Literatura: crônica “Histórias de Professores” – Parte 2.

Uma das características mais interessantes de se ver em um professor, convenhamos, é a capacidade de antever as dificuldades dos alunos. De fato, isso é algo espetacular e na verdade são poucos que adquirem esta sensibilidade durante a carreira do magistério. Aliás, tal acuidade permite que o professor possa desenvolver as explanações fazendo uso do seu “termômetro de compreensão” do tema tratado. Sim! Quando bem utilizado, meus amigos, isto vira uma poderosa ferramenta junto à técnica de ensino-aprendizagem.
Nelson foi um desses professores “medalhões” da Língua Portuguesa e da Literatura Brasileira que tive o prazer de conviver no exercício da profissão. Era um professor extraordinário, que deixou marcas na formação de milhares de estudantes cariocas.
Certa vez, ao finalizar uma longa explicação sobre regras gramaticais, Nelson foi interpelado por um aluno grosseiro. Disse o aluno: “não entendi nada!” E o professor, retrucou com um largo sorriso: “você deveria saber que negar a negativa é o mesmo que afirmar!” O aluno fez cara de paisagem… Então, Nelson voltou à carga: “o que eu quis dizer, meu jovem, é que se você afirma que “não entendeu nada”, é sinal que “entendeu tudo”, entendeu?”

O aluno, ainda sem compreender, preferiu partir para ofensiva e disse: “explica de novo!” E Nelson, sem perder a elegância, apontou: “depois do “por favor”, confesso, não ouvi direito o restante do seu pedido…” Foi quando o aluno, irritado, declarou em alta voz: “eu estou lhe pagando para me explicar!”

Aí, entra em cena o talento e senso de oportunidade do velho Nelson. Virou-se para o aluno e disse: “bem, você utilizou um argumento contundente. Então, vejamos: quanto é que você paga de mensalidade escolar?” O aluno respondeu, de bate-pronto: “eu pago R$ 1.350,00 de mensalidade. E daí?” Nelson pediu que ele viesse até o quadro-negro e ficasse a seu lado, o que ocorreu. Pegou um pedaço de giz e solicitou ao aluno que acompanhasse o raciocínio. “Vejamos, meu jovem: você tem seis aulas por dia e cinco dias na semana, certo? Isso dá um total de 30 aulas semanais, que multiplicadas por quatro semanas e meia, perfaz o montante de 135 aulas no mês, confere? Portanto, para cada aula os seus pais desembolsam o valor médio de dez reais, ou seja, o resultado da divisão de R$ 1.350,00 da mensalidade por 135 aulas do mês. Como nós já tivemos 40 minutos da aula, cuja duração é de 50 minutos, assim, já cumprimos 80% da aula e, consequentemente, eu devo aos seus pais somente 20% dessa aula, concorda?”

Nelson, calmamente, colocou a mão no bolso, puxou a carteira de dinheiro e pegou uma nota de dois reais. Virou-se para o aluno e completou: “por gentileza, queira pegar esse dinheiro que ainda lhe devo e me faça o favor de sair de sala. Estamos quites. Não lhe devo mais nada!!”

professor 2

(imagem da internet, meramente ilustrativa)

 

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...