Literatura: a impecável obra de Dias Gomes!

O tempo, como se sabe, é um impiedoso esmeril da memória. E muitas vezes, reconheço, nós afiamos involuntariamente o fio da navalha…

Eu ontem me lembrei de Alfredo de Freitas Dias Gomes, mais conhecido pelo sobrenome Dias Gomes. Sem dúvida, meus amigos, ele foi um extraordinário dramaturgo, romancista, autor de telenovelas e membro da Academia Brasileira de Letras. Para fazer justiça, sorte a nossa que as suas obras também ficaram imortais. Aliás, quem não se lembra de “O Pagador de Promessas”, que foi adaptado para o cinema e tornou-se o primeiro grande filme nacional premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes? Ou do subversivo “Roque Santeiro”, que precisou morrer para se tornar herói e mártir na extraordinário ficção de Dias Gomes? Melhor ainda quando ele escancara o lado sarcástico (e trágico) da política com o seu bem-humorado (e mau-caráter) Odorico Paraguaçú, na imaginária Sucupira, de “O Bem Amado”? Tudo aquilo terá sido realmente ficção, meus amigos?!

Ah, meu caro Dias Gomes… quanto falta você nos faz!

Pois saiba, então, que os seus personagens, quase todos, parecem ter “reencarnado”. Afinal, não é somente Odorico que perambula pelos quatro cantos do país. Encontramos também o “Rei de Ramos”, transvestido de miliciano em todas as áreas densamente povoadas. Do mesmo, não ficamos livres das “inquisições”, tão bem apontadas no seu “Santo Inquérito”, isto porque a sua maculada “Branca” já retornou como Irmã Dorothy, lá no distante Pará e teve um destino semelhante…

Por tudo isso, então, eu torço para que tenhamos dias mais amenos. Que o universo conspire favoravelmente e nos possibilite “apreciar” a arte de nossos irmãos brasileiros. Quem sabe assim possamos evoluir o suficiente para prestarmos as justas e devidas homenagens aos talentosos brasileiros que souberam educar e alegrar as nossas almas?!

Disco: CD “Modern Cool”, com Patricia Barber.

Sinceramente, devo reconhecer, é preciso prestar atenção aos nossos “conservadores” hábitos. Sim, minha gente, digo isso com algum constrangimento, porquanto apesar de estar quase “setentão”, algumas vezes eu me flagro “resistente” às mudanças. Paciência… fazer o quê?!

Patricia Barber é um grande exemplo do que acabo de dizer. Eu explico. É que a primeira vez que ouvi este CD, na acolhedora casa do amigo Jorge Knirsch, em São Paulo, torci o nariz, ajeitei-me na poltrona e, ao final, dei um sorriso “sem graça”. Verdade é que fiquei sem saber o que dizer. Gostei… mas…

Tempos depois, eu achei o CD “Modern Cool” numa loja aqui em Floripa. E novamente vacilei. Porém, dessa vez, eu acabei comprando. Agora, tenho que fazer o “mea-culpa”. Na realidade, é um belo disco, isso sim. Diferente, por certo. E talvez “modernoso” demais para o meu gosto conservador. Contudo, verdade é que o disco tem uma atmosfera profundamente intimista. “You & The night & The music” é um exemplo típico. Melhor ainda é “Silent Partner”, onde Patricia derrama todo o lirismo musical de forma lenta e suave. Impressionante!

Então, para me redimir, eu devo dizer: “a-do-rei” a interpretação dela em “Light my fire”. Sendo assim, para ser justo eu peço mil perdões a Patricia. E mais ainda: confesso que eu também fiquei “acesão”! Uau…

 

https://www.youtube.com/watch?v=-6NqH2g0CPk

 

https://www.youtube.com/watch?v=KZU99EvEncc

 

Patricia Barber