Disco: “Momentum”, de Luiz Gustavo Zago.

Exceto na física, ‘Momentum’ NÃO é “momento” (moment), mas sim ‘impulso’, embalo, fôlego…

Pois é, minha gente. Nessa altura da vida, aos 67 anos de idade, eu posso assegurar a vocês que não há nada mais prazeroso do que perceber que conquistamos bons amigos. Ah, lá isso é verdade. Até porque, talvez seja a maior ‘condecoração’ que uma criatura pode almejar. O resto… convenhamos, é apenas paisagem!

E um desses amigos que conquistei aqui em Florianópolis é o extraordinário músico Luiz Gustavo Zago. Além de exímio pianista, Zago, embora jovem, já figura na galeria dos melhores arranjadores desse país. Tanto é verdade que ele é procurado por muitos expoentes da MPB.

Ao fazer uso de requintado bom gosto musical, Zago consegue transitar por uma gama enorme de ritmos, que vão do erudito ao tango, passando pelo jazz, rock e o que mais se consiga imaginar. Tudo isso, amparado em encantada leveza e profundidade melódica. Talento é que não falta ao homem…

O mais recente álbum de Luiz Zago, lançado em novembro de 2018, intitulado “Momentum”, merece atenção especial do ouvinte. Porquanto as treze faixas que compõem o CD apresentam incríveis variações, ainda que mantenham o mesmo clima intimista. A começar pela belíssima composição “Inverno”. Meu Deus, eu fiquei de boca aberta com o fôlego empreendido por Zago e os primorosos músicos Tie Pereira, Richard Montano e Daniel Galvão. Aliás, em algumas passagens, devo confessar, eu me lembrei com saudades do estilo melancólico de Astor Piazzolla…

Coisa linda!

 

 

Memórias: DAS RAZÕES E CONTRARRAZÕES!

Eu devo reconhecer que, nessas questões, normalmente era Luiz Henrique ou Ênio que davam o veredicto. E, no caso, a sentença proferida por Ênio foi imediata: “Chau, pelo amor de Deus… isso é um comportamento pequeno-burguês!”

Céus! Eu nem sabia onde esconder a vergonha… Poxa, mas que mal havia em almejar aquela calça Lee e a camisa LaCoste? Só porque eram estrangeiras, minha gente, representam ‘símbolos imperialistas’? O importante não seria o nosso pensamento socialista, alinhado às causas comuns?! E afinal de contas, porque é que em toda revolução socialista o povo tem que ser miserável, quase indigente, heim?! O fato é que elas eram lindas, isso sim, e bem superiores à nossa calça FarWest e as camisetas Hering da “Impecável Maré Mansa”, da Rua Uruguaiana, uma verdadeira loja de suburbanos, de pura sem-gracice…

Pois é, meus amigos. O grande problema, porém, é que os meus argumentos não eram suficientemente consistentes, a ponto de demover os preparados discursos de Luiz Henrique ou de Ênio. Então, eu acabava acatando as ‘orientações’ deles. Sempre. Mas, no fundo, juro a vocês: aquilo tudo me deixava à flor da pele, revoltado.

No entanto, vejam vocês a ironia do destino: foram necessários vinte e poucos anos para aparecer no cenário político brasileiro um ‘espoleta’ que representou a ‘libertação’ das minhas angústias juvenis. É bem verdade que ele apareceu com uma fala ‘arrumadinha’, declarando-se ‘caçador de marajás’ e outras coisas mais. Com tudo isso, deu no que deu!

Agora que já se passaram quase trinta anos e mundo girou mais um bocado, convenhamos: ideologia não tem nada a ver com bom-gosto ou requinte. Tanto é verdade que hoje Luiz Henrique bebe os melhores vinhos importados e veste ternos de fino trato… Ah! quanto desperdício tivemos em nome de sistemas falidos, rotos e contraditórios, não é mesmo?

E mais ainda: em que lugar da memória ficaram guardados os sonhos de sociedades ‘mais justas e equânimes’? O que foi feito das nossas ‘bandeiras’ e dos nossos líderes socialistas? Afora a queda daquele emblemático muro, o que mais ruiu além dos nossos sonhos, meus amigos?

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