Memórias: “SOMOS APENAS PASSAGEIROS…” – Parte 2.

Sim, eu estava contando as histórias das minhas viagens. Nessa altura da vida, já perto dos 25 anos, eu me tornara professor de química de cursinhos pré-vestibulares. O salário era bom e, diferentemente dos meus colegas professores que só queriam comprar roupas finas e ter carros esportivos, eu preferia ficar com o meu “fusca” e planejar viagens. Ah, poder “conhecer o mundo”, esse era o meu sonho de consumo!

Então, o universo se encarregou de conspirar e, sorrateiramente, alterou o meu destino. É que eu tinha uma namorada de faculdade que, ao se formar junto comigo, recebera uma irrecusável oferta de estágio na Basileia, Suíça. Vocês podem imaginar que a euforia do convite logo deu lugar ao “frio” na barriga. É que sabíamos o que representava quase um ano de separação… Timidamente, apoiei o projeto, mesmo intuindo os riscos.

No dia da partida, meus amigos, o coração de Bárbara, tanto quanto o meu, estava superdividido. No entanto, não se pode abrir mão dos “sonhos” e nós sabíamos disso. Aliás, no caminho até o aeroporto, uma melodia “martelou” a minha cabeça, impiedosamente: “Ne me quitte pas”. Talvez eu devesse cantar essa canção para ela… Mas, apenas um longo abraço, envolto em silêncio, selou aquele momento de despedida.

Após seis meses, veio a trágica notícia: o estágio seria prorrogado por mais um ano. Imediatamente, entramos em pânico. “Por que você não vem para cá?” – Bárbara indagou-me com sofreguidão. “Como, se eu já estou dando um monte de aulas no cursinho?” – respondi, atônito e indignado.

Todavia, dizem por aí que o “diabo” é mais ligeiro que os “anjos”, porquanto é determinado. Sim, pode bem ser verdade. O certo é que em menos de um mês eu vendi o carro, a linha telefônica e raspei a poupança que possuía. Com a passagem na mão, embarquei para a Suíça. Extasiado!

A chegada ao aeroporto de Zurich foi um verdadeiro sufoco. E se ela não estivesse lá?! Sem saber uma só palavra em alemão, como eu me safaria?

Contudo, lá estava Bárbara: linda e sorridente! Tão ou mais nervosa do que eu, cujo coração mal cabia no peito. Verdade é que o ardente beijo no saguão do aeroporto constrangeu alguns suíços, mas nunca fora tão sentido e desejado quanto aquele.

Para custear a minha estada, trabalhei como garçom, cuidei de crianças e até uva, meus amigos, eu colhi nos campos da França. Ah, foram ricas e preciosas experiências, isso sim. E até hoje, decorridos quarenta anos, até hoje, eu tiro proveito daquela incrível viagem…