Memórias: Dona Efigênia e o destino do nosso futebol.

É o tal negócio: uma coisa sempre depende de outra. Talvez, por isso, a primeira coisa a fazer era tirar o famigerado “par ou ímpar”, que eu nunca tinha a sorte de ganhar. Paciência, fazer o quê? Tem sempre gente sortuda nesse mundo, meus amigos, pois ganham tudo: rifas, sorteios nas quermesses e até acertam a quina com uma facilidade que me irrita… Como conseguem isso?!

Bem… Certo mesmo é que era muito importante ganhar o bendito par ou ímpar, já que assim podíamos escolher de cara o “Chiquinho”, o craque da rua e do nosso bairro. Desse modo, nós começávamos com meio caminho andado. Afinal, Chiquinho só faltava fazer chover naquela ladeira da Zamenhoff, no velho e bom Estácio. Já os meninos do outro time, irritados com o talento dele, procuravam derrubá-lo de uma forma ou de outra. Contudo, Chiquinho aguentava tudo calado, sem reclamar do jogo desleal. Respondia na bola, isso sim. Craque é craque!

Quanto a mim, confesso, eu era apenas um coadjuvante sofrível, mas que se esforçava para não comprometer. Só não gostava de ir para o gol, pelo sistema de rodízio, uma vez que eu não era muito “corajoso”. Aliás, devo reconhecer, encarar as “bombas” que vinham dos adversários não é para qualquer um…

No entanto, a minha “carreira de jogador” não durou muito. Porquanto havia na rua um tal de “Luisão-maluco” que me intimidava em cada partida. Céus, bastava eu dar um drible bem dado e já vinha a “cacetada” por trás. Nem precisava me virar para saber que era a praga do Luisão-maluco. Ele até anunciava em voz alta: “se tentar fazer gracinha aqui, meu chapa, vai levar porrada!” E o pior de tudo é que ele tinha meio metro a mais do que eu, além dos quinze quilos a mais de músculos. Aí, já viram, né?!
Foi quando eu resolvi que o melhor a fazer era jogar “golzinho” com bola de meia. Era algo que exigia habilidade, concentração e não envolvia time algum, uma vez que era um esporte individual. Apenas um de cada lado da rua. E não é que eu me especializei no jogo e me tornei bom jogador?!

O diabo era quando eu estava do outro lado da rua e tinha que arremessar para o lado do prédio. De vez em quando, a gente errava a mira e acertava a vidraça do segundo andar. Aí, era um salve-se quem puder! Eu corria o mais rápido que podia para não ser pego pela D. Efigênia… Isso porque, além do “esculacho” pelo prejuízo da vidraça e o castigo que levaríamos, o mais doloroso era ter que frequentar as aulas de violino que a D. Efigênia impunha. Isto porque, após várias vidraças quebradas, foi a forma que ela encontrou para que demonstrássemos o “arrependimento” pelo delito cometido. Ou seja: tínhamos que assistir as aulas de violino durante mais de um mês. E convenhamos, minha gente, naquela época não havia o STF para nos libertar!