Memórias: “Encontros e desencontros.”

Pelo visto, nem mesmo Camus ou Kafka, os mestres do absurdo, conseguiriam imaginar soluções definitivas. E olha que eles não foram os únicos que se sentiram “estrangeiros” nesse conturbado mundo. É que no fundo, há sempre um pouco desse sentimento presente em cada um de nós. Porquanto muitos de todos nós já nos deparamos com situações profundamente “conflitantes”. Ainda que sejam repudiadas, devemos reconhecer que elas fazem parte da trajetória da gente. Afinal, quem não se sentiu perdido, injustiçado e sem perspectivas em algum momento da vida? Quem não experimentou fortes dores ao longo do percurso e, muitas vezes, provou o “pão que o diabo amassou”? Como se as razões extinguissem o bom senso e traíssem qualquer noção de humanismo. Como se o “absurdo” valesse bem mais do que tudo…

Pois é. Na verdade, é sabido que muitos pensadores já se reconheceram encurralados pelo mundo “normal”. E, provavelmente, eles devem ter se sentido “impotentes” diante dos acontecimentos… Paciência! Fazer o quê?! Bertolt Brecht, por exemplo, foi um que declarou: “Eu vivo num tempo sombrio. / A inocente palavra é um despropósito. / Uma fonte sem ruga denota insensibilidade. / Quem está rindo é porque não recebeu ainda a terrível notícia!” Será isso loucura? Será absurdo? Nem sempre, minha gente… nem sempre!

Rainer Maria Rilke foi outro que se deparou com tais emoções. Em “Cartas a um jovem poeta”, ele nos aconselhava: “…mas não se importe. Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. O que é preciso é caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém – é a isto que é preciso chegar”. E agora?! Pois é. Nós até podemos acalentar esses conselhos, contudo, convenhamos, torna-se extremamente complicado pôr em prática, não acham?!

O que sei dizer é que essas utopias poderão encontrar – aqui ou acolá – alguns seguidores, pois há todo tipo de gente nesse mundão de Deus. Entretanto, devo declarar: apesar de tudo, eu sempre preferi resolver as pendências por meio do “contato humano”, à medida que somente ele é capaz de nos proporcionar a verdadeira troca. Troca essa que “colhemos” ao nos “relacionar” com o outro. Evidentemente, muitas vezes isso é algo bem “complicado” e, por vezes, parece mesmo inatingível. Ainda assim, eu acredito que o sentido maior da nossa existência esteja na “relação humana”. Lá, isso sim!

Seja lá como for, minha gente, vendo isso ou escutando aquilo, no fim das contas eu acabo concordando com a excelente dramaturga, Maria Adelaide Amaral, quando diz: “… mas vou continuar de braços abertos porque, apesar da dor, do desencontro que tenho experimentado nas minhas relações afetivas, continuo a acreditar que o amor é a única coisa capaz de me salvar!”

encontros e desencontros

Foto: Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

 

Memórias: aprendendo a “soletrar o mundo”

Eu nasci em Fortaleza, Ceará. E não estou aqui renegando as minhas origens. Mas no meu imaginário, devo confessar, eu devia ter nascido em 1851, às margens do Mississipi, em New Orleans. E ao completar seis anos de idade, minha gente, eu receberia de meus pais um trompete de presente de aniversário. Contudo, paciência! Quis o destino que eu nascesse em 1951 e às margens do Jaguaribe, no velho Ceará. E não recebi presente algum de aniversário… Quem sabe, apenas um aperto de mão? Não! Não estou a reclamar da infância distante e tampouco das minhas raízes nordestinas. É que esse uísque paraguaio me pegou de jeito e botou as emoções na roda. Sabe como é?! Ouvir essa turma tocar “Just a closer walk” com a mesma emoção dos velhos “bluseiros” do Mississipi, quem há de resistir? O que sei dizer é que sonho sempre com o trompete. Eu ali, sentado nas improvisadas cadeiras, esperando que alguma alma solidária aprecie o som e nos ofereça sorrisos, palmas e, de quebra, algum dinheirinho para o almoço que insiste em se anunciar…

Pois é. Destino é destino e não se pode cobrar muito dele. Além do mais, não estou aqui para reclamar de nada. Ao contrário. Eu acredito que tenho recebido bem mais da vida do que mereço. E de mais a mais, convenhamos, a nossa missão nesse percurso é procurar aprender a “soletrar o mundo”. Com sorte, poderemos até mesmo ler em voz alta tudo aquilo que aprendemos!

Disco: CD “A Donny Hathaway Collection”, com Donny Hathaway.

Há quem assegure que os sons que existem na natureza representam a melhor “obra” do Senhor. E que “ele” criou o mundo com uma única intenção: que as criaturas pudessem se extasiar com os sons e, com isso, amassem uns aos outros. Olha, pode bem ser verdade. O que sei dizer é que existem algumas melodias esparramadas pelo mundo que atestam essa ideia, lá, isso sim! Basta ouvir, por exemplo, as lindas canções de Donny Hathaway, como “A song for you”. Ah, certamente vocês concordarão comigo: é um incrível mergulho na alma!

No entanto, meus amigos, a vida de Donny foi muito dura. Impiedosa, até. Nascido em Chicago e criado em St. Louis, pode-se dizer que Hathaway possuía uma daquelas almas “irreversivelmente conflitadas”. E a fama surgiu por conta da sofrida voz, à medida que ele conseguia expressar a marca de sua inseparável dor nos inúmeros “gospels” que aprendeu na infância. Como poucos cantores, Donny Hathaway legitimou o sofrimento nos cantos e acordes de belas melodias. Talvez por isso, irônica e cruelmente, ele tenha se suicidado em 1979, aos 33 anos de idade. Por sinal, com a mesma idade “do mestre” que ele tão bem soube homenagear em suas inesquecíveis canções…

https://www.youtube.com/watch?v=HeHiio1sTTI&feature=youtu.be

Donny Hathaway

Disco: CD “So goes love”, com Charles Brown

Meus amigos, muitas vezes esse tal de “preconceito” complica por demais a nossa vida. Sim! Eu explico. É que o famigerado “mundo globalizado” vem nos cobrando posturas e comportamentos para todo tipo de situação. Até aí, tudo bem. Antigamente, por exemplo, eu podia tratar alguns amigos negros carinhosamente por “negão”, sem que isso representasse ofensa ou desrespeito. Da mesma forma como eles me respondiam pelo apelido de “pau-de-arara” ou “paraíba”, mesmo eu sendo cearense. Contudo, isso nunca me feriu, porquanto eu tenho profundo orgulho de ser nordestino! Então, estamos combinados, não é verdade?!
Porém, o que eu queria dizer é que a voz que sai da garganta desse “negão” não está no “script”. É impressionante, minha gente! E, cá entre nós: com certeza o nosso Jorge Ben o chamaria de “Charles, Anjo 45”. Não por conta da idade, creio. Mas que é o “rei da malandragem”, lá isso é! O “suingue” que solta na voz e no piano é puríssimo. Daí, ele virou titular absoluto do meu time. Como dizia aquele vitorioso técnico de futebol: agora, é ele e mais dez! Basta ouvir a primeira canção do álbum “So goes love”. Intitula-se “New Orleans Blues” e já nos primeiros acordes sentimos no ar uma baita sedução. Charles Brown canta com uma tremenda intimidade e passeia na melodia feito aquele velho malandro que sabe o que quer. Pura magia!
Até que chegou a vez de “Sometimes I feel like a motherless child”. Céus! Confesso a vocês: tive até vontade de adotar o “desamparado órfão”, tal a emoção sentida. Afinal de contas, eu sempre tive o coração mole mesmo… Fazer o quê?!

https://www.youtube.com/watch?v=Cczb3fJ622Y

charles Brown

Literatura: Sim! Os “feiticeiros” existem!

Que eu saiba, cada criatura carrega no seu imaginário alguns mitos e heróis. E mesmo que a gente não queira confessar, no fundo, o “encantamento” por determinadas pessoas ou causas ultrapassa os limites da simples admiração.

É verdade, meus amigos, desde muito jovem eu me senti “abduzido” em diversos momentos. Algumas vezes, foram “causas” que me encantaram e eu as defendi com unhas e dentes. Foi o caso dos movimentos estudantis, pois ainda muito jovem eu me vi abraçando essa bandeira. E daquele modo, eu pregava por liberdade e participação nos destinos da educação. O mundo inteiro clamava por uma educação de qualidade…

Pouco tempo depois, eu novamente me vi enredado pelo “fascínio”, só que dessa vez era o cinema. Aquela telinha mágica que é capaz de nos transportar por mares nunca dantes navegados. Meu Deus, o que era aquilo? Eu parecia muito mais um daqueles ardorosos membros de fã-clubes que cultuam seus ícones. Eu e meus amigos aficionados íamos assistir diversas vezes aos filmes “cult” de Jean-Luc Godard, como o “Acossado”, na esperança de aprender a “soletrar o mundo”…

Nessa mesma época, eu também descobri o gosto pela leitura e o prazer que ela nos oferece. E durante as descobertas, eu encontrei os meus gurus na literatura: Rubem Fonseca, Vargas Llosa, Camus e tantos mais. Ah, que encantamento! Quanta sedução pode haver em um bom texto!

Rubem Fonseca, por exemplo, escreve histórias surpreendentes. Sedutoras. Por isso, é um verdadeiro mestre para mim. Aliás, foi com ele que eu comecei a entender o que é o bom uso das palavras em favor de uma ideia. Rubem mais parece um artesão, pois consegue construir com imensa paciência e dedicação o enredo de suas comoventes histórias. Seus livros estão aí para o deleite de todos. E para não cometer nenhuma injustiça ou esquecimento, gostaria de lembrar aqui alguns dos que me tocaram profundamente a alma: “O cobrador”, “Feliz Ano Novo”, “Lúcia MacCartney”, “Histórias de amor”, “A grande arte”, entre outros.

Pois é. Já houve quem afirmasse que uma arte só tem total legitimidade quando é capaz de “ferir mortalmente” as percepções alheias, deixando registros permanentes na alma de quem permitiu. Céus… Que verdade! E são poucos os que possuem tal virtude. Afinal, eles são os verdadeiros “feiticeiros”.

Se pensarmos bem, essa é uma das grandes razões porque vale a pena viver!

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Cinema: filme “Denise está chamando”, de Hal Salwen.

OS “NÁUFRAGOS” DA MODERNIDADE

Há quem diga que os relacionamentos afetivos “aprisionam” as pessoas. Proclamam que a natureza dessas relações subverte, tacitamente, o “instinto” de liberdade presente no ser humano. Sei não. Pode até ser verdade, mas desconfio de que constitua mero discurso retórico. Digo isso, meus amigos, porque percebo que temos o hábito de buscar explicações, muitas vezes, solidamente “elaboradas”. No fundo, acredito que tal comportamento serve apenas para justificar as nossas descontroladas emoções. Afinal, ao que tudo indica, a capacidade de “racionalização” de o homem parece ser inesgotável. No entanto, creiam-me: apesar das heroicas resistências que oferecemos, bastam algumas sessões “deitados no divã” e vai tudo por água abaixo. Meu Deus do Céu, que incrível desperdício!

Quando eu tinha os meus vinte e poucos anos de idade, também pensava em levar a vida amorosa na flauta. Na época, devo confessar, eu não queria me sentir “ligado” a uma pessoa em especial. Preferia me manter como um “franco atirador”, desses que se imaginam imunes a qualquer relação mais contínua e profunda. Como se isso fosse possível… “Mas o tempo passa muito rápido”, vaticinavam os mais velhos. É verdade! Hoje, confesso, eu acho que isso é uma dádiva e não um pesar. Sem medo de errar, eu agora acredito que não há nada mais belo nessa vida do que a “maturidade”. Sim, somente quando atingimos esta fase na vida é que nos damos conta de como é maravilhoso estar “ligado” a alguém. E mais ainda: que extraordinárias emoções podemos sentir quando estamos sob os auspícios da “cumplicidade”.

O nosso saudoso Lupicínio Rodrigues já cantou em verso e prosa: “Estes moços, pobres moços / Ah! Se soubessem o que eu sei / Não amavam, não passavam / Por tudo que eu já passei / Por meus olhos, por meus sonhos, / por meu sangue, tudo enfim… / É que eu peço a esses moços / que acreditem em mim. / Se eles julgam que há um lindo futuro / Só o amor nessa vida conduz / Saibam que deixam o céu por ser escuro / E vão ao inferno a procura de luz. / Eu também tive nos meus belos dias / essa mania que muito me custou / E só as marcas que trago em meu peito / São essas rugas que o amor me deixou…”
Céus… ainda que essa canção seja maravilhosa, como soa doído o amor cantado por ele, não acham?! Mas, em verdade, o que Lupicínio sentiu foi uma baita “dor de cotovelo”. Nada mais do que isso. E cá entre nós: quem não sofreu desse mal? Afinal de contas, a “dor de cotovelo” é um sentimento intimamente ligado ao amor e pertinente à vida de qualquer criatura. Além disso, convenhamos, Lupicínio teve esse direito. Isto porque, acostumado à boemia, ele deve ter experimentado muitas paixões, grandes amores e, de quebra, algumas “dores”. Algo que só quem está “pulsando” pode sentir. Quem nunca viveu um grande amor, jamais saberá como é a dor da “perda”. Isto sim, meus amigos, é bem triste, apesar de ser passageiro. É algo que alimenta a “inspiração” dos músicos e poetas. Tão somente. No entanto, para nós, “pobres mortais”, é bem ao contrário, à medida que evitamos, desesperadamente, sentir a dor e vivenciar o processo do “luto”. Geralmente, o que se verifica é uma brutal “dissimulação”, isto sim! E para tanto, nós lançamos mão do enorme arsenal de “racionalizações” de que somos portadores. É impressionante!

Ainda assim, apesar das dificuldades, o mais importante é acreditar que o amor é “possível” nas relações afetivas. Sim! É preciso acreditar que ele pode ser duradouro. Com sorte, pode até ser para sempre!

Como pano de fundo dessa crônica, eu relembro o delicioso filme “Denise está chamando”. É uma comédia moderna, muito embora nos pareça tema-canção de Lupicínio. O enredo da história é interessantíssimo: são oito criaturas entrincheiradas nos labirintos da moderna comunicação. Fax, e-mail e muitos pulsos telefônicos são as “armas” de cada um na busca da sua “cara-metade”. Vale até o velho chavão: seria cômico, se não fosse trágico! Só que por trás do drama, a comédia corre solta. É que amparado em refinado humor o filme denuncia a nossa indelével dificuldade de estabelecer “relações”. Relações reais, não as virtuais que proliferam na Internet e nos aplicativos dos celulares que anunciam o “amor mais fácil e mais rápido”…

No filme, o que se observa é o perverso pacto no jogo do “faz de conta”, disseminado cinicamente pelos protagonistas da história. Os personagens bem que ensaiam o definitivo “encontro”. Contudo, ele nunca se realiza por conta das dificuldades de cada um. O diabo é que não conseguimos perceber, em “tempo real”, as armadilhas que espalhamos pelos caminhos das relações. E olha que são muitas, lamentavelmente. E quando nos damos conta, meus amigos, é quase sempre muito tarde e o prejuízo é devastador. Mas, por que tem que ser assim? Por que insistentemente boicotamos os nossos afetos?

Pois é, minha gente, parece que os subterrâneos dos nossos corações possuem mais “minas” do que toda a Segunda Grande Guerra. Prontas para explodir ao primeiro sinal de aproximação do “suposto inimigo”. Estamos ali, ao lado, em permanente estado de prontidão, com a baioneta apontada àqueles desavisados “sentimentos pequeno-burgueses, subversivos”.

Ah, meu prezado doutor Freud, quanta falta o senhor nos faz. Se soubesse como andam “enroladas” as coisas aqui embaixo, voltaria em nosso socorro. Urgentemente. Saiba apenas, mestre, que a tarefa desta vez será árdua. É que os nossos mecanismos “escapistas” se modernizaram muito e adquiriram uma sólida barreira tecnológica às suas investidas aos nossos inconscientes.

Nessas horas inquietas, em que a solidão bate à porta, eu procuro ler Drummond: “Mundo mundo vasto mundo / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é o meu coração”. E se a solidão for uma ferida, o poeta diria: “Essa ferida, meu bem / às vezes não sara nunca / às vezes sara amanhã”. Diria mais ainda, que Drummond é remédio para todas as horas: “Está sem mulher / está sem discurso / está sem carinho / já não pode beber / já não pode fumar / cuspir já não pode / a noite esfriou / o dia não veio… / e agora, José?!”

Pois bem. O certo é vivemos num mundo de muitas quedas, meus amigos. O que é preciso, então, é aprender a se equilibrar e tocar em frente. Com o espírito desarmado, sensibilidade e obstinação, poderemos curtir as belezas espalhadas no mundo. Seguramente. Mas, enquanto isso não acontece, enquanto não surge o grande amor, façamos como Manuel Bandeira e “cantemos um tango argentino”. É verdade, amigos. Quando achamos que não há mais saída: um tango argentino! Assim, a vida é uma sequência. Mesmo que eu me chamasse Raimundo, onde estaria a solução?

Talvez, se aqueles oito indivíduos conhecessem um pouco a nossa rica literatura poderiam ter escapado ilesos. Poderiam ter consumado os adiados “encontros” e, quem sabe, festejassem a chegada do amor. Combustível lírico é que não faltaria a eles. Certamente os seus corações amoleceriam as pernas, como convém aos encontros amorosos. E, dessa forma, eles celebrariam as bem-vindas paixões!

Os mais jovens, quem sabe, até poderiam exclamar: uma tremenda “adrenalina”!

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(cena do filme “Denise está chamando”)

 

Memórias: “Os caminhos dessa vida.”

Foram muitos os caminhos que atravessei em busca de uma vida serena, de conforto emocional ou até mesmo de realização profissional. E saibam todos que travo essa peleja desde pequeno, quando ainda não compreendia a dimensão de muitas dores…

“Esse é o ofício do homem, querido Chau”, dizia o meu amigo Rodrigo, lá na marquise da rua Zamenhoff, numa esquina do velho Estácio. Sim, talvez seja… Talvez você tenha razão, mestre Rodrigo. O diabo é que as coisas nunca foram fáceis para mim. Nunca se apresentaram de modo simples ou direto. E não foi por falta de alerta, reconheço. Ainda menino na escola, eu já fora avisado por Drummond, quando me disse: “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida…”

Porém, por certo, o que eu não sabia é que para deixar de ser “gauche” a vida me cobraria um preço salgado. E nem mesmo o belo samba-canção de Chico Buarque conseguiu me alertar: “Quando nasci veio um anjo safado / O chato dum querubim / E decretou que eu tava predestinado / A ser errado assim. / Já de saída a minha estrada entortou / Mas vou até o fim.”

Pois é, meus amigos, por conta disso, muitas voltas eu tive que dar. Muitos atalhos eu desvendei em busca dos caminhos certos. Isso porque, no fundo, parece que a vida fica nos testando e verificando se somos capazes de seguir em frente. Sempre!

“Ninguém, ninguém vai me segurar / Ninguém há de me fechar / As portas do coração / …Eu não / Eu não vou desesperar / Eu não vou renunciar… / Enquanto eu puder cantar / Enquanto eu puder sorrir…”, foi baseado nesses versos de Chico Buarque que eu iniciei a caminhada. Sorte a minha que entendi, desde cedo, que esse percurso seria assim mesmo: desafiador. Sorte a minha que me “associei” a bons companheiros e, com isso, pude ser salvo inúmeras vezes das artimanhas da vida.

Por tudo isso, então, eu celebro cada um desses amigos, parceiros de tantas jornadas. E saúdo a todos, agradecendo pelos registros deixados…  Abençoados sejam!

 

Viva a vida

(foto: Praia dos Ingleses, em Florianópolis, numa ensolarada manhã de domingo)

Jazz: “The Smoking Time Jazz Club”, na Royal Street, em Nova Orleans.

Eu não sei dizer quanto tempo vai demorar para que eu possa assistir ao mais belo e espontâneo jazz de rua em New Orleans, nos arredores da Royal Street… Lá, meus amigos, ainda se poder ver músicos de qualidade executando belas performances. E o melhor de tudo, isso sim, é que eles nos fazem acreditar que a vida pode e deve ser bela. Para o deleite de todos, vale a pena nos deixarmos embalar por esse ritmo arrebatador. Afinal, o único risco que corremos é de sermos felizes, leves e soltos!

Uma coisa eu asseguro: prometo a mim mesmo e a minha família que nós teremos o prazer de usufruir desse presente… O mais breve possível.

Até lá, vamos curtindo o jazz do jeito que podemos!

 

Discos: a bossa-nova e a tropicália!

A bossa-nova é nossa! A tropicália também!

Eu já li muita coisa sobre a música brasileira. Algumas coisas boas e outras nem tanto. É que, no fundo, não é fácil escrever, minha gente. Além de termos que nos agarrar a uma boa ideia, tem o diabo do português que é um bocado difícil. São regras e mais regras, onde isso não permite aquilo e por aí afora. E existe, ainda por cima, o erro, a impropriedade e até mesmo o mau uso… E aí, minha gente, como nos safamos dessa impiedosa régua?!

Também há outro aspecto que pode estar presente numa escrita: o fato de um texto estar corretamente escrito, porém “insosso”. Aliás, cá entre nós, isto é mais comum do que imaginamos. Todos nós já nos deparamos com centenas de textos bem escritos, mas pecavam pela tal da “sem gracice”. Não que a gente tenha a obrigação de apresentar uma escrita bem-humorada. Contudo, devemos reconhecer que um texto leve e solto comunica mais facilmente e estabelece a devida empatia.

Mas… voltando ao tema da música brasileira, o que eu percebo é que a conhecida MPB tem recebido bastante espaço na literatura musical, o que me parece justo. No entanto, eu acredito que o “movimento tropicalista” foi pouco explorado. E olha que foi um movimento riquíssimo, seja no aspecto musical, seja no “conceito” que trazia embutido.

A meu ver, a “tropicália” foi bem mais do que um movimento musical, meus amigos. Porquanto trazia nas entranhas uma forte carga de “contestação” aos valores atribuídos, principalmente contra a bossa-nova, que era o “alvo burguês” do movimento tropicalista. Rogério Duprat foi um dos mentores do movimento, alimentando com o seu talento e criatividade os novos arranjos que embalaram as canções de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Tom Zé, Gal Costa, Ney Matogrosso e outros tantos.

Certo mesmo é que já se passaram cinquenta anos daquele momento histórico da música brasileira e pouca coisa foi feita de lá para cá que possuísse tamanha qualidade.

O que sei dizer, isso sim, é que a bossa-nova foi um fabuloso gênero musical. E seria insano não lhe atribuir valor. Para minha sorte, eu fui amante e testemunha das belíssimas criações de Tom Jobim, Carlinhos Lira, João Gilberto e outros craques. Ah, bons tempos aqueles no “Beco das Garrafas”, na Copacabana ainda inocente…

No entanto, eu saúdo também o extraordinário movimento tropicalista. Afinal, se a bossa-nova se apoiava nas questões do amor, com sabedoria, sedução e delicadeza, a tropicália construía suas trincheiras nos protestos estudantis desse mundão de Meu Deus…

Pelo sim ou pelo não, meus amigos, o que vale mesmo é boa música. E ela sempre terá destaque, não importa a origem. E esse lugar de destaque, por certo, está demarcado pelo bom gosto de quem ouve. Viva a boa música! Vivam os talentos que nos proporcionaram esse deleite!!

 

Disco:  “Sassy swings the Tivoli”, com Sarah Vaughan.

Não faz muito tempo que eu confessei aqui que era um ardoroso fã de Sarah Vaughan. Até aí, tudo bem, muita gente também é. O que nem todos sabem é que eu já sonhei com “Sassy”. Literalmente. Juro a vocês! Na verdade, eu sonhei que era músico e fazia parte do seu fabuloso grupo. E viajava com ela por todos os cantos desse mundão de Deus. Ah, meus amigos, que delícia de sonho. Como o pianista do trio, eu tinha ao meu lado, além de Sassy, a divina, a presença de Charles Williams no contrabaixo e George Hughes na bateria. O que eu sei dizer é que nós “aprontamos” um bocado nos shows e espetáculos. Não estava no gibi. Bastava a Sarah olhar para mim e eu já sabia que o andamento da melodia seria outro. Ora com o ritmo mais lento, ora acelerando mais que o “xaxado” do meu velho Ceará. E quando chegava a vez de “Misty”, eu sempre arrumava um jeito de improvisar algo especial para que a “divina” pudesse desfilar como uma rainha… “Over the rainbow” era outra canção preferida, uma vez que a “galera” ia ao delírio com a interpretação sempre emocionada de Sassy. Coisa linda, minha gente!

Até que um dia o Alexandre Kahtalian, meu terapeuta, disse enfaticamente: “se o Carlos insistir com essas “alucinações”, eu serei obrigado a interná-lo!”

Caramba, nem preciso dizer: nunca mais sonhei com isso. Juro pelo que é mais sagrado. E sequer tenho ouvido os discos dela. Podem acreditar (cruzando os dedos)!

https://www.youtube.com/watch?v=ERb81xZ2lWE&list=RDERb81xZ2lWE

sassy