Literatura: crônica “Histórias de Professores” – Parte 3.

HISTÓRIAS DE PROFESSORES” – Parte 3.

Aquele seria o quinto sábado do semestre que o Pacheco chegava atrasado para suas aulas no Colégio SB, um dos melhores, senão o melhor, do Rio de Janeiro. E o diretor já havia avisado que não toleraria mais nenhum atraso. Disso o nosso Pacheco sabia muito bem. Sabia também que um novo atraso implicaria em demissão sumária. “Irreversível”, diria o irritado diretor.

Ocorre que a noite carioca tem lá as suas manhas e o seu fascínio. Para piorar a situação, Pacheco era um boêmio inveterado. E a noitada de sexta-feira começava com os colegas do cursinho onde dava as últimas aulas da semana. Habitualmente eles elegiam o Catete ou o Flamengo para dar início aos “serviços”. Naquela noite, lembro bem, o grupo optou pelo Café Lamas que, antes das obras do Metrô, ficava no Largo do Machado. Depois, mudou-se para a Marquês de Abrantes, mantendo o mesmo clima. Lá, o grupo de professores era conhecido como os “quatro mosqueteiros das exatas”, pois dois eram mestres de matemática, um de química e o último era de física. Invariavelmente, meus amigos, a noitada era aberta com uma rodada de chope, acompanhado por “Steinhaeger” e uma porção de salaminho.

Dali, o grupo fazia uma verdadeira peregrinação: iam para o Bar Luiz, na Rua da Carioca ou para o Bar Lagoa, com o tradicional estilo “art déco” e o mau humor dos garçons, mas, que ainda assim, era o melhor ponto de encontro da turma da “esquerda”.

Algumas vezes, o escolhido era o Bar Nova Capela, na Lapa, onde comiam a melhor paleta de cabrito com arroz de brócolis. E, claro, mais algumas rodadas de chope ou caipirinhas de lima da Pérsia, para não dar “ressaca”…

O pior de tudo, minha gente, é que somente às três da madrugada Pacheco se lembrou das aulas do sábado, que começavam às sete horas. Sem pestanejar, pediu desculpas ao grupo e pegou um táxi para o Colégio SB. Lá chegando, gritou pelo nome do vigia da escola por um bom tempinho. Lá pelas tantas, assustado, ele chegou ao portão e perguntou de quem eram os gritos. “Sou eu, seu Chico, o professor Pacheco, de matemática”. O vigia, então, perguntou: “E o que o senhor quer a essas horas da madrugada, professor?”

Para disfarçar, Pacheco explicou que fora a um casamento e que após a recepção ficou em dúvida se iria para casa ou para a escola. Preferiu vir direto e pedia para dormir aquelas poucas horas que restavam ali mesmo na guarita do vigia. O seu Chico coçou a cabeça e acabou permitindo a entrada do professor, não sem antes advertir que se tratava de uma exceção à regra!

O fim da história é triste, minha gente. Pacheco só acordou às dez e meia da manhã, com o sol batendo em seu rosto na guarita. Lavado de suor. Por conta disso, foi demitido na segunda-feira pelo motivo já anunciado.

Ao receber o aviso de demissão, Pacheco ainda tentou explicar ao irritado diretor: “o senhor acredita que eu fui o primeiro professor a chegar ao colégio no sábado… bem cedinho… acredita, diretor?!”

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