Disco: “Stormy Lady”, com Lena Horne.

Dizem que nos anos dourados dos famosos musicais norte-americanos, nas décadas de 40, 50 e 60, muitos produtores se apressaram em lançar cantores e, principalmente, cantoras no cenário musical. Até mesmo atrizes famosas eram convidadas a cantar, pois tudo acabava em samba… ou melhor, em baladas na Broadway!

Eu tenho aqui em casa pelo menos uma meia dúzia de exemplares de CDs com cantoras, que deveriam optar por outras profissões, uma vez que o canto não é o forte nelas. É bem o caso da Lena Horne, que era até uma boa atriz e foi impulsionada pelos empresários gananciosos a cantar alguns “hits” do jazz. Sua voz é suave e bem postada. Porém, é pequena e sem variações. Sem capacidade de improvisos ou coisa assim. Por isso, não arriscava nada e seguia o “script” musical ao pé da letra…

Como já fazia mais de vinte anos que eu não ouvia Lena Horne, peguei alguns CDs para ouvir e, ao mesmo tempo, ver se mudava a minha opinião sobre ela. O CD escolhido foi o “Stormy Lady” e após boa parte da manhã desse domingo em busca de alguma surpresa agradável, cheguei a conclusão que nem mesmo o título do disco era apropriado. Afinal, a tempestade anunciada passou bem longe e a grande dama nem sequer se molhou, meus amigos. É tudo muito arrumadinho, muito linear… mas, não emociona ninguém…

Paciência, fazer o quê?!

https://www.youtube.com/watch?v=TPgnj5upihQ

 

lena

Literatura: Holdemar Menezes e o “anjo Gabriel” de todos nós…

OS ELEITOS PARA O SACRIFÍCIO   (republicado)

Ah, meus amigos, essa vida é mesmo interessante. Vejam vocês: o meu querido tio, Holdemar Menezes, publicou em 1983 aquele que eu considero o melhor dos seus livros de contos. Intitulado “Os eleitos para o sacrifício”, o livro é uma coletânea de nove primorosos contos, sendo que um deles, “O anjo Gabriel”, serviu até de inspiração para o nome do meu querido filho.

O enredo desse conto é sensacional, pois atesta o lado mais habilidoso do escritor, onde ele cria um pano de fundo para que a história se revele aos poucos. Sem pressa de apresentar o começo, meio e fim, Holdemar se apresenta como um bom artesão a confeccionar a sua obra de arte. O resultado é espetacular… Coisa linda!

“De repente, tive uma imperiosa vontade de chorar. Chorar com saudades da Sueli, pois lá de cima da torre da igreja, eu podia ver parte da Vila Palmira, e numa daquelas casas estava Sueli, a Sueli que tinha sido, e ainda era, meu único amor”.

Ao reler o conto esta semana, quem sabe pela décima vez, eu me dei conta de que a vida da gente é, de fato, intrigante. Surpreendente, até. Se observarmos bem, os fatos vão acontecendo, como que tecendo uma enorme colcha de retalhos. E no fim das contas, convenhamos, o que nos cabe é tão somente enxergar os desenhos como algo familiar. Com isso, em qualquer momento da vida, nós poderemos declarar que tudo valeu a pena ser vivido. De modo tal que, ao olharmos para trás, não tenhamos vergonha ou arrependimentos profundos. Afinal, vivemos tudo como soubemos ou pudemos!

“Aí eu peguei o pistom, passei vaselina nos lábios e comecei a tocar. O som saindo embriagado de tanto vinho de laranja do Santo Padre, os olhos do Onofre brilhando no escuro. Aquela melodia eu havia memorizado de um velho disco do “Maio Deives”, que o mister tinha me presenteado”.

Ao mesmo tempo em que eu relia o conto e, ao fundo, ouvia o solo lamentoso de Miles Davis, na extraordinária trilha sonora do filme de Louis Male, o “Ascenseur pour l’échafaud”, eu sentia algo mágico se passando. Nas minhas fantasias, confesso, era como se eu estivesse conversando com meu avô Ezequiel, meu tio Holdemar, meu pai e o meu filho. Ao mesmo tempo! E na conversa, eu falava com orgulho desse traço familiar de inventividade e o apurado gosto pelas letras e pela música…

“Era uma melodia mais para o grave, um sopro de percussão, como se a língua partisse a frase em pedaços, como se os lábios esculpissem as notas em madeira de cheiro, perfumada e macia”.

Deitado naquela rede cearense, no aconchego do escritório, ah!, eu repassava a vida em meus pensamentos. Recortando alguns episódios, para que pudesse ordená-los de uma forma mais favorável.

“Quando terminei o solo, que era uma variação sobre o tema do “Maio Deives”, o Onofre estava chorando, eu acho que de tão mamado que estava. Ele me tomou o rosto, beijou com força e falou:

– Isso não existe! – Igualzinho ao Anjo Gabriel…”

Nesse momento, a porta do escritório foi aberta e Gabriel ficou me olhando, longamente. Sem nada dizer, fiz apenas um gesto de convite. Ele, então, deitou-se na rede comigo e ficamos nós dois em profundo e conveniente silêncio. Ao redor, apenas o sopro suave e melancólico de Miles Davis permanecia ao nosso lado, renovando os laços de afeto…

 

ou

 

Os_eleitos

Obs: Capa do livro do tio Holdemar com a ilustração de um trabalho de minha mãe, Jarina Menezes.

 

Literatura: crônica “Histórias de Professores – Parte 1.

Maurício é um daqueles cearenses arretados, nascido lá em Itapipoca. É um sujeito maravilhoso, um típico “pau-de-arara” que a gente nem precisa perguntar onde nasceu, pois com aquele pescoço entalado, ah, meus amigos, só mesmo na terrinha… no meu Ceará!

Eu trabalhei com ele em algumas escolas e cursinhos e foi para mim uma das melhores lembranças que guardei do magistério. Primeiro porque o Maurício era “fera” em Matemática e dava uma aula de cair o queixo da moçada. Depois porque ninguém conseguia sair ileso do seu maravilhoso senso de humor. Fantástico!

Lembro até de um “causo” que aconteceu certa vez com o Maurício e que virou antologia no magistério carioca. Sim, segundo contam, Mauricio atravessava a cidade de um canto ao outro dentro dos tais “frescões” (aqueles ônibus executivos) e, vez por outra, dormia e acordava no ponto final… Paciência! Tinha que pegar outro frescão até chegar ao cursinho. E ali é que ocorreu o episódio, minha gente. A sala de aula estava lotada, com mais de 200 alunos. O tablado era alto e para subir, exigia esforço do professor. Mauricio já bastante cansado, no fim de noite, subiu e começou a apagar o imenso quadro-negro da aula anterior. Quando estava na metade do serviço, um aluno começou a chamar insistentemente pelo mestre: “professor… Ô, professor… Chega aqui!”

Maurício se virou, desceu do tablado e foi lentamente até onde o aluno estava. O estudante, por sua vez, puxou o Mauricio pelo braço e, ainda sentado, sacramentou no ouvido: “professor, não estou entendendo “porra nenhuma” da sua aula!!!”

A experiência de Maurício, no entanto, falou mais alto e ditou os próximos movimentos. Mantendo aquela calma cearense, que mais parecia um monge tibetano, Maurício nem se abalou. Subiu novamente no tablado, apagou calmamente o quadro-negro e, após isso, escreveu no quadro os assuntos que daria naquela aula dupla.

Aí, ele bateu uma mão na outra para tirar o excesso de giz e se dirigiu para o canto da sala. Nesse momento, olhou para o referido aluno e pediu para que ele se levantasse. O estudante, meio perplexo, não atendeu ao “convite”, preferindo permanecer sentado. Com isso, ele obrigou Maurício a se abaixar e, ao pé do ouvido, recebeu a aguardada resposta ao seu intempestivo depoimento. Foi apenas uma frase: “se vira, seu fio de uma égua!!”

Pois é… são coisas da vida de um professor. Fazer o quê?!

professor 1

(imagem da internet, meramente ilustrativa)

 

Literatura: crônica “Histórias de Professores” – Parte 2.

Uma das características mais interessantes de se ver em um professor, convenhamos, é a capacidade de antever as dificuldades dos alunos. De fato, isso é algo espetacular e na verdade são poucos que adquirem esta sensibilidade durante a carreira do magistério. Aliás, tal acuidade permite que o professor possa desenvolver as explanações fazendo uso do seu “termômetro de compreensão” do tema tratado. Sim! Quando bem utilizado, meus amigos, isto vira uma poderosa ferramenta junto à técnica de ensino-aprendizagem.
Nelson foi um desses professores “medalhões” da Língua Portuguesa e da Literatura Brasileira que tive o prazer de conviver no exercício da profissão. Era um professor extraordinário, que deixou marcas na formação de milhares de estudantes cariocas.
Certa vez, ao finalizar uma longa explicação sobre regras gramaticais, Nelson foi interpelado por um aluno grosseiro. Disse o aluno: “não entendi nada!” E o professor, retrucou com um largo sorriso: “você deveria saber que negar a negativa é o mesmo que afirmar!” O aluno fez cara de paisagem… Então, Nelson voltou à carga: “o que eu quis dizer, meu jovem, é que se você afirma que “não entendeu nada”, é sinal que “entendeu tudo”, entendeu?”

O aluno, ainda sem compreender, preferiu partir para ofensiva e disse: “explica de novo!” E Nelson, sem perder a elegância, apontou: “depois do “por favor”, confesso, não ouvi direito o restante do seu pedido…” Foi quando o aluno, irritado, declarou em alta voz: “eu estou lhe pagando para me explicar!”

Aí, entra em cena o talento e senso de oportunidade do velho Nelson. Virou-se para o aluno e disse: “bem, você utilizou um argumento contundente. Então, vejamos: quanto é que você paga de mensalidade escolar?” O aluno respondeu, de bate-pronto: “eu pago R$ 1.350,00 de mensalidade. E daí?” Nelson pediu que ele viesse até o quadro-negro e ficasse a seu lado, o que ocorreu. Pegou um pedaço de giz e solicitou ao aluno que acompanhasse o raciocínio. “Vejamos, meu jovem: você tem seis aulas por dia e cinco dias na semana, certo? Isso dá um total de 30 aulas semanais, que multiplicadas por quatro semanas e meia, perfaz o montante de 135 aulas no mês, confere? Portanto, para cada aula os seus pais desembolsam o valor médio de dez reais, ou seja, o resultado da divisão de R$ 1.350,00 da mensalidade por 135 aulas do mês. Como nós já tivemos 40 minutos da aula, cuja duração é de 50 minutos, assim, já cumprimos 80% da aula e, consequentemente, eu devo aos seus pais somente 20% dessa aula, concorda?”

Nelson, calmamente, colocou a mão no bolso, puxou a carteira de dinheiro e pegou uma nota de dois reais. Virou-se para o aluno e completou: “por gentileza, queira pegar esse dinheiro que ainda lhe devo e me faça o favor de sair de sala. Estamos quites. Não lhe devo mais nada!!”

professor 2

(imagem da internet, meramente ilustrativa)

 

Literatura: crônica “Histórias de Professores” – Parte 3.

HISTÓRIAS DE PROFESSORES” – Parte 3.

Aquele seria o quinto sábado do semestre que o Pacheco chegava atrasado para suas aulas no Colégio SB, um dos melhores, senão o melhor, do Rio de Janeiro. E o diretor já havia avisado que não toleraria mais nenhum atraso. Disso o nosso Pacheco sabia muito bem. Sabia também que um novo atraso implicaria em demissão sumária. “Irreversível”, diria o irritado diretor.

Ocorre que a noite carioca tem lá as suas manhas e o seu fascínio. Para piorar a situação, Pacheco era um boêmio inveterado. E a noitada de sexta-feira começava com os colegas do cursinho onde dava as últimas aulas da semana. Habitualmente eles elegiam o Catete ou o Flamengo para dar início aos “serviços”. Naquela noite, lembro bem, o grupo optou pelo Café Lamas que, antes das obras do Metrô, ficava no Largo do Machado. Depois, mudou-se para a Marquês de Abrantes, mantendo o mesmo clima. Lá, o grupo de professores era conhecido como os “quatro mosqueteiros das exatas”, pois dois eram mestres de matemática, um de química e o último era de física. Invariavelmente, meus amigos, a noitada era aberta com uma rodada de chope, acompanhado por “Steinhaeger” e uma porção de salaminho.

Dali, o grupo fazia uma verdadeira peregrinação: iam para o Bar Luiz, na Rua da Carioca ou para o Bar Lagoa, com o tradicional estilo “art déco” e o mau humor dos garçons, mas, que ainda assim, era o melhor ponto de encontro da turma da “esquerda”.

Algumas vezes, o escolhido era o Bar Nova Capela, na Lapa, onde comiam a melhor paleta de cabrito com arroz de brócolis. E, claro, mais algumas rodadas de chope ou caipirinhas de lima da Pérsia, para não dar “ressaca”…

O pior de tudo, minha gente, é que somente às três da madrugada Pacheco se lembrou das aulas do sábado, que começavam às sete horas. Sem pestanejar, pediu desculpas ao grupo e pegou um táxi para o Colégio SB. Lá chegando, gritou pelo nome do vigia da escola por um bom tempinho. Lá pelas tantas, assustado, ele chegou ao portão e perguntou de quem eram os gritos. “Sou eu, seu Chico, o professor Pacheco, de matemática”. O vigia, então, perguntou: “E o que o senhor quer a essas horas da madrugada, professor?”

Para disfarçar, Pacheco explicou que fora a um casamento e que após a recepção ficou em dúvida se iria para casa ou para a escola. Preferiu vir direto e pedia para dormir aquelas poucas horas que restavam ali mesmo na guarita do vigia. O seu Chico coçou a cabeça e acabou permitindo a entrada do professor, não sem antes advertir que se tratava de uma exceção à regra!

O fim da história é triste, minha gente. Pacheco só acordou às dez e meia da manhã, com o sol batendo em seu rosto na guarita. Lavado de suor. Por conta disso, foi demitido na segunda-feira pelo motivo já anunciado.

Ao receber o aviso de demissão, Pacheco ainda tentou explicar ao irritado diretor: “o senhor acredita que eu fui o primeiro professor a chegar ao colégio no sábado… bem cedinho… acredita, diretor?!”

professor 3