Memórias: a “velha roupa colorida” ficou desbotada!

Quando morava no Rio de Janeiro, durante os anos 70 e 80, eu frequentei muitas rodas de conversas, com variados grupos de amigos. Os temas iam da psicanálise ao teatro do oprimido (de Augusto Boal). Dos amantes da filmografia de Bergman aos torcedores da “raça rubro-negra”… Ah, foram bons tempos aqueles, meus amigos. Porquanto eram ricas e proveitosas conversas, que nos dias atuais parecem ter perdido a importância. É uma pena, pois, no fim das contas, corríamos apenas o risco de crescermos enquanto seres viventes.

Lembro também que por conta de algumas demandas internas, de ordem emocional, eu senti necessidade de buscar ajuda terapêutica, com vistas a uma melhor ordenação afetiva. Por isso, iniciei uma longa e dura caminhada para o meu interior, desvendando minhas emoções. E como era previsível, esse processo requisitou algumas desconstruções de valores já consolidados pelo tempo e pela prática vivencial. É bem verdade que a canção de Chico Buarque já havia me avisado:: “Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios / Rompi com o mundo, queimei meus navios / Me diz pra onde é que inda posso ir…” E decerto ninguém sai ileso desse processo e tampouco cria imunidades…

O fato é que o tema já era reincidente: a repetição do modelo paterno. E mexer com isso é sempre algo delicado, difícil, penoso até. Afinal de contas, era a “velha roupa colorida” colocada à prova. Ou, pelo menos, colocada em ‘cheque’ por mim. Além disso, convenhamos, muitas vezes os nossos afetos são traídos por outros fatores, outras demandas. Isso porque, quem, em sã consciência, não quer se sentir parecido com o seu pai? Ainda mais se tal semelhança vai nos parecer uma extraordinária conquista pessoal?!

Mas aí, então, novamente outra canção vem martelar os pensamentos, dessa vez embalada pelo testemunho de Belchior: “Você não sente nem vê / Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo / Que uma nova mudança em breve vai acontecer / E o que há algum tempo era jovem novo / Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer!”

Pois é, minha gente. Oxalá o meu querido filho Gabriel evite a velha “armadilha” e contorne essa estrada de dor, quem sabe pactuando novas oportunidades para ele?! No fundo, o que me cabe é guardar a esperança que o Gabriel possa, enfim, cantar a terceira estrofe dessa melodia em voz alta: “No presente a mente, o corpo é diferente / E o passado é uma roupa que não nos serve mais…”

 

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