OS  ‘CANGACEIROS’  DA  ZAMENHOF – crônica

É bem verdade que eu já conhecia muitos truques do Luiz Henrique. Mas, o fato é que ele era um cara muito esperto e sempre tinha um ‘ás de espada’ escondido na manga, lá, isso sim. Além do mais, nós devemos reconhecer um oponente de peso, qualificado para as ‘missões’, não é verdade?

E a missão do dia era comer frutas na chácara da colina da Quintino do Vale. Para tanto, formamos três grupos de ‘voluntários’, muito embora nem todos podiam ser considerados como ‘voluntários’, porquanto não era dado a ninguém o direito de escolha. Caso alguém ‘amarelasse’, os cascudos comiam solto!

O meu pelotão era formado por Isaac, Durval e eu. O do Luiz Henrique tinha o Roberto, Pedro Itália e ele. Já o grupo do Edinho contava ele e mais o Paulinho e Celso Cabeção. Nem preciso dizer que a escolha dos grupos demorou quase a manhã inteira, pois sempre vinham as reclamações. Havia queixas contra o Roberto, pois era desajeitado e muito gordo para subir nas árvores. Acusavam também o Celso Cabeção de ‘esconder’ as melhores frutas e por aí afora…

Assim, sanadas as ‘pendências’, fomos em direção à chácara. A primeira dificuldade era pular o muro lateral, uma vez que o portão era vigiado pelos moradores do prédio ao lado. E aí, já viram: como era alto, tínhamos de dar ‘cadeirinha’ para o ‘pesado’ Roberto… Ufa!

Já no lado de dentro, Ênio marcava no relógio um minuto cravado para o início. Os grupos, portanto, tinham que escolher a árvore da sua preferência. Só depois disso é que começava a subida dos pelotões para o desafio.

Enquanto corria a contagem, eu fiquei de olho na velha mangueira, uma vez que por ser dezembro haveria mangas a dar no pau… Luiz Henrique preferiu o sapotizeiro, pois considerava a subida mais rápida. E Edinho apostou tudo no pé de carambola.

Sim! O combinado era que todos os grupos levassem sacolas de pano para colocar as frutas. Ao descermos, faríamos a contagem delas e saberíamos qual grupo era o vencedor. Ah, outra coisa importante é que o grupo perdedor, efetivamente, seria perdedor! Ou seja, ficaria sem nenhuma fruta, pois teria que ‘doar a colheita’ aos grupos vencedores. Desse modo, chupariam apenas os próprios dedos!

Contudo, minha gente, sempre há o ‘elemento surpresa’ em qualquer empreitada, não é o que dizem? Nesse caso, ele veio de onde menos esperávamos: Celso Cabeção. É que já estava acabando o tempo da prova, devidamente cronometrada por Ênio. E ao anunciar que faltavam dois minutos para o término, podíamos perceber que o pelotão de Edinho estava em apuros, já que a caramboleira tinha pouquíssimas frutas. Notamos também que somente dois integrantes deles estavam na árvore. Celso Cabeção, não sei por qual motivo, havia descido. Por conta disso, nós tínhamos mais tempo para escolher as melhores frutas. E o clima de ‘vitória’ já transparecia entre nós, sabe como é?!

Faltando trinta segundos para o fim da prova, ouvimos apenas o forte zunido da pedra arremessada por Celso Cabeção. Pimba! Bateu bem no principal vespeiro que estava na jaqueira do centro do terreno. Meu Deus do Céu.. Voou vespas para todos os lados e começou o corre-corre!

Resumindo: pulamos das árvores feito condenados e deixamos cair as sacolas com as frutas colhidas. Em pânico, saímos da chácara o mais rápido possível. Somente quando chegamos no prédio da Zamenhof é que paramos de correr. Foi feita a contagem e deu Edinho na cabeça. Meu pelotão ficou em último lugar, vejam vocês, por causa da artimanha de Celso Cabeção…. Desgraçado!!

Chacara