“GALOS, NOITES E QUINTAIS” – crônica

Há quem afirme que ‘nordestino’ não é somente aquele que nasce no Nordeste. Não! Bem mais do que isto, nordestino é aquele que ‘carrega’ o Nordeste dentro de si por onde quer que vá…

“GALOS, NOITES E QUINTAIS”

Outro dia eu estava dirigindo o carro, indo para o trabalho e, como de hábito, acabei colocando o “pendrive” para tocar com as músicas favoritas. Pois não é que o sistema aleatório de escolha musical me pôs, logo de cara, a belíssima canção de Belchior, intitulada “Galos, noites e quintais”? Céus! Eu sou louco por essa melodia! Até porque ela já embalou inúmeros momentos de minha vida. E quase sempre, para minha sorte, foi me conduzindo de modo ‘harmonioso’ em direção ao meu desarrumado interior… Fazer o quê?!

Então me lembrei dos versos da canção. Timidamente abaixei o volume e comecei a cantarolar: “Quando eu não tinha o olhar lacrimoso / Que hoje eu trago e tenho / Quando adoçava meu pranto e meu sono / No bagaço de cana do engenho / Quando eu ganhava esse mundo de Meu Deus / Fazendo eu mesmo o meu caminho / Por entre as fileiras do milho verde / Que ondeia, com saudade do verde marinho…”

Pois é, minha gente. Quando se tem 26 anos, em 1977, ano em que essa música foi construída, parece que o mundo todo é inocente e cabe na palma de nossa mão. Por isso, talvez, nós guardamos tantos sonhos e tantos projetos para serem concretizados depois…

“Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo / O mal que a força sempre faz / Não sou feliz, mas não sou mudo / Hoje eu canto muito mais”.

O que sei dizer é que, pelo sim ou pelo não, essa música me abriu as portas dos sonhos e me apresentou ao novo mundo. Assim, investido com as minhas esperanças, aos vinte e cinco anos de idade iniciei uma viagem semelhante à do poeta Mario Quintana, quando confessou: “Aliás, a casa me assustava mais do que o mundo, lá fora. A casa era maior do que o mundo! E até hoje – mesmo depois que destruíram a casa grande – até hoje eu vivo explorando os seus esconderijos…”

Independente do meu percurso, o mundo girou mais um bocado. Seguiu a roda do seu caminho e me apontou alguns novos para escolher. E foi por conta disso que, desde cedo, compreendi que o destino de uma criatura é algo mágico e individual, por mais coletiva que seja a nossa trajetória. E desse modo, venho pelejando nesta vida, tentando fazer o meu melhor. Sabendo que tanto posso errar aqui, quanto ter medos, acolá… Afinal, como dizia ‘Riobaldo’, do Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso!”

Talvez seja, companheiro, talvez, não. Mas o que importa nesta vida é que cada um descubra o seu ‘motivo’; cada um que dê conta do seu legado e as diferentes ‘sentenças’ para cumprir. O resto, convenhamos, é apenas paisagem…

“Não sou feliz, mas não sou mudo / Hoje eu canto muito mais..”