Disco: “O melhor de Belchior”

EU TENHO MEDO DE ABRIR A PORTA / QUE DÁ PRO SERTÃO DA MINHA SOLIDÃO”  ( Belchior )

Decerto que não sou uma pessoa mística. Pelo menos, eu não ‘viajo na maionese’ como alguns que eu conheço, que constroem ‘ligações celestiais’ em tudo que ocorre ao redor…

De fato, reconheço, eu tenho as minhas crendices, a minha fé e o meu jeito de ver o mundo sob o prisma mais espiritual. Porém, a verdade é que esse olhar não me empurra a aceitar teorias mirabolantes de ‘causas e efeitos’, de determinismos implacáveis ou irremovíveis. Ah, lá isso não!

Por outro lado, também é verdade, eu acredito que o ‘destino’ de uma criatura pode estar sujeito a bruscas mudanças, muitas vezes difíceis de se entender. E na base dessas questões, quase sempre, está a mão do próprio indivíduo promovendo ou boicotando possibilidades. Sei que é brabo aceitar, minha gente, mas nós somos ‘conspiradores’ de primeira ordem e não poupamos ninguém… Céus, quanta ironia!

Contudo, há um punhado de gente que ao observarmos a trajetória ficaremos intrigados ou, quem sabe, perplexos com o caminho que destino seguiu… Pois é. A grande questão é: o que fez delas se tornarem tão diferentes ou inusitadas ou até mesmo ‘iluminadas’?

Vejam o exemplo do meu conterrâneo Belchior. Meu Deus, que sequência foi essa que a vida aprontou para ele? Que força misteriosa foi essa que o destino pôs em suas mãos e de que forma ele a conduziu? Sim, meus amigos, se pensarmos que ainda durante sua infância, no velho e querido Ceará, ele foi cantador de feira e poeta repentista. Que estudou música coral e piano. Que seu pai tocava flauta e saxofone e sua mãe cantava no coral da igreja. Que em 1962 ele se mudou de Sobral para Fortaleza dando início aos estudos em Filosofia e Humanidades e, posteriormente, Medicina, abandonando o curso no quarto ano, em 1971, para dedicar-se à carreira artística. Depois disso, ligou-se a um grupo de jovens compositores e músicos, como Fagner, Ednardo, Teti, Cirino, entre outros, conhecidos como o ‘Pessoal do Ceará’.

Quis o destino que ele viesse, em 1971, para o Rio de Janeiro e se encontrasse com a ‘sorte grande’ e com ela estabelecesse um pacto de sucesso. O que se seguiu virou história. Afinal, ver o seu nome aparecer na posição 58 da lista das ‘100 Maiores Vozes da Música Brasileira’ pela especializada revista Rolling Stone Brasil, foi apenas um passo a mais na vida desse talentoso nordestino!

Explicação para tudo isso? Tenho não. Ou, quem sabe, o próprio Belchior nos responda sob a forma de melodia?!

“Quando eu não tinha o olhar lacrimoso  /  Que hoje eu trago e tenho  /  Quando adoçava meu pranto e meu sono  /  No bagaço de cana do engenho  /  Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus  /  Fazendo eu mesmo o meu caminho  /  Por entre as fileiras do milho verde  /  Que ondeia, com saudade do verde marinho.

Eu era alegre como um rio  /  Um bicho, um bando de pardais  /  Como um galo, quando havia  /  Quando havia galos, noites e quintais  /  Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo  /  O mal que a força sempre faz  /  Não sou feliz, mas não sou mudo  /  Hoje eu canto muito mais!”

https://www.youtube.com/watch?v=dGzXuHr9uf0

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