Cinema: filme “Eu, Tu, Eles”, de Andrucha Waddington.

OS “DELITOS” DA SECA

Para aqueles que estão acostumados com a abundância de chuva, de comida o ano inteiro e algo a mais no horizonte além do verão escaldante, por certo, terão muitas dificuldades de compreender os caminhos e os meandros da vida do árido sertão brasileiro. Isto porque, convenhamos, a seca não castiga apenas o corpo, minha gente. Perversamente, ela castiga sobretudo a alma. Talvez, por isso, é que Euclides da Cunha tenha afirmado em seu extraordinário romance, “Os sertões”, que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte!”
O filme “Eu, tu, eles”, de Andrucha Waddington, é bem mais do que uma fiel crônica nordestina. Porquanto consegue efetuar com brilho e discrição a maior expiação que o sertão poderia resgatar: a dignidade daquela gente.
A ideia de filmar “Eu Tu Eles”, segundo o diretor do filme, surgiu a partir de uma reportagem sobre uma mulher que viveu anos sob o mesmo teto com seus três maridos. “Achei a história muito interessante, principalmente por ser a oposto do que geralmente acontece. É muito mais comum, nessas regiões, encontrar um “coronel” que tem mais de uma mulher. Senti vontade de investigar como uma mulher, em um país tão machista, conseguiu administrar esta situação”, diz o diretor.
Segundo Andrucha, “Eu Tu Eles” é um filme sobre seres humanos simples em uma situação considerada absurda, numa sociedade que não aceita a poligamia, sobretudo quando ela se inverte. Eu diria também que é um filme sobre as regras do jogo, e de como a vida apresenta novas regras todos os dias. Se as pessoas quiserem ser felizes, devem se adaptar às novas regras, mesmo que passem por momentos de muita angústia”.
Somente desse modo é que fica mais fácil entender o pedido de Osias a Darlene, quando diz: “Costume mais vezeiro: se for do seu agrado, a casa é sua. De minha parte, o acordo está feito. Qual vai ser a resposta?”
Pois é, meus amigos. Eis aí um grande desafio para os nossos olhares pouco ressequidos. Quem sabe se as razões de Darlene (Regina Casé) e os seus maridos, Osias (Lima Duarte), Zezinho (Stênio Garcia) e Ciro (Luiz Carlos Vasconcelos), acabem nos impondo novas e surpreendentes visões?! Principalmente, aquela que nos faz retirar a cabeça enterrada do avestruz que habita em nossa alma… teimosamente!

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...