Cinema: filme “Antes da chuva”, de Milcho Manchevski.

“O mundo é um moinho!”

( Carta a Zamira )

É quase certo que você, Zamira (personagem de Labina Mitevska), nunca tenha ouvido falar do nosso querido mestre Cartola. Por isso mesmo, não teve a felicidade de conhecer os maravilhosos versos do grande sambista e poeta. Foi uma pena, amiga, porquanto você perdeu a oportunidade de se emocionar com essa belíssima canção: “Ainda é cedo, amor / Mal começaste a conhecer a vida / Já anuncias a hora da partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar / Preste atenção, querida / Embora saiba que estás resolvida. / Em cada esquina cai um pouco a tua vida / E em pouco tempo não serás mais o que és. / Ouça-me bem, amor / Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos / Vai reduzir as ilusões a pó…”

Pois é. Foi uma lástima você não ter ouvido esses versos. Saiba, então, Zamira: Cartola compôs essa música para demover o desejo da filha de sair de casa precocemente. E ele conseguiu! Se você tivesse sido acalentada por essa melodia, quem sabe pudesse compreender e perdoar o duro destino que a vida estava a lhe reservar? No entanto, a dor que Cartola sentiu não pode ser comparada à sua. Lá, isso não. Ainda que toda dor seja triste, pois dor é sempre dor, o certo é que o seu infortúnio bateu mais fundo. Como prova, basta assistir ao melancólico filme e perceberemos que esta dor sempre esteve presente em sua vida. Impiedosamente. Presente, também, no destino das tantas vítimas de guerras, como a do seu sofrido país. Convenhamos, tudo isso serve apenas para denunciar o lado mais obscuro da natureza humana: o sofrimento. Não há nada mais sombrio do que isso, esteja certa!

Bem, meus amigos, desculpem-me tê-los afastado da conversa que tive com a menina Zamira. É que essa conversa era urgente e necessária, além de muito pessoal. No fundo, há tempos eu me devia estas palavras. Agora, torço apenas para que tenham sido tolerantes comigo e entendido o momento especial.

Então, voltando a conversar um pouquinho sobre filmes marcantes, especiais, o filme que trago hoje é o maravilhoso “Antes da chuva”, dirigido por Milcho Manchevski e muito ajudado pelos talentosos Rade Serbedzija, Labina Mitevska, Katrin Cartlidge e Grégoire Colin.

Belíssimo. Comovente. Humano. Corajoso. Sei lá mais o quê!

Na construção do enredo, Milcho lança mão de três histórias de amor que se cruzam, em meio à guerra fratricida na Macedônia. “Palavras” é o título do primeiro episódio, que descreve a dor de Zamira e do jovem monge Kiril (personagem de Grégoire Colin). É quase certo que Zamira (personagem de Labina Mitevska) nunca tenha ouvido falar do nosso querido mestre Cartola. Por isso mesmo, não teve a felicidade de conhecer os maravilhosos versos do grande sambista e poeta. Foi uma pena! Porquanto ela perdeu a oportunidade de se emocionar com a belíssima canção: “Ainda é cedo, amor / Mal começaste a conhecer a vida / Já anuncias a hora da partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar / Preste atenção, querida / Embora saiba que estás resolvida. / Em cada esquina cai um pouco a tua vida / E em pouco tempo não serás mais o que és. / Ouça-me bem, amor / Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos / Vai reduzir as ilusões a pó…”

Em “Rostos”, o segundo episódio, surge o “fotógrafo de guerra”, Aleksandar (personagem de Rade Serbedzija). Envolvido numa difícil relação amorosa em Londres, ele não consegue permanecer distante e sofre com os duros acontecimentos desenrolados em seu país. “Imagens” é o terceiro episódio, que tem o pano de fundo no retorno de Aleksandar à sua terra natal, a Macedônia. Ironicamente, neste último episódio, os caminhos de Aleksandar se cruzam com os de Zamira e Kiril, desenhando de forma impiedosa a intolerância presente nos conflitos entre macedônios ortodoxos e muçulmanos albaneses. O retrato da dignidade daquela gente é, enfim, aviltado e revelado…

Sim, meus amigos, “Antes da chuva” é um filme impiedoso. Desafiador. E ao mesmo tempo, delicado. Um filme produzido com a nítida intenção de “impressionar”. E ele consegue!

Ainda bem que podemos fazer pequenas “expiações” enquanto o mundo não se ajuíza. Sorte a nossa que tivemos o querido Cartola para nos consolar e ainda temos, afortunadamente, o poeta Nei Duclós para nos dizer sem medo: “Estamos na mesma fogueira / na mesma lenha / usando a mesma coleira / pulando com a mesma raiva / sofrendo a mesma seca / plantando a mesma semente / esperando com a mesma demência / que ela cresça…”

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Memórias: “SOMOS APENAS PASSAGEIROS…” – Parte 3.

Para finalizar esta série de crônicas sobre viagens, eu quero evocar o meu lado nordestino. Afinal, sou um cearense “cabra-da-peste”! Ainda que tenha saído aos cinco anos de idade do meu querido Ceará e vivido quarenta anos no Rio de Janeiro e vinte anos em Florianpólis, na verdade, eu nunca deixei de ser “pau-de-arara”…

Talvez, por isso, eu tenha me identificado tanto com as viagens que fizemos a Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Maceió e até mesmo a Salvador, já que dizem que o baiano é o nordestino que deu certo!

Então, para começar a conversa eu me reporto a Fortaleza, que visitamos em 2012, 2015 e 2016. É bem verdade que a primeira viagem aconteceu por influência do maravilhoso filme, “Gonzaga, de pai pra filho”, que eu e a minha esposa fomos assistir com o nosso filho Gabriel. Ao acabar o filme, comovido pela bela história, eu chorei bastante. Foi quando a minha esposa sugeriu que viajássemos para “retomar” às minhas origens. Era, sem dúvida, uma excelente ideia, uma vez que fazia mais de trinta anos que eu não retornava ao meu velho Ceará.

Assim, em 2012, na primeira viagem, apenas eu e o Gabriel viajamos, já que a minha mulher não conseguiu tirar férias no trabalho. Pensamos até em adiar os planos, mas ela nos convenceu que seria uma grande oportunidade de rever as minhas raízes e, além disso, a chance de o Gabriel “compreender” a “ancestralidade” que herdara. E de quebra, eu poderia mostrar ao meu filho que há mais coisa nesse mundo além da internet e do celular…

Depois dessa viagem, para nossa alegria, vieram os “encontros” com Salvador, Natal, João Pessoa, Recife e, bem há pouco, Maceió. Meu Deus do Céu, que magníficos encontros foram esses! E em cada uma dessas cidades nós “descobrimos” o verdadeiro Brasil. Quanto orgulho nós sentimos em sermos brasileiros, nordestinos e amantes da cultura que eles preservam com tanto carinho.

Viva o povo brasileiro! Viva o nordestino!

Memórias: “SOMOS APENAS PASSAGEIROS…” – Parte 2.

Sim, eu estava contando as histórias das minhas viagens. Nessa altura da vida, já perto dos 25 anos, eu me tornara professor de química de cursinhos pré-vestibulares. O salário era bom e, diferentemente dos meus colegas professores que só queriam comprar roupas finas e ter carros esportivos, eu preferia ficar com o meu “fusca” e planejar viagens. Ah, poder “conhecer o mundo”, esse era o meu sonho de consumo!

Então, o universo se encarregou de conspirar e, sorrateiramente, alterou o meu destino. É que eu tinha uma namorada de faculdade que, ao se formar junto comigo, recebera uma irrecusável oferta de estágio na Basileia, Suíça. Vocês podem imaginar que a euforia do convite logo deu lugar ao “frio” na barriga. É que sabíamos o que representava quase um ano de separação… Timidamente, apoiei o projeto, mesmo intuindo os riscos.

No dia da partida, meus amigos, o coração de Bárbara, tanto quanto o meu, estava superdividido. No entanto, não se pode abrir mão dos “sonhos” e nós sabíamos disso. Aliás, no caminho até o aeroporto, uma melodia “martelou” a minha cabeça, impiedosamente: “Ne me quitte pas”. Talvez eu devesse cantar essa canção para ela… Mas, apenas um longo abraço, envolto em silêncio, selou aquele momento de despedida.

Após seis meses, veio a trágica notícia: o estágio seria prorrogado por mais um ano. Imediatamente, entramos em pânico. “Por que você não vem para cá?” – Bárbara indagou-me com sofreguidão. “Como, se eu já estou dando um monte de aulas no cursinho?” – respondi, atônito e indignado.

Todavia, dizem por aí que o “diabo” é mais ligeiro que os “anjos”, porquanto é determinado. Sim, pode bem ser verdade. O certo é que em menos de um mês eu vendi o carro, a linha telefônica e raspei a poupança que possuía. Com a passagem na mão, embarquei para a Suíça. Extasiado!

A chegada ao aeroporto de Zurich foi um verdadeiro sufoco. E se ela não estivesse lá?! Sem saber uma só palavra em alemão, como eu me safaria?

Contudo, lá estava Bárbara: linda e sorridente! Tão ou mais nervosa do que eu, cujo coração mal cabia no peito. Verdade é que o ardente beijo no saguão do aeroporto constrangeu alguns suíços, mas nunca fora tão sentido e desejado quanto aquele.

Para custear a minha estada, trabalhei como garçom, cuidei de crianças e até uva, meus amigos, eu colhi nos campos da França. Ah, foram ricas e preciosas experiências, isso sim. E até hoje, decorridos quarenta anos, até hoje, eu tiro proveito daquela incrível viagem…