AVISO IMPORTANTE

EU  ESTAREI  DE  FÉRIAS  DO  DIA  15  ATÉ  O  DIA  22  DE  JULHO.

RETORNO  NO  DIA  23,  SEM  FALTA…

ABRAÇOS  A  TODOS! 

Cinema: quando a morte revela a vida!

Dizem que a “gratidão” é um dos sentimentos mais evoluídos que um ser humano pode apresentar. De fato, é bem possível que seja. E se isso for verdade, meus amigos, eu torço apenas para que os “espíritos hospedeiros” tenham esta compreensão quando chegar a minha hora… Por enquanto, creio, ainda há muito o que fazer por aqui. Muitos projetos de vida. Muitas descobertas e… muito o que aprender, isso sim!

No entanto, já que eu abordei o tema da morte, a verdade é que o povo ocidental tem muito que aprender com os orientais. Isto porque chega a ser tocante a compreensão que eles têm sobre a morte. Diferentemente de nós, ocidentais, eles aceitam a morte como mais uma das etapas da vida e não a última…

Foram vários os filme a que assisti sobre esse tema e todos eles foram impecáveis no trato da questão. Lembro bastante de dois extraordinários filmes, que me deixaram marcas permanentes: “O caminho para casa”, de Yimou Zhang e “A partida”, de Yojiro Takita. Como se pode observar, ambos foram construídos por orientais. E isso somente atesta a compreensão de que eles, os orientais, estão mais de mil anos à nossa frente. Nem mesmo posso evocar para a nossa defesa o divertido filme americano “Antes de partir”, de Rob Reiner, com os talentosos Jack Nicholson e Morgan Freeman. Porquanto até mesmo o tema da morte é tratado com ironia, o que demonstra a grande dificuldade dos ocidentais de lidarem com a perda e a dor…

Então, só nos resta torcer para que a vida nos ensine a encarar a morte com o mesmo respeito e dignidade dos orientais. Com sorte, nós poderemos guardar na memória onde estão os nossos caminhos, seja neste ou em outro plano. E se isso ocorrer ainda em vida, melhor ainda, pois assim levaremos o melhor dos legados!

Memórias: os caminhos de cada um!

Meus amigos, vocês não podem imaginar o prazer que tive em reencontrar as belíssimas canções de Raimundo Sodré…

Eta, cabra danado de bom! Desses cuja nordestinidade atravessa o mundo e vai até Paris encantar aquele povo do mesmo modo que nos encantou.

O que sei dizer é que eu sempre me identifiquei com Raimundo Sodré, seja pela visão de mundo que ele possui, seja pela vocação de homenagear os oprimidos com respeito e interesse.

Tudo isso me faz lembrar que nós dois, Raimundo e eu, nascemos com semelhantes destinos e que recebemos a mesma profecia de Carlos Drummond de Andrade. Do meu lado, eu sempre percebi que havia uma sentença a cumprir:

“Quando nasci, um anjo torto  /  Desses que vivem na sombra  /  Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida…”

E do lado de Raimundo, por certo, o destino não era menos carregado de dor e esperança:

“Mundo mundo vasto mundo /  Se eu me chamasse Raimundo  /  Seria uma rima, não seria uma solução  /  Mundo mundo vasto mundo  /  Mais vasto é meu coração”

O fato é, minha gente, que cada um de nós seguiu o seu rumo em busca das soluções para as questões que se impunham. E não foram poucas!

Raimundo, mais determinado que eu, conseguiu “romper com o mundo e queimar seus navios”, ainda que tenha pago alto preço por esta coerência. Mas, valeu a pena, isso sim. Quanto a mim, eu continuo “pelejando” atrás dos meus caminhos.

Portanto, obrigado por essa expiação, Raimundo. Abençoado seja!

 

 

Literatura: crônica “Os caminhos do amor!”

Muito já foi dito sobre o amor. Sei bem. Pode até ser que o tema não careça mais abordagem. Mas, convenhamos: há amores de todos os tipos, minha gente!

Não obstante toda forma de amor ser bela e comovente, no fundo, sempre haverá uma “especial”. Marcante. Inusitada. Isso porque a capacidade de o homem estabelecer diferentes afetos parece ser inesgotável. Ainda bem, pois assim, quando menos se espera, eis que surge outra maneira de “ver” e “viver” o amor. Quem sabe não resida aí a grande beleza dessa vida? Sim, na incrível diversidade do amor!

A bem da verdade, devemos reconhecer, o uso da palavra “amor” acabou sendo banalizado. Lamentavelmente. Porquanto a frequência com que a palavra é utilizada, muitas vezes torna o amor um aparente despropósito. Seja pela fugacidade com que ele, repentinamente, vem e se vai. Seja pela ausência de compromisso com o real sentimento presente, uma vez que seguidamente se confunde amor com “posse”. O que sei dizer, amigos, é que parece que estamos tratando o amor de forma indevida. Descuidada. Confusa, até.

É sabido que diversas gerações atravessaram fortes correntezas em busca da “cara-metade”. Por conta disso, desafios tiveram que ser vencidos com uma coragem ímpar. E o que se viu, por aí, é que a determinação sempre foi a mola propulsora dos amantes. Quem sabe seja ela a única aliada da paixão?!

Em nome do “amor”, impérios foram sacrificados, revoluções foram deflagradas e muitos mártires surgiram na história da humanidade. Algumas vezes, é verdade, estiveram escondidos em “ideologias” ou “utopias” sem fronteiras. Não importa. O certo é os exemplos estão aí: construídos com profunda garra e esparramados pelos caminhos do universo. São contundentes dramas que lutaram por um final feliz, nem sempre logrado. Quem não se lembra, por exemplo, do velho “Iona” do conto Kusmá Iônitch, de Tchecov? Depois de contar a sua tristeza pela morte do filho a várias pessoas, sem resultado, passou a falar com a sua velha égua, única companheira de todas as horas: “Assim é, meu irmão, minha eguinha… Não existe mais Kusmá Iônitch. Foi-se para o outro mundo… Morreu assim, por nada… Dá pena, não é verdade?”

Ou no intenso e absurdo monólogo do Coronel com o seu galo, na novela de Gabriel Garcia Márquez (Ninguém escreve ao Coronel). Ao se ver acuado pela fome e pela falta de perspectiva, o Coronel encontra no galo a força necessária para permanecer lutando: “A vida é dura, camarada!”, sentenciou o exaurido homem ao galo.

Certamente, eu ainda poderia citar dezenas de outros comoventes exemplos de amor. Só serviriam para atestar a grandeza desse sentimento que, por vezes, é cego. Outras tantas, surdo. E até mudo já foi. Bem mais do que isso, o amor já foi herói e foi bandido. Foi perseguido e celebrado. Ultrajado e invejado. Ah, o amor… Essa fantástica “caixinha de surpresas” que arrebata espíritos desavisados. Bendito, seja!

É interessante perceber que o mito do amor tem sido mais forte do que a imaginação humana. E até mesmo Bernard Shaw, um mago na criação, preferiu homenageá-lo às avessas. Em seu antológico romance, Pigmalião, ele recria livremente o mito – o lendário rei de Chipre que se apaixona por uma estátua de marfim que ele próprio esculpira e que a Deusa do Amor acaba por dar vida. Pigmalião Higgins, no fundo, idealiza a própria mãe em vez de Eliza Doolittle. Esta, por sua vez, vê-se aprisionada diante da escolha: casar-se com o atraente Higgins para quem passaria a vida toda a procurar os chinelos ou com o repugnante Freddy que, bem ao contrário, a vida toda estaria a lhe procurar os chinelos? A escolha foi dura e muitas complicações se seguiram…

Vimos, também, quando o velho Santiago, o pescador solitário de Hemingway (O velho e o mar) – que durante 84 dias não apanhara um só peixe – novamente põe-se no mar. O que o velho carregava no peito, minha gente, era mais do que coragem. Dentro dele e daquela solitária canoa, tinha amor. Muito amor! Sim, somente um homem com seus sonhos e suas tristezas profundas pode amar com tanta ternura um peixe. E, por conta desse amor, ele empreende bem mais do que uma luta de sobrevivência. Ao travar a longa batalha, o pescador jamais perdeu o respeito ao peixe. “Vou pôr os dois remos cruzados na proa e o peixe terá que abrandar a velocidade durante a noite”, disse o velho. “Ele deve querer descansar e eu também!”

Tudo isso me faz crer que o verdadeiro amor é assim mesmo: respeitoso, ainda que sem cerimônias e indulgente, mas sem se culpar. Por certo, em nome da preservação, o amor é até capaz de ferir. No entanto, o perigo que sempre rondou as nossas casas está nos excessos. É que, por vezes, a “paixão” é traiçoeira e manhosa. E não poupa ninguém! Basta olhar para os lados e veremos: quando estamos “distraídos” e somos tomados pelo “inadvertido” sentimento, tudo pode ocorrer. E a dor, inescrupulosa parceira da paixão, acaba mostrando as garras e, de alguma maneira, fazendo vítimas. É… São os “pedágios” da vida e nada pode ser feito. Tampouco se adquire imunidades quanto a isso.

Não, meus amigos, não estou aqui a repudiar a paixão! Muito ao contrário: dela, sempre fui cúmplice e dependente. Raptado por ela? Inúmeras vezes. Arrependido? Jamais! Disposto a mais uma? Sempre!

O que posso afirmar, sem medo, é que a grande sabedoria dessa vida talvez consista em aprender a lidar com a paixão. Permitindo que ela nos subverta, sim, mas, atento aos caminhos que trilhamos. Com isso, podemos desenvolver a capacidade necessária para “cicatrizar” antigas feridas. E, com sorte, experimentamos no percurso os mais belos dias de nossas vidas…

 

Muito além da paixão

Foto: João Pedro, o meu mais novo amor!

Memórias: “Achados & Perdidos”

Ontem eu fui almoçar em um restaurante com o meu filho. Lá pelas tantas, comecei a desenvolver um argumento, empunhando-o como se fosse uma bandeira: dizia para o Gabriel que não é somente o planeta que está se exaurindo. É a humanidade, isso sim!

Contudo, sem dar muita importância à minha fala, talvez por conta dos quinze anos de idade, percebi que tudo o que eu dizia era enfadonho para ele. Ainda assim, meus amigos, eu resolvi insistir no tema. Afinal, a nossa “conversa” tem que prosseguir, não é verdade?!

Então, comecei argumentando que ao se observar a história da humanidade, pode-se perceber que o homem tem sido capaz de construir um sem número de coisas a partir de suas invenções. Todavia, também é verdade que ele tem “extraviado” pelo caminho significativos “patrimônios” que já havia acumulado. E eu não me refiro aqui aos patrimônios materiais. Não, amigos! Desafortunadamente, as maiores “perdas” têm sido os valores éticos, morais e o respeito pelos bens imateriais.

Não, não! Por favor, rogo a todos que não reduzam essas ideias apenas aos aspectos “saudosistas”. Até porque não sou dessas criaturas que costumeiramente iniciam suas frases com o famigerado “olha, no meu tempo…”. Na verdade, a minha preocupação reside, muito mais, nas possíveis “atrofias” que já vislumbramos na formação do caráter e da estrutura emocional desses jovens. Sim! Porquanto eu já me sinto assustado com o comportamento deles, indiferentes a toda e qualquer forma de tradição, legado ou valores constituídos. Coisa triste!

Eu também já fui jovem, creiam-me. Por conseguinte, já empunhei as “bandeiras da contestação” e participei de incontáveis protestos contra toda sorte de causas e movimentos. Até aí, estamos empatados. No entanto, minha gente, ainda que eu abraçasse febrilmente uma dada causa, por certo, havia um componente que nos diferenciava dos atuais movimentos contestatórios: não desprezávamos os valores adquiridos. Até porque, convenhamos, precisávamos deles para dar consistência e solidez aos nossos argumentos.

Pois é. Oxalá eles cresçam e possam retomar àquilo que deixaram de lado durante o percurso. Se isso acontecer a tempo, menos mal. Ainda poderemos dar boas risadas devido aos “tombos e atropelos” cometidos. E na dúvida, eu sugiro que procurem o setor de achados e perdidos. Lá poderão encontrar algumas utilidades. Com sorte, quem sabe, poderão até mesmo resgatar antigos “afetos”…

achado e perdidos

Disco: CD “Chambre avec vue”, com Henri Salvador.

Olha, minha gente, por conta da amizade que nos une, eu me sinto à vontade para confidenciar uma coisa: a turma aqui do bairro já anda me considerando como “traidor”. E alguns vizinhos, vejam vocês, nem sequer me cumprimentam mais. Olham-me de banda e sussurram “coisas” que eu não consigo ouvir. Céus, por quê? – perguntarão alguns. Eu explico. É que fiquei um bom período sem escrever no blog por causa do nascimento do meu neto, João Pedro. Aí, sabe como é, a gente fica todo entretido com a criança e não pensa em mais nada, a não ser curtir o rebento e exibi-lo orgulhosamente aos parentes e amigos. Com isso, eu acabei optando por estilos mais leves e intimistas. É bem o caso de “Henri Salvador”, um francês danado de bom, nascido na Guiana. Meu Deus, que maravilha de disco. Puro suingue, isso sim! Suave e acolhedor, como o abraço do meu pequeno João Pedro…

Muitas vezes, devo confessar, eu coloquei o CD a tocar só para embalar o sono dessa linda criança. É que ao ouvir a voz suave de Henri cantando “Jardim”, João Pedro tinha a oportunidade de “construir” os seus mais belos sonhos, quem sabe, repletos de fadas…

Caramba, verdade é que agora me bateu uma tremenda dúvida: será que eu virei um “avô babão”?

https://www.youtube.com/watch?v=gFkUVik35U8

HenriSalvador1

HenriSalvador2

Memórias: Bocaina, a “Macondo” dos nossos sonhos!

Dizem por aí que o melhor aliado do homem é a “memória”, porquanto é o único patrimônio verdadeiramente intransferível. Tudo o mais é efêmero e não redime o coração de quem quer que seja. Sim! Eis aí uma verdade que concordo. Plenamente!

Muitas vezes, meus amigos, a gente observa que o destino de uma criatura sofre bruscas mudanças e subverte os caminhos do coração. Ainda que seja injusto, convenhamos, são incontáveis os casos em que a “roda da vida” manipulou os acontecimentos. Seja atropelando sentimentos, seja cerceando talentos ou mesmo modificando o rumo de algumas histórias. Pois é. Há de tudo nessa vida…

Sabemos também que o ser humano é detentor de fortes contradições e que a sua busca por uma vida melhor nem sempre logrou êxito. Mário Quintana, o nosso encantado poeta, declarou um dia: “Ah! se exigirem documentos aí do “Outro Lado”, extintas as outras memórias, só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens: aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado ou uma nuvem perdida, perdida… Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!”

Por sinal, foi por conta de umas fotos antigas que tudo isso me veio à cabeça. Eu explico. É que ao olhar as fotografias da Bocaina, uma linda serra nas Minas Gerais, que abrigava a colônia de férias da Tia Alba. Para muitos, Bocaina foi a nossa pequena “Macondo”. Ainda que ela não tenha adquirido a dimensão da Macondo de Gabriel Garcia Marquez, porém, estejam certos, ela foi o grande laboratório que revelou o imaginário de muitos que ali estiveram. Lá, isso sim! E como estou atravessando uma fase de “inventariar” as muitas passagens que já tive, não poderia deixar este registro passar em brancas nuvens. Afinal de contas, cada um tem lá a sua “Macondo”. E o mais importante de tudo, minha gente, é fazer bom uso dessas memórias e, assim, renovar os laços afetivos junto ao nosso imaginário!

Bocaina 1

 

Bocaina 2

Fotos: Fazenda da Bocaina, nos anos 60.

 

Disco: “This is the Life”, com Freddy Cole.

Hoje eu gostaria de dizer que entre tantas “descobertas” que tive ao longo da vida, sem dúvida alguma, Freddy Cole foi uma das mais reveladoras. Lá, isso sim. E digo mais: poucos “crooners” tocaram tão profundamente o meu coração como ele. Aliás, devo confessar que vou ao delírio quando ouço “Don’t change your mind about me”. Céus! O nosso Freddy parece possuir um daqueles extraordinários dons de nos “transportar” para mares nunca dantes navegados… E aí, minha gente, dá vontade até de chorar. Quem sabe pedir ao Senhor a graça de “reencontrar” as nossas almas gêmeas, que foram se extraviando no decorrer do percurso?! Isto porque, convenhamos, não há criatura nesse mundo que seja capaz de ouvir “Somewhere down the line” e, ao final da canção, permanecer com o coração endurecido. Não! Freddy Cole não permite. E nem mesmo aceita que o ouvinte deixe de celebrar a vida. A vida, sim, meus amigos. Essa doce e linda passagem que o tempo nos oferece de presente e que, muitas vezes, deixamos escapar a oportunidade de melhorar a nossa alma…

Por sinal, na trajetória da família Cole, foram muitos os “menestréis”. O mais renomado deles, por certo, foi Nat King Cole. Mas a verdade é que também tivemos outros talentos na família, passando pelo irmão Freddy Cole, por outro irmão Eddie Cole e pela sobrinha Natalie. E de quebra, tivemos uma irmã que foi atriz, Evelyn Cole. Pois é. De certo modo, isso nos faz lembrar os nossos Caymmi: Dorival, o patriarca, e os seus maravilhosos filhos Nana, Dori e Danilo Caymmi. Todos talentosos e bem-sucedidos na carreira musical.

Eu não sei quanto a vocês, amigos leitores. Torço para que estejam bem e que saibam aproveitar as delícias que a vida nos oferta. Com sorte, assim como eu, teremos a grande oportunidade de repassar esse extraordinário legado aos nossos descendentes… E os que conseguirem, seguramente, serão abençoados!

https://www.youtube.com/watch?v=CcQSUG56jS8

Freddy

Memórias: crônica “O TEMPERO DE DONA MARIA”

Sabe como são aqueles aromas especiais, que de algum modo nos remetem às lembranças de criança? Pois é. Hoje eu acordei um pouco mais cedo e fui preparar o meu café da manhã, procurando não fazer barulhos, já que minha mulher e o meu filho ainda dormiam. Sentei-me no sofá da sala, acompanhado pela caneca de café e um punhado de bolachas Maria. Curiosamente, parei para observar o desenho em relevo da deliciosa bolacha. Foi quando me deu vontade de saber a origem dela com a ajuda do Professor Google: “A bolacha Maria foi criada em 1874 por um padeiro inglês para comemorar o casamento da grã-duquesa Maria Alexandrovna da Rússia com o Duque de Edinburgo. Foi muito popular na Guerra Civil Espanhola, durante a qual foi considerada símbolo da prosperidade da economia ao ser produzida com os excedentes de trigo…”

Fechei os olhos por um instante, sentindo o aroma delicioso do café. Aí, juro a vocês, foi a vez de eu receber uma inesperada visita: as lembranças de Dona Maria de Piabetá, a cozinheira da minha infância distante. Meu Deus do Céu! Que saudade me bateu no peito ao lembrar daquele sorriso largo, estampado em um rosto mais largo ainda. Dona Maria, meus amigos, mais parecia uma baiana, daquelas que vendem acarajé em frente à igreja do Nosso Senhor do Bonfim. Com um invejável senso de humor, Dona Maria chegava a nossa casa bem antes das sete da manhã, embora morasse em outro município: Piabetá, próximo a Magé, no Rio de Janeiro.

Bem… já se passaram mais cinquenta anos desde que aprendi a saborear as melhores “especiarias” de Dona Maria de Piabetá. Seu rosto, confesso, eu já tenho dificuldades para resgatar da memória. Mas os aromas que ela esparramou ao meu redor, estes, ah!, jamais esqueci.

Abençoada seja, Dona Maria.

 

Biscoito Maria

Disco: “Reunión cumbre”, com Gerry Mulligan e Astor Piazzolla.

Eu bem sei que o tempo voa mais rápido que a história. Por vezes, nem mesmo os pensamentos conseguem acompanhar o ritmo dele. Contudo, ainda que isso faça parte da trajetória da gente, a verdade é que algumas vezes dói… Deixe-me, então, contar um “causo”.

Eu estava remexendo no diretório de fotos no meu computador e, de repente, acabei me deparando com algumas que não me lembrava mais… Eram fotografias de quando eu cheguei a Floripa, em 1997. Ao observar uma delas, no apartamento na Lagoa da Conceição, lembrei-me do período que ela representava. Eu havia recém-chegado do Rio de Janeiro, após a aposentadoria especial de 25 anos de magistério e, além disso, eu acabara de sair de um equivocado casamento. Como é comum nessas horas, eu estava doído e bastante fragilizado. Talvez por isso, Florianópolis representasse uma espécie de “Terra Prometida”, onde encontraria o meu paraíso e a minha bem-aventurança…

O que sei dizer é aquele foi o período que mais escutei jazz na vida. Pudera! A necessidade e o desejo de reclusão eram tão fortes que, por conta disso, requeriam sons mais intimistas, mais contemplativos. Daí a minha escolha ter recaído em alguns “especialistas” do gênero, como o foi o caso de Gerry Mulligan. Sorte a minha, pois fui tremendamente acalentado por esse baita músico!

Sem dúvida, minha gente, Mulligan é um virtuose no sax barítono, instrumento no qual tornou-se, talvez, a maior referência mundial. Afinal, como ele, são poucos os que conseguem extrair um timbre riquíssimo do sax barítono, fazendo uso de improvisações extremamente melódicas. O sopro de Mulligan está quase sempre impregnado por atmosfera intimista e melancólica. Por isso, foi um dos principais expoentes do “cool jazz”, participando das gravações do célebre disco do trompetista Miles Davis, “Birth of the Cool”.

Ah, meus amigos, ao ver outra foto da mesma época, 1997, lembrei-me também de outro disco de Gerry Mulligan, intitulado “Summit” ou “Reunión cumbre”, que foi gravado em 1974, ao lado do genial Astor Piazzolla. O que aqueles dois conseguiram fazer não está nesse plano… Coisa linda!

mulligan_piazzolla