Aparecia em muros, bancas de jornal e tapumes de obras. Disseminava como uma verdadeira praga pela cidade…

Foi quando eu me lembrei da outra frase, “IMUNIZAÇÃO RACIONAL: PAZ, EQUILÍBRIO E BÊNÇÃOS”, que durante anos ficou pichada no velho muro de nossa escola. Além do sonho desfeito, ainda tivemos que pagar um alto preço pela ignorância. Como consequência, equivocadamente assumimos que a pichação era coisa de ‘comunista’ ou algo assim.

Agora, eu tenho algo a confessar, meus amigos. Eu nem tive coragem de contar isso na reunião de confraternização dos 50 anos do grêmio estudantil….

 

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