Testemunho: quando a nossa voz sai por outra garganta…

Se há uma coisa fabulosa nessa vida, convenhamos, é quando a gente se sente acolhido integralmente pelo texto de outra pessoa. Caramba! É como se ela respondesse por todos os nossos anseios, dúvidas ou indignações.

Ontem eu fui contemplado, creio. Saiu o meu número…  e ele tinha nome e sobrenome: Martha Medeiros!

Portanto, eu publicarei aqui o belíssimo texto que ela nos presenteou. Vale a pena ler…

“Escrevi este texto na segunda-feira passada. Se nada de anormal ocorreu nos seis dias que antecederam sua publicação, é possível que neste domingo estejamos elegendo um novo presidente, ou a dupla que irá para o segundo turno das eleições. Em qualquer dos casos, metade do país está prestes a entrar em luto agora, ou no máximo em três semanas.

O luto, dizem especialistas, passa por cinco fases. A primeira delas é a negação, que é quando a gente desconecta da realidade e não admite o ocorrido – uma defesa psíquica contra a dor. Um dos candidatos, curiosamente, até já fez seu ensaio de negação, questionando a credibilidade das urnas eletrônicas: se ele ganhar, é porque as urnas são confiáveis; se não ganhar, é porque foram adulteradas. O raciocínio lógico de um
menino de três anos.

Negar o resultado é perda de tempo. O país precisa continuar a andar, mesmo que aos trancos. Que a metade dos brasileiros em luto passe logo para a segunda fase: a raiva.

A sensação de injustiça embaça tudo e a revolta é natural. Perder para um candidato que defende o oposto do que você acredita: como suportar? A raiva é a fase em que o enlutado faz besteiras, como quebrar tudo pela frente, sem contabilizar prejuízos e sem perceber a inutilidade de seu descontrole. Já tenho minha estratégia para o caso de estar no lado perdedor: abandonarei as redes sociais por uns dias, até que chegue a terceira etapa, a barganha consigo mesmo.

Aconteceu, não aconteceu? Então que se extraia algum benefício disso. Agora há tempo de sobra para refletir, para se tornar um cidadão mais atuante politicamente, para examinar as questões sem inflamar-se tanto, enfim, é uma ondinha otimista e necessária, ainda que dure pouco.

A quarta fase já bate à porta, implacável: a depressão. Quatro anos sendo governados por alguém em quem a gente não aposta um níquel, um sujeito que vai na contramão dos nossos ideais, que não nos representa de jeito nenhum. Pancada dura. Vontade de nem sair da cama para não ter que assistir ao estrago. A tristeza é profunda pelo fim do combustível essencial, a esperança. Resta contar os dias para que a quinta fase do luto se instale de uma vez: a bendita e inevitável aceitação da perda.

No fim das contas, política é conciliação. Com sorte, o estrago não será tão grande, lideranças da sociedade tentarão evitar inconsequências. Temos um verão inteiro pela frente, os ânimos tendem a acalmar e um mergulho no mar sempre ajuda. Vá que o seu time ganhe o Brasileirão para compensar, vá que o amor e a arte substituam o desencanto com a política, vá que a democracia resista bravamente e os outros sonhos que a gente ainda tem se realizem. Hora de reorganizar os pensamentos, fazer novos planos e confiar na velha máxima: a vida continua, caramba, a vida continua.”

( Martha Medeiros )

Memórias: Milt Jackson e os cabelos brancos…

O que sei dizer, meus amigos, é que eu estava ouvindo esse delicioso disco do Milt Jackson, Grady Tate, Ray Brown e Oscar Peterson, intitulado “Ain’t but a few of us left” (“Não somos apenas alguns de nós”). Então, não é que o maravilhoso disco foi me empurrando para um monte de lembranças?! Pois é. À medida que o disco ia passando e as melodias eram executadas com extraordinária maestria pelo grupo, eu me deixava levar por reminiscências. Até que veio aos pensamentos o episódio do “azulão”. Calma aí que eu explico.

Lembro que eu havia almoçado na Restaurante Degrau, no Leblon. Ah, aquele ‘Tornedor a Nassin’ era de arrebentar… Portanto, para compensar o exagero, fui dar uma caminhada pelas ruas do bairro e observar as lojas de discos, boutiques e livrarias. Tem sempre novidade para se ver!

Quando cheguei em casa, não deu nem tempo para deitar na rede cearense, pois a buzina de um carro insistia em me chamar. Era a minha irmã e eu fiz sinal para ela subir. Ao entrar no apartamento, ela foi logo anunciando:

– Você conhece esse produto aqui, Chau?

– Não. Não tenho a menor ideia do que se trata…

– É lançamento! Vou aplicar no seu cabelo e você verá que os fios brancos ficarão brilhando e os pretos, mais ainda!

Não posso esconder que fiquei bastante desconfiado. Milagre assim, quem acreditaria?! Só mesmo eu, claro! No banheiro, deitado com a cabeça na pia, eu só pensava “e se isso não der certo?!”

Terminado o serviço, ela deu a sentença: ficou uma maravilha, Chau! Eu enxuguei o rosto e os poucos cabelos que orgulhosamente lutavam para não cair. Levantei o rosto e me olhei no espelho. Confesso que achei razoável… talvez, um pouco mais escuro que o original. Daí, sequei com o secador e novamente observei no espelho. “Caraca! Está muito escuro!”

Como eu teria que dar aulas no cursinho as cinco da tarde e já era perto das quatro, resolvi jogar um pouco de talco nos cabelos para disfarçar, sabe como é?

Entrei em sala e a turma vespertina estava lotada, com mais de cem alunos. O assunto do dia era espinhoso para os estudantes: isomeria ótica! Comecei as explicações bem compenetrado, pois o assunto não era fácil, reconheço. Foi quando ouvi, pela primeira vez, certo murmúrio vindo dos fundos da sala.

Não dei bola e continuei com a minha exposição. De novo, um riso em grupo surgia lá do fundo. Virei-me e perguntei se alguém tinha dúvidas? Nada. E aí retornei às explicações.
Porém, confesso, um frio na barriga tomou conta de mim. No exato momento que alguém gritou lá de trás: “azulão”!

Ainda que não tivesse certeza, dentro de mim, alguma coisa me levava a crer que era comigo, ou melhor, com os meus cabelos… Ah! Mas não me daria por vencido, apesar de ter ouvido mais de três vezes a trágica acusação: “azulão!”

Naquele momento de pânico, meus amigos, o melhor a fazer era fingir que não entendia os gracejos e rezar para a aula terminar. Ufa! Sorte a minha que o relógio conspirou a meu favor e eu saí dali feito foguete.

No salão de cabeleireiro, obviamente, eu só tinha um pedido: “pela amor de Deus, dê um jeito nisso”…

https://www.youtube.com/watch?v=bwQTksM3kWE

 

Memórias: a “velha roupa colorida” ficou desbotada!

Quando morava no Rio de Janeiro, durante os anos 70 e 80, eu frequentei muitas rodas de conversas, com variados grupos de amigos. Os temas iam da psicanálise ao teatro do oprimido (de Augusto Boal). Dos amantes da filmografia de Bergman aos torcedores da “raça rubro-negra”… Ah, foram bons tempos aqueles, meus amigos. Porquanto eram ricas e proveitosas conversas, que nos dias atuais parecem ter perdido a importância. É uma pena, pois, no fim das contas, corríamos apenas o risco de crescermos enquanto seres viventes.

Lembro também que por conta de algumas demandas internas, de ordem emocional, eu senti necessidade de buscar ajuda terapêutica, com vistas a uma melhor ordenação afetiva. Por isso, iniciei uma longa e dura caminhada para o meu interior, desvendando minhas emoções. E como era previsível, esse processo requisitou algumas desconstruções de valores já consolidados pelo tempo e pela prática vivencial. É bem verdade que a canção de Chico Buarque já havia me avisado:: “Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios / Rompi com o mundo, queimei meus navios / Me diz pra onde é que inda posso ir…” E decerto ninguém sai ileso desse processo e tampouco cria imunidades…

O fato é que o tema já era reincidente: a repetição do modelo paterno. E mexer com isso é sempre algo delicado, difícil, penoso até. Afinal de contas, era a “velha roupa colorida” colocada à prova. Ou, pelo menos, colocada em ‘cheque’ por mim. Além disso, convenhamos, muitas vezes os nossos afetos são traídos por outros fatores, outras demandas. Isso porque, quem, em sã consciência, não quer se sentir parecido com o seu pai? Ainda mais se tal semelhança vai nos parecer uma extraordinária conquista pessoal?!

Mas aí, então, novamente outra canção vem martelar os pensamentos, dessa vez embalada pelo testemunho de Belchior: “Você não sente nem vê / Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo / Que uma nova mudança em breve vai acontecer / E o que há algum tempo era jovem novo / Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer!”

Pois é, minha gente. Oxalá o meu querido filho Gabriel evite a velha “armadilha” e contorne essa estrada de dor, quem sabe pactuando novas oportunidades para ele?! No fundo, o que me cabe é guardar a esperança que o Gabriel possa, enfim, cantar a terceira estrofe dessa melodia em voz alta: “No presente a mente, o corpo é diferente / E o passado é uma roupa que não nos serve mais…”

 

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