Disco: CD “Give it up to love”, com Sam McClain.

Henilton Menezes é meu primo, lá do nosso velho Ceará. É gente muita boa ou como dizem por aquelas bandas: um tremendo “cabra da peste”. Desses que se não fossem parentes, nós adotaríamos de qualquer jeito. Lembro-me de que não o conhecia pessoalmente quando recebi uma ligação dele, no Rio de Janeiro. Estava hospedado no antigo Hotel Nacional, palco dos Festivais de Jazz, onde nossa presença era garantida. Daí, convidou-me para um chope, com direito a um papo gostoso sobre jazz. Pois não é que ele me escreve agora, declarando-se meu leitor. Bem… não foi bem assim… na verdade, ele escreveu para me “esculhambar”. Com seu inconfundível senso de humor cearense, disse: “Pô, vê se escreve sobre gente nova, seu baitola! Não existe só essa velharia, feito você, no nosso jazz!”

Esquecendo os demais palavrões que me disse, que cearense é bicho desbocado mesmo, eu sou obrigado a concordar com ele. Portanto, desculpe-me, Henilton, não foi por querer. Aliás, cá entre nós: estou tão velho assim, com 66 anos? É verdade que as moças, minhas alunas, há tempos já me chamam de “tio”…

Muito bem, primo. Então, está aí o que me pediu. Só falta você não conhecer o Mighty Sam McClain, um negão com uma voz e um suingue de fazer sorrir a galera do velório! “Give it up to love” é o título do disco, gravado em 20 bits, que garante uma qualidade impecável. Agora, se você ouvir “Got to have your love” e não se emocionar, primo, é sinal que o velório acima deveria ser o seu! E já que é assim, aproveite e mande queijo de coalho, rapadura e muita tapioca…

https://www.youtube.com/watch?v=Ca2gbXZExpU

https://www.youtube.com/watch?v=9cSRU8gxyL4

Sam McClain

Literatura: Gabriel Garcia Márquez, John Coltrane e Holdemar Menezes, meus eternos “feiticeiros”.

Foi na casa do tio Holdemar que eu fui apresentado à literatura de Gabriel Garcia Márquez. Estávamos em 1968, o ano que não acabou. Eu tinha 17 anos e vivíamos tempos difíceis, pois boa parte da América Latina sofria com os regimes autoritários. No pequeno escritório da casa, no primeiro andar, ele me presenteou com a novela de Gabriel, intitulada “Ninguém escreve ao Coronel”. Céus, que estilo maravilhoso! Fiquei extasiado com o texto. Depois disso, para minha sorte, eu conheci “Cem anos de solidão”, “O outono do patriarca”, “Crônica de uma morte anunciada” e tantos outros livros do mestre, incluindo o magistral romance “O amor nos tempos do cólera”. Curiosamente, ao mesmo tempo, conheci também John Coltrane e as suas incríveis baladas. “Carlos, você conhece as baladas do Coltrane?”, perguntou-me Holdemar. Claro que não “conhecia”. Então, escutei. Uma, duas, diversas vezes. Ah, que incríveis foram aqueles sopros! Somente após ouvir aquelas baladas é que fui “compreender” o que era elegância e bom gosto no jazz. No meu imaginário, vejam vocês, Coltrane tocava “Say it (over and over again)” vestido a rigor, tal era o finesse com que ele soprava o sax.

Desde então, meus amigos, eu nunca mais pude me separar de Coltrane, de Gabriel Garcia e nem das lembranças que carrego do nego velho Holdemar…  Ainda bem!

Gabriel Garcia