Disco: CD “French Ballads”, com Barney Wilen.

Eu morei durante dez anos no Leblon, na Av. Bartolomeu Mitre, bem próximo à Praça Antero de Quental. Era o final dos anos 70 e foram bons tempos aqueles! Isto porque a atmosfera do bairro era diferente de tudo que se via no Rio de Janeiro. O Leblon mais parecia uma daquelas cidades provincianas, onde as pessoas se conhecem e se cumprimentam com carinho e amizade. E, ainda por cima, apresentava os melhores restaurantes, bares, pizzarias, lojas de sucos, além de toda sorte de elegantes “boutiques”… Ah, eu tenho as melhores recordações daquela época. Vejam só um exemplo:
Eu acabara de dar uma manhã inteira de aulas no Colégio Santo Agostinho, do Leblon. Naquele dia, excepcionalmente, eu teria a tarde de folga, sem nenhuma aula particular ou prova para corrigir… ufa, até que enfim!

Por conta disso, resolvi dar um pulinho no simpático Shopping da Gávea. Assim eu almoçaria no “árabe” e depois esticaria as pernas olhando as novidades. Agora, devo confessar: aquele carneiro recheado com farofa de hortelã, arroz com passas, gergelim e grão-de-bico é de matar guarda de trânsito! Após isso, devo concordar, só mesmo uma boa rede cearense para purgar as “culpas”…

Sim… eu ia contar sobre a esticada pelas lojas. É verdade, minha gente, há um punhado delas no elegante “shopping”. No segundo piso, por exemplo, havia uma que possuía “raridades” em jazz. Era parada obrigatória. E foi lá que encontrei o nosso Barney Wilen. É bem verdade que ele tem um tipo meio estranho, com mais “pinta” de artista plástico francês que de saxofonista. Mas… uma luz “acendeu” e me dizia para comprar “no escuro” o lacrado CD. E fiz muito bem, pois o disco é maravilhoso. Intitula-se “French Ballads”. E já que dei a pista, vamos lá. Barney nos apresenta a nata do cancioneiro francês, regado com vinho nacional (deles, é claro!) e muito bom gosto jazzístico. Interpreta belas canções de Michel Legrand, Jaques Prévert, Piaf e, de quebra, Django Reinhardt.
Então, faço agora alguns convites. Deliciem-se com o impecável desempenho em “La vie em rose”. Percebam a “releitura” que ele faz em “What are you doing the rest of your life”. E se não ficarem satisfeitos, façam um “flashback” relembrando “Un été 42”, trilha sonora de Michel Legrand para o belíssimo filme homônimo (Verão de 42).
Ah, sim! Antes que eu esqueça: ouçam com atenção especial a faixa 6. É a manjadíssima “My way”, eternizada na voz de Sinatra. Há quem a considere como o “hino à realização”.

Pode ser. Verdade é que eu gostaria de cantar para o meu filho, Gabriel, os versos desta canção. Por certo, eu me sentiria orgulhoso de poder declarar que as tantas coisas que já fiz na vida, “fiz à minha maneira”. Afinal, quantos de nós podem dizer isso, após sessenta anos de existência? É que, lamentavelmente, é mais comum fazermos “as coisas” pelo jeito dos outros, não acham?

O certo mesmo é que o nosso Barney tocou o sax do “jeito” dele. E muito bem! Por isso, o disco é recomendado até pelo “Blue Note”. Céus… nem precisava. Bastava apenas ouvir!

https://www.youtube.com/watch?v=DiCjmzpqUA0

 

Barney

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...