CD: o suingue arrebatador de “Mighty Sam McClain”.

Henilton Menezes é meu primo, lá do querido e velho Ceará. É gente muita boa ou como dizem por aquelas bandas: um tremendo “cabra da peste”. Desses que se não fossem parentes, nós adotaríamos de qualquer jeito. Lembro-me de que não o conhecia pessoalmente quando recebi uma ligação dele, no Rio de Janeiro. Estava hospedado no antigo Hotel Nacional, palco dos Festivais de Jazz, onde nossa presença era garantida. Dali, então, ele me convidou para um chope, com direito a um gostoso papo sobre o jazz. Pois não é que ele me escreve agora, declarando-se meu leitor. Bem… não foi só por isso, é verdade… De fato, ele escreveu para me “esculhambar”. Com seu inconfundível senso de humor cearense, disse: “Pô, vê se escreve sobre gente nova, seu baitola! Não existe só essa velharia, feito você, no nosso jazz!”

Esquecendo os demais palavrões que disse, que cearense é bicho desbocado mesmo, eu sou obrigado a concordar com ele. Portanto, desculpe-me, Henilton, não foi por querer. Aliás, cá entre nós: estou tão velho assim, com 67 anos? É verdade que as moças nas ruas há tempos me chamam de “tio”. Paciência!

Muito bem, primo. Então, está aí o que você pediu. Só falta você não conhecer o “Mighty Sam McClain”, um negão com uma voz e um suingue de fazer sorrir a galera do velório! “Give it up to love” é o título do disco, gravado em 20 bits, que garante uma qualidade impecável. Agora, se você ouvir “Got to have your love” e não se emocionar, primo, é sinal que o velório acima deveria ser o seu! E já que estamos quites, aproveite e mande queijo de coalho, rapadura e muita tapioca…

 

Memórias: vida e arte de mãos dadas!

Eu acabara de acordar da soneca vespertina, quando ouvi a pergunta de minha esposa:

– Carlos, não quer assistir ao novo filme do Selton Mello?

Eu disse que sim e fui escovar os dentes e passar uma água no rosto amarrotado. Como fazia um friozinho incômodo, antes passei no escritório e peguei uma manta para nos aquecer no sofá.

O filme nem bem começara e logo nas primeiras cenas eu identifiquei que aquele seria um “belo filme”. Pois é, meus amigos: com o tempo a gente aprende a identificar um filme interessante, peculiar. Seja pelo cuidado com a fotografia ou com o impecável texto ou até com as cenas que acontecem sem pressa alguma de contar a história. Sim, tudo aquilo já apontava para um grande filme.

Ao fundo, os personagens iam se apresentando e conduzindo os seus papéis com suavidade e frescor. Ao mesmo tempo, o cantor se esforçava em declarar: “Se você pensa que o meu coração é de papel / Não vá pensado pois não é. / Ele é igualzinho ao seu / E sofre como eu / Porque fazer chorar assim a quem lhe ama?”

“Acho que o tempo não existe… E as pessoas envelhecem quando precisam envelhecer!”, dizia a jovem amiga, talvez sem compreender a extensão desse drama.

O personagem principal, já envolto em suas incontáveis dúvidas, tentava extrair da mãe algum sentido, alguma resposta. “Onde é que ele está, mãe? Por que ele foi embora? Ele tem saudades da gente?”

Contudo, as respostas não vinham. E ele teria que reter as perguntas no coração.

Na parede do quarto, um antigo relógio insistia em permanecer contando um tempo que não fazia mais sentido. “Meu querido pai, essa é uma carta de despedida. Talvez, nunca chegue em suas mãos… Nenhuma ausência é tão cara como a tua. Nas costas da memória, seguirei virando as suas lembranças… E ali, no meu sonho, talvez esteja você. Ali, talvez esteja o meu sonho roubado. Por que foi embora? Por que sem explicações?”

“O tempo passado embaralha o meu tempo presente!”, dizia o jovem rapaz. E logo a seguir, ele mesmo sentenciava: “Eu preciso encontrar o meu tempo futuro…”

Então, é isso, meus amigos… Não posso contar mais nada, pois retiraria dos leitores o prazer de assistir ao filme. E, convenhamos: ele vale a pena ser assistido!

Confesso a vocês que muitos diálogos do filme me bateram fundo e imediatamente me transportaram nas memórias…

É que eu acabei de chegar de uma bela viagem ao Rio de Janeiro, cidade que me acolheu dos cinco aos quarenta e sete anos de idade. Ao rever os lugares por onde andei e por onde vivi experiências marcantes, guardei a impressão de que muitas coisas ficaram perdidas no tempo, em compasso de espera por algo que nem sei dizer. Ficaram ao meu redor, resíduos de lembranças, de sonhos e imaginações. Como se muitas situações estivessem aguardando o meu “toque” para terem, enfim, o destino que lhes cabem.

“Você sempre me disse que as coisas mais importantes do mundo são os olhos e os pés. Os olhos para ver o mundo e os pés para ir ao encontro do mundo!”, reafirmou o personagem, em meio ao turbilhão de dúvidas e esperanças que vivia.

“E é isso que farei, meu pai. É hora de encontrar o mundo!”, reconheceu o personagem, sentindo-se vitoriosamente desimpedido.

O que sei dizer é que terminado o filme, minha gente, eu chorei bastante. Primeiro pela belíssima história, contada com profunda sensibilidade. Depois, porque me dei conta de que essa história, de algum modo, também me pertencia. A única diferença, talvez, é que eu não disse tudo isso ao meu pai.

Portanto, faço agora, após ter completado os meus 67 anos: “Pai, saiba que eu ainda estou pelejando… Com sorte, quem sabe, eu possa ainda lhe dizer um dia: finalmente, eu encontrei os meus caminhos. Obrigado por tudo!”

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Disco: CD “Swing  brasileiro”, com Jorginho do Trompete.

Eu mal acabara de estacionar o carro e ainda estava na entrada do bar. Foi quando o amigo Cássio Moura, guitarrista de primeira grandeza, sem perder tempo, foi logo me avisando: “Carlos, preste toda a atenção no “pretinho” do trompete. Amanhã, lá no shopping, você me dirá o que achou. Certo?!” Eu respondi sim, enquanto procurava um bom lugar para me sentar e apreciar mais uma “jam session” do Quarteto. Ao microfone, Cássio anunciava o convidado especial daquela noite: Jorginho do Trompete!

No entanto, no que me diz respeito, o anúncio fora equivocado, uma vez que pelo corpo abastado do trompetista, ele estava mais para “Jorjão” ou coisa assim. Quanto ao sorriso largo, céus!, eu até pensei que era filho de Louis Armstrong ou ele “reencarnado”! Na dúvida, convenhamos, o melhor a fazer era pedir ao garçom para trazer o balde com cervejas. Muitas. E o mais rápido possível, já que a noite prometia!

Então, o tal do Jorginho, que eu desconfio que é filho do Louis Armstrong, começou a soltar o verbo. Ou melhor: soltar o som! Sempre sonoro, melodioso. Até que chegou a vez de “Conceição da Barra”. Meu Deus, que belíssima composição. Puro lirismo, isso sim, arremessado do trompete daquele “pretinho”. E ele, virtuoso e compenetrado, passeava pelo salão do bar cumprimentando cada espectador com um par de olhos arregalados. Aí, sem nenhuma cerimônia, eu acabei abraçando o músico e beijando sua enorme bochecha. Afinal de contas, as cervejas já circulavam na corrente das emoções…

Do outro lado do bar, Cássio me observava e, também com o olhar exultante, confirmava a sua sentença: “eu não disse que o “pretinho” era danado de bom?!”

https://www.youtube.com/watch?v=Hp5K6-bnoyc

Jorginho do Trompete

Disco: CD – “Friends for Schuur”, com Diane Shuur.

Tudo bem. É provável que eu vá cometer mais uma “sandice”. Mas, deixe-me explicar, antes que algum “fiscal” de plantão decrete a minha penitência. A verdade é que não gosto do estilo da “Diane Shuur”. Sinceramente, acho que ela “grita” demais. E anotem aí: eu disse que não gosto do estilo dela e não da voz, que possui muitos recursos. Então, para preservar a minha integridade física (a gente nunca sabe do que é capaz um fã ardoroso!), eu também declaro que considero “razoável” a escolha do repertório. De fato, o que se percebe é que são raras as canções bem interpretadas, isso sim. E eu já procurei um bocado, minha gente!

“Ô, Carlos, então, por que escolheu esse disco?!”, perguntarão os leitores. Céus! Queiram me desculpar, mas é que esse é o “meu ofício” aqui neste “espaço”, certo? Se quiserem posso justificar de outro modo mais contundente: paguei mais de quarenta reais por esse CD – “Friends for Schuur” – na esperança de ser “surpreendido”. Tá bom assim para vocês?!

Além do mais, a turma que integrou o disco é de primeira grandeza. Afinal, temos Dave Grusin, Stan Getz, Ray Charles e Herbie Hancock, entre outros. No entanto, foi um desperdício de talentos! Apesar de todo o esforço, não conseguiram evitar o “naufrágio” do disco… um verdadeiro Titanic fonográfico!

https://www.youtube.com/watch?v=RsOybkKT61U

Diane Shuur

Jazz: o saxofone e o jazz.

É interessante perceber algumas mudanças na história do jazz. Vejam só o exemplo do saxofone. Hoje, ele talvez seja o instrumento mais representativo e mais associado ao jazz, não é verdade? Mas, curiosamente, nem sempre foi assim. Na realidade, o saxofone foi introduzido de forma muito lenta na música norte-americana. Muito embora ele exista desde a metade do século 19, até meados da década de 20 do século passado o sax era considerado um instrumento impróprio para o jazz. Para se ter uma ideia dessas dificuldades, até 1923, Coleman Hawkins era o único saxofonista-tenor que tocava jazz, ano em que gravou com Fletcher Henderson (um dos responsáveis pelo surgimento do “swing” e das primeiras bandas). Até então, o saxofone era bastante comum somente nas “charangas” (pequenos grupos ou orquestras não muito “afinadas”). Todavia, ele era malvisto pelos músicos de jazz… Com o passar do tempo, o sax “reivindicou seu espaço” e passou a ocupar um lugar de destaque. E assim, fabulosos músicos abraçaram esse instrumento e extraíram dele um som fenomenal. Ufa… sorte a nossa!

( Fotos:  John Coltrane,  Coleman Hawkins  e  Charlie Parker )

Disco: CD “Woman”, com Diana Krall, Shirley Horn, Helen Merril, Anita O’Day, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Abbey Lincoln, Carmen MacRae e muitas mais.

“Coletânea”, meus amigos, é a mais bem inventada “armadilha” da indústria fonográfica. Isto porque, via de regra, os produtores recorrem a esse expediente para surpreender os incautos, “empurrando” assim produtos de discutida qualidade. Sim! Isso parece ser a mais pura verdade. No entanto, convenhamos, vez por outra o tiro também sai pela culatra. É bem o caso deste disco, “Women”. Meu Deus do Céu, que maravilha de álbum! Por isso, então, benditas sejam as mulheres. Porquanto somente elas conseguiriam essa proeza!
O que eu sei é que para calar a boca de alguns “machistas” renitentes, vejam vocês, a produtora colocou em campo um time de primeira: Diana Krall, Shirley Horn, Helen Merril, Anita O’Day, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Abbey Lincoln, Carmen MacRae e muitas mais. Por ser um álbum duplo, o disco nos possibilita ouvir diversas vocalistas, com diferentes estilos e personalidades. O resultado foi excelente, porquanto o disco ficou harmonioso e, o que melhor, variado. Como resultado, o álbum tem “crooner” pra todo gosto, minha gente. O importante é que eu me deliciei um bocado ouvindo Abbey Lincoln interpretar a sentida canção “Brother, can you spare a dime?” Tive até vontade de levantar um empréstimo e oferecer “algum”… Sabe como é: eu sempre tive um coração mole mesmo… fazer o quê?!

 

Women

JAZZ:  as primeiras gravações!

As primeiras gravações de discos de jazz foram feitas em 1917. O grupo pioneiro foi a “Original Dixieland Jazz Band”, uma orquestra composta por músicos “brancos”. Ainda que fossem bons músicos, não conseguiam desenvolver o gingado e a atmosfera tão comuns nos grupos negros. Com maior poder de improvisação, os negros só iriam gravar quatro anos depois, em 1921, graças ao talento da orquestra de “Kid Ory”. No entanto, boa parte dessas gravações foi realizada com processos acústicos rudimentares, que tornavam sua reprodução bem precária. Valem muito mais como “documentos” históricos. Um legado que as gerações seguintes abraçaram sempre com o mesmo espírito inovador e criativo. Aliás, o período foi pródigo e diversos músicos se lançaram, alcançando muito sucesso, alguma fama e pouco dinheiro… Eram tempos difíceis, minha gente! Tempos em que não havia “mídia”, empresários, agendas, e os “shows” eram quase sempre gratuitos. Há quem diga que foi o grande momento do jazz. Momento de desenfreada “criação”. Pode ser. Afinal, hoje conhecemos obras-primas que foram interpretadas por King Oliver, Jelly Roll Morton, Bessie Smith e Scott Joplin, entre outros. Uma seleção de primeira!

Se a “América” estava em depressão, atolada até o gargalo nas dificuldades financeiras, os músicos sublimavam tudo e criavam o “Ragtime”. Isto porque a música, como expressão extraordinária de arte, não conhece cifrões, disputas ou autoritarismos. Pelas mãos de talentosos músicos, o jazz – sempre irreverente e audacioso – foi até capaz de “aceitar” a súbita ausência do seu grande combustível: o bom e velho “uísque”…
Mas, pelo amor de Deus, não façam isso novamente!

 

original diexeland jazz band