Crônica: Ópios de emergência

Alexandre, meu querido amigo, eu devo lhe pedir desculpas. É que falhei algumas vezes e você sabe disso. Não que eu não possa falhar, meu parceiro. Mas é que falhei por desejar mudar de faixa, por não querer continuar falando apenas de cinema e jazz, sabe como é? No entanto, eu sei que isso é algo difícil. Mesmo assim, confesso: eu desejei romper com o passado, apresentar novas faces, procurar novos caminhos, enfim, encontrar a satisfação interior!
Mas hoje, não, Alexandre. Hoje eu acordei modificado, entende?!. Talvez, por isso, eu necessite esquecer que fui professor de química durante boa parte da vida. Só que eu extraviei os meus ‘carbonos’… Pus todos eles de lado. Para sempre… Sem remorsos!
Ainda assim, hoje, eu necessito urgentemente de ópios de emergência. Porquanto eu me lembrei de que há 51 anos atrás morreu “John William Coltrane”. Sim, meu amigo… Foi em 17 de julho de 1967. Nesse dia, que já vai distante, eu estava bem perto de completar 16 anos de idade e era um adolescente ainda em flor, sem conhecer as maldades do mundo. E mais do que isso: sem conhecer a beleza da arte de Coltrane. Se eu a conhecesse, ah! Alexandre, por certo teria aliviado um sem número de dores, não acha? Afinal, ninguém tocará “Someday My Prince Will Come” como ele e Miles Davis alcançaram aquelas notas… E até mesmo o poeta Thomas Guthrie escreveu: “Who will lead the way towards truth? I turn around and see… nobody”.
Pois é, Alexandre, Thomas Guthrie não foi o único a se render ao talento de Coltrane. Muitos outros beberam nessa fonte e se deliciaram. Por isso, então, eu lhe proponho um brinde ao nosso mestre Coltrane. E para completar a cerimônia, meu velho companheiro, eu trago para você os versos de Drummond, retirados do poema “Edifício Esplendor”:
“…O copo de uísque e o blue / destilam ópios de emergência. / Há um retrato na parede, / um espinho no coração / uma fruta sobre o piano / e um vento marítimo com cheiro / de peixe, tristeza, viagens… / Era bom amar, desamar, / morder, uivar, desesperar / era bom mentir e sofrer / Que importa a chuva no mar? / a chuva no mundo? o fogo? / Os pés andando, que importa? / Os móveis riam, vinha a noite, / o mundo murchava e brotava / a cada espiral de abraço…”

coltrane_mural
( Mural feito por Emel Martinez, na Filadélfia – USA )