Literatura: livro “Ninguém escreve ao Coronel”, de Gabriel García Márquez

OS  JARDINS  DE  TÂNATOS – Parte 1 / 2.

Certa vez eu ouvi de um amigo a seguinte sentença: “Ah, Carlos, esse mundo insiste em não se ajuizar. Não demora muito e ele logo apronta alguma!” Pois é… Eis aí uma dessas frases que ouvimos de quando em quando. Daquelas que nos convocam à manutenção, a qualquer custo, do juízo perfeito e da harmonia. Para muitos, no entanto, isso é pura sandice!

É bem verdade que o conceito de juízo ou bom senso é algo bastante relativo, visto que depende da situação envolvida. O nosso estimado Caetano Veloso já nos disse que “de perto, ninguém é normal”. Isso porque, quando se está de fora, como um neutro observador, os atos e fatos da vida parecem assumir condições que enquadramos em rígidos parâmetros. De modo geral, costumamos julgar “as coisas” com base no senso comum. Até aí, tudo bem. O discernimento, seguramente, deve estar a serviço de uma vida equilibrada. Não obstante, a busca por esse equilíbrio é que constitui a grande peleja da vida. Também é verdade que o mundo não é tão perfeito como imaginamos ou desejamos. Por certo, iremos nos deparar com situações que escapam ao nosso “comando”. E quando isso ocorre, reconheçamos, é um verdadeiro “Deus nos acuda”. De fato, são incontáveis os momentos em que a vida nos põe frente a frente com o “crime”. Entendendo esse “crime”, é claro, apenas no sentido da perda do controle. Digo isso, minha gente, porquanto é fácil perceber a desenfreada necessidade que temos de “controlar” tudo ao nosso redor. Como se que a perda do controle significasse tão somente um atestado de incapacidade ou desespero em qualquer um de nós. Um verdadeiro sufoco!

É interessante perceber que ao lermos um belo romance ou ao assistirmos a um denso filme, em cuja história algum personagem “destrambelha”, sentimos imediatamente “pena”! É uma reação espontânea, como um ato falho, pois logo a seguir vem: …tadinho, ele perdeu o controle! Não é assim que acontece? É… sei bem que tudo isso é bastante complicado. Sei até que me pilho, vez por outra, “controlando” a mim ou os que me cercam. Paciência, fazer o quê? Pelo visto, os sete anos de terapia não me deram imunidades! Mas, será que precisamos controlar “as coisas” assim? E o que representa esse controle? Bem, aí é que mora o “x” do problema. E a razão deste artigo!

Sem nenhuma cerimônia, devo confessar que tudo isso é profundamente inquietante. Para qualquer um de nós. E mais ainda: no meu entendimento, esta é a grande questão a ser respondida. Agora, se conseguimos responder corretamente, aí já são outros quinhentos… ou, como queiram, uma outra “peleja”!

Como exemplo, tomemos o filme “Ninguém escreve ao coronel”, de Arturo Ripstein. Baseado na belíssima novela de Gabriel García Márquez, o filme é um retrato vivo do que começamos a abordar. Com muita propriedade, o texto da contracapa informa: “Semanas após semanas, o Coronel se veste solenemente e fica parado diante do cais aguardando a carta que anunciará a chegada de sua tão esperada pensão. Todos do vilarejo sabem que ele espera em vão, inclusive sua mulher, que há anos o vê preparar-se diante do espelho para receber a carta que nunca chega. Mas, o Coronel fecha seus olhos diante desta verdade tão evidente e se agarra ao seu sonho. Caso contrário o que lhe resta? Ninguém escreve ao Coronel é um filme tocante, adaptado do romance de Gabriel García Márquez e tem no elenco atuações extraordinárias de Fernando Luján e Marisa Paredes como o coronel e sua esposa”.

Voltando ao tema do artigo, meus amigos. Será o Coronel um sujeito “desequilibrado”? Sua história é puramente absurda, a ponto de nos indignarmos ao assisti-la? O que ele deveria ter feito?

Alguns poderão afirmar: meu prezado Carlos, somente o Coronel poderia dar conta do seu drama. Afinal, já se disse por aí que todo drama é sempre individual. É… Pode ser, meus amigos. Mas, basta que o nosso olhar esteja menos contaminado pelo propalado equilíbrio e perceberemos que o Coronel talvez tivesse poucas alternativas. Mais ainda: concluiremos que o “galo” do Coronel representava bem mais do que um estimado animal. Ao que tudo indica, o galo era o único daquela vila que o compreendia com exatidão. Talvez porque encarnasse o símbolo da “resistência” mantida por ele, junto ao “sistema”. Ou quem sabe o galo estabelecesse a fronteira da última utopia do Coronel e daquela gente?! O certo é que naquele vilarejo ninguém podia mais viver sem o galo. Assim como o coronel não podia viver sem as utopias, ainda que estivessem impiedosamente abaladas. Restava ao coronel, ao menos, o seu vitorioso galo de briga!
No entanto, é interessante perceber que o galo nunca brigou com um oponente, meus amigos. Apenas com o espelho. Ainda assim, o nosso estimado coronel atribuía a ele uma força transformadora. Força capaz de redimir as muitas dores dele e daquele povo. Implicitamente, a “força” estava com o galo! Força essa que religião alguma conseguiu oferecer a contento, apesar das inúmeras seitas. E tampouco o sonho socialista foi capaz de perdurar, uma vez que se esfarelou feito biscoito velho…

Coronel

Cinema: filme “Nínguém escreve ao Coronel”, de Arturo Ripstein.

OS  JARDINS  DE  TÂNATOS – Parte 2 / 2.

O aparente absurdo da história encontra o eco perfeito no nosso “avesso”. Batendo e rebatendo em nossos corações e nos conduzindo à tácita solidariedade. Basta recordar a dramática cena do coronel penteando o cabelo da faminta esposa. A meu ver, assemelha-se mais ao “teatro do absurdo”. E foi Antonin Artaud, fiel escudeiro e representante deste, que disse: “O teatro, como a peste, é uma crise cujo desenlace é a morte ou a cura!”
Ah, meus amigos, eu não sei dizer o que nos cura… Tão pouco o que nos mata. No entanto, desconfio que a primeira grande utopia, criada pelo homem, talvez tenha sido o Éden. O verdadeiro nirvana onde, segundo afirmam, não precisávamos fazer absolutamente nada. Tudo nos era ofertado pela mãe-gentil, a natureza. E assim, reza a lenda, vivíamos em paz!
Logo a seguir, veio a cobiça. E os consequentes resultados dela. O homem, então, trilhou caminhos conturbados e que promoveram diversos conflitos. Por conta disso, é bem possível que muitas crenças, misticismos e utopias tenham surgido como uma espécie de “compensação” às perdas. Tudo bem. No fundo, quem sabe, elas eram até necessárias?! Ou inerentes ao processo evolutivo. De toda forma, é bem melhor do que ficar sentando à beira da estrada “esperando Godot”, não acham? Provavelmente, o nosso querido Coronel não leu a antológica obra de Samuel Beckett e nem ouviu falar de Antonin Artaud. Talvez tenha sido melhor. Afinal, ele encontrou a “loucura” ao seu jeito e ao seu tempo. Revelada sob a mais perfeita das condições: o sonho recorrente! Podendo, muitas vezes, parecer cruel aos que de fora observam. Apesar de tudo, devemos reconhecer, foi por intermédio dos sonhos que a humanidade encontrou muitas verdades. E por conta das utopias, o homem ainda sobrevive. Caso contrário, a vaca já teria ido para brejo há mais tempo…
Então, minha gente, é preciso ter cuidado no trato dessas questões. É preciso não bani-las “a priori”, como teimosamente fazemos quando nos deparamos com o “diferente” ou com o “inusitado”. Como fez Antonin Artaud. Ele via como absurdo a ação de se defender uma cultura, quando se deveria defender a vida, particularmente quando essa cultura nunca coincidiu com a vida, sendo feita apenas para dirigir, quer dizer, sufocar a vida!
Os “Jardins do Éden” podem ter revelado bem mais do que as “inocentes maçãs”, ainda que seja imputada à serpente a nossa primeira “loucura”. De toda a forma, com ou sem “pecado”, a loucura teve o seu lado bom. É que ao estampar os desejos inconscientes, presentes em cada um de nós, ela libertou um sem número de almas inconformadas ou diferentes. Em todos nós. Com isso, os nossos “julgamentos” se tornaram mais condescendentes e pudemos, enfim, avançar em alguns aspectos da nossa humanidade, que tantos cuidados careciam. É… no fim das contas o Coronel tinha razão ao acreditar que o galo lhe traria aquilo que a carta não anunciava: a vitória do sonho! E com sorte, melhor do ninguém, ele poria fim na miséria, na dor e no desalento: os indecorosos vizinhos do coronel.

Nessa vida, por certo, muita gente já atestou um sonho. É bem verdade que muitos deles foram vividos apenas por quem o sonhou. Pouco importa. No fundo, o que mais vale é evitar os “jardins” de Tânatos. Estes, sim, são sombrios. Dão as costas aos sonhos e, implacavelmente, sentenciam o fim das utopias, determinando a morte em toda a sua extensão! Por tudo isso, eu prefiro, então, a loucura de Artaud, quando diz: “Não tenho nem teatro nem palco que não o teatro do meu inconsciente e de meu coração”.
Se preferirem, embalado pelo sonho, Chico Buarque nos traz outra resposta: “A novidade / Que tem no Brejo da Cruz / É a criançada se alimentar de luz / Alucinados, meninos ficando azuis… / Na rodoviária, assumem formas mil. / Uns vendem fumo, / tem uns que viram Jesus. / Muito sanfoneiro, / cego tocando blues. / Uns têm saudade e dançam maracatus. / Uns atiram pedras, / outros passeiam nus! / Mas há milhões desses seres / que se disfarçam tão bem, / que ninguém pergunta / de onde essa gente vem?!”

Ninguém escreve ao Coronel

 

Cinema: filme “Amnésia”, de Christopher Nolan.

UMA  VELHA  CANÇÃO – Parte 1 / 2.

 Cena 1 – Atordoado, eu estiquei o braço e procurei alcançar o despertador. Como o quarto ainda estava escuro, fiquei sem saber se era dia ou noite. Aliás, eu gostaria de declarar: nunca gostei desse nome, “despertador”. Conforme a própria palavra sugere, aquilo que “desperta dor” não pode ser coisa boa. E dor, convenhamos, é a pior emoção que uma criatura experimenta na vida…

Ao olhar para TV, estampando uma indiferente tela azul, lembrei-me do filme a que assistira na noite anterior: “Amnésia”, de Christopher Nolan. “Sua história ajuda a entender a minha”, dizia o protagonista, Leonard. Foi quando pensei: “E eu, será que algum dia conseguirei entender a minha história?”

Avidamente, abri a gaveta da mesa de cabeceira e procurei pelo último bilhete dela, escrito no Dia dos Namorados: “Dormi feito um anjo. Acordei alegre e com saudades. Te amo!”

Cena 2 – Espalhados em cima da cama, estavam todos os bilhetes que trocamos durante o relacionamento amoroso. Com isso, iniciei uma ordenação. Primeiro, por grau de importância. Depois, cronologicamente. E logo a seguir, ordenei os bilhetes segundo as cores dos papéis. “Deve ser duro viver em função de pedaços de papel” – respondeu Natalie, em dado momento do filme. Ao lembrar a cena, consenti: “É… o que sobra de uma relação afetiva, muitas vezes, são só papéis… Tristes fragmentos que acabam perdendo o significado com o correr do tempo. E não há nada que se possa fazer contra isso!”

Cena 3 – É bem verdade que eu sou um sujeito pouco paciente. Algumas vezes, reconheço, sou até intolerante. Ah, se eu tivesse sido mais compreensivo com o momento que ela atravessava, quem sabe não pudesse perdoar certas desatenções cometidas? No fundo, parece que a vida fica sempre nos testando, que é para ver se estamos capacitados. Como se “viver” fosse um eterno teste de resistência emocional que certifica os nossos limites. “Tem coisas que é melhor você esquecer!”, veio estampado na capa do filme. E agora, o que fazer?

Cena 4 – Percebo que o sono começa a tomar conta de mim. Sendo assim, procuro me deitar no confortável sofá da sala, fechar os olhos e me “ausentar”. Profundamente. “O mundo não desaparece quando você fecha os olhos”, dizia Leonard. “Mas o meu mundo não precisa ser igual ao dele”, suspirei aliviado…

O certo, meus amigos, é que aqueles dias de profunda tensão e medo me deixaram em frangalhos, isso sim. Agora, eu bem necessito de descanso. Mais ainda: acredito que mereça! Afinal, eu lutei por este afeto desde o início. Até mesmo quando ela fraquejava e preferia, simplesmente, “chutar o balde”.

Cena 5 – Há quem garanta que os sonhos representam o melhor tratamento para o nosso espírito. Pode ser. O que sei dizer é que eu sonho com ela todos os dias. Irremediavelmente. E nos meus sonhos, ah, que delícia, ela consegue finalmente se dar conta dos equívocos. Consegue entender as razões do coração e as acolhe. Diz até que não há culpados nos nossos erros, apenas dificuldades presentes. De ambos. E nesses recorrentes sonhos, eu continuo a beijá-la com intensa paixão. Porém, de alguma forma… eu sempre acabo acordando. “Nem sei há quanto tempo ela se foi. É como se eu acordasse e ela não estivesse na cama, pois foi ao banheiro ou algo assim. Mas, de alguma forma, sei que ela nunca mais vai voltar para a cama. Se eu pudesse esticar o braço e tocar o seu lado da cama, saberia que está frio. Mas, não posso!”, desabafou Leonard.

Cena 6 – Havia uma semana que não conversávamos. Nem sequer nos víamos. E o tempo, como se sabe, é uma “faca de dois gumes”: se por um lado ele é um excelente “conselheiro”, por outro, cria perigosas fissuras. Porquanto somos criaturas movidas pela paixão, isso sim! E esta, por certo, precisa ser regada todos os dias com o mesmo carinho que uma planta exige. “Feche os olhos e se lembre dela. Sabe o que temos em comum? Nós dois somos sobreviventes!”, afirmava Natalie a Leonard.

 

Amnésia

Cinema: filme “Amnésia”, de Christopher Nolan.

UMA  VELHA  CANÇÃO – Parte 2 / 2 .

 Cena 7 – Abri os olhos e fiquei olhando para o teto. Longamente. Como que esperasse algumas respostas. E como elas não vieram, lembrei-me do comovido desabafo do romance “Luísa”, de Maria Adelaide Amaral, em que Luísa declara a Sérgio: “… eu devia me expor a você, sem reticências, sem jogos… mas, ao mesmo tempo, eu tinha medo de me dissolver, de me perder, de não ser mais eu, mas apenas um ser apaixonado… E tinha, principalmente, vergonha da minha ansiedade, da minha carência… se eu as exibisse, talvez você se assustasse e fugisse. Então, eu ocultava os meus excessos, me mostrava distante, forte, blasé… e o que acabava mostrando a você era apenas um arremedo de envolvimento, mesmo sabendo que isso nos fazia muito mal… Era como se você fosse Deus e tivesse o poder de decidir a minha felicidade ou a minha desgraça… Durante meses, ocultei a minha loucura, me contive, sufoquei, fui civilizada. Civilizada na minha fúria, civilizada na minha dor, civilizada em momentos que nunca deveria ter sido…”

Cena 8 – Eu tinha um colega, professor, que desenvolvia testes e provas para os alunos baseados em rígidos princípios: ou o estudante acertava a questão de ponta a ponta ou recebia grau “zero” na pergunta. Até que um dia eu lhe perguntei: “Ô, Paulo, o que você pretende: aproveitar o que o aluno sabe ou o puni-lo pelo que não sabe? Isto porque, companheiro, não há diferença alguma entre um menino que entregou a prova em branco e o que respondeu a todos os quesitos cometendo pequeníssimas falhas. Pelo seu critério, ambos receberão a mesma avaliação!” Até hoje, eu não obtive qualquer resposta dele…
“Ninguém é perfeito!”, dizia Leonard.

Última cena – Ao entrar no pequeno Café-Bar, deparei-me com o grupo de jazz, formado por amigos. Festejaram a minha chegada. Timidamente, percebi que outras pessoas me olharam com interesse e curiosidade. É que, no fundo, transcorrido tanto tempo sem sair de casa, enfim, eu me sentia “bonito”. Por dentro e por fora. Sentia-me até atraente. Meu Deus, que coisa boa é isso!

“Todos precisam de espelhos para se lembrarem de quem são. Não sou diferente!”, finalmente, admitiu Leonard.

Créditos finais – No momento, reconheço, eu não consigo me interessar por outra mulher, porquanto o meu coração ainda está voltado para ela. Mas… foi muito bom ter recebido os sinais de “saúde”. De toda forma, preferi voltar para casa mais cedo.
Abri o livro na página marcada e lá estava: “Eu vou ficar muito triste, mas vou matar você dentro de mim… e vou me vestir de luto e sofrer uma grande, uma enorme melancolia por essa perda… mas um dia, ao acordar, eu vou perceber que você não ocupa mais os espaços da minha memória afetiva de maneira tão insistente e que a sua presença finalmente se dissipou… E vou ser livre outra vez…”

Inconformado, joguei o livro em cima da mesa e acendi um cigarro. Junto com a fumaça, é verdade, eu também procurava exalar um pouco da angústia que me oprimia. Naquele momento, mais do que nunca, eu desejei estar acompanhado. Talvez por isso, tenha ligado o rádio na esperança do acalento. No entanto, para o meu infortúnio, a música que tocava era uma velha e conhecida canção: “Volta! / Vem viver outra vez ao meu lado. / Não consigo dormir sossegado, / Pois meu corpo está acostumado…”

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Disco: CD “Ballads”, de John Coltrane.

Ah, que saudades eu sinto do “nego velho”, Holdemar Menezes… Foi bem mais do que meu tio: foi meu “orientador” e segundo pai. É verdade que eram irmãos, mas possuíam, cada um ao seu jeito, inteligências e sensibilidades próprias.
Holdemar foi para o “andar de cima”. No entanto, imagino que ele preferisse o “andar de baixo”, visto que é mais “avacalhado” e se sentiria mais à vontade! É que o “nego velho” sempre foi meio marginal, ao menos nas suas fantasias. Na vida real, ao contrário, era um “respeitável” e bem sucedido médico, além de extraordinário escritor. Sua literatura, sim, sempre esteve a serviço do seu lado “bandido”. Verdade é que conheci poucos contistas com tamanho talento, domínio e versatilidade.
Foi na casa de Holdemar, no final dos anos sessenta, que fui “apresentado” a John Coltrane. No seu pequeno escritório havia um acervo de jazz de fazer inveja. Meu Deus, quantas “descobertas” experimentei a partir de nossas conversas? Por sua indicação, tive contato com os grandes clássicos da literatura e do jazz. Naquela época pouco ouvira falar em Camus, Kafka, Sartre ou Dostoievski, tanto quanto de Miles Davis, Chet Baker, Billie e outros tantos. Porquanto meu pai, meu grande “guru”, era amante da música erudita e sua literatura predileta sempre fora filosofia e política. Papai me apresentara Wagner, Mozart, Bach e também Marx, Marcuse, Nietzsche e Hegel. Nossa… Foram magníficas descobertas para um jovem como eu!
Certo dia Holdemar me disse: “Carlos, você conhece as baladas do Coltrane?” Claro que não “conhecia”. Então, escutei. Uma, duas, diversas vezes. Incrível. Fantásticas interpretações! Somente após ouvir aquelas baladas é que fui “compreender” o que era elegância e bom gosto no jazz. No meu imaginário, Coltrane tocava “Say it (over and over again)” vestido a rigor, tal era o “finesse” com que ele soprava aquele sax. Desde então, nunca mais pude me separar de Coltrane e nem das lembranças que carrego do “nego velho”…
Onde quer que esteja, meu tio, receba o meu beijo e o meu reconhecimento, já que ainda tenho a oportunidade de poder beijar e agradecer ao meu velho pai, seu irmão!

Disco: CD “Gershwin’s World”, com Herbie Hancock.

Lembro apenas que era verão e o ano, 1976. Eu estava deitado numa rede cearense naquele pequeno quarto, lendo “Jazz Panorama”, do invejado Jorginho Guinle. É um livro antigo, escrito em 1959 e, ainda assim, muito interessante. Foi quando a Bárbara me chamou e mostrou uma notícia do jornal. Olhei para ela e dei um leve e desconfiado sorriso. Afinal, o jornal era suíço e escrito em alemão. Para mim, era como se grego fosse. Porém, ela insistiu: “olha, Carlos, vão representar “Porgy & Bess” aqui no teatro da Universidade da Basiléia”. Céus! Fiquei excitado com a ideia, pois sempre gostara da obra dos irmãos Gershwin. Talvez seja a mais famosa tragédia, ópera jazzística ou o que queiram considerar. Verdade é que é belíssima, isso sim!
Então, passaram-se mais de 40 anos. Hoje, meus amigos, eu estou às véspera do inverno de 2018, em Florianópolis. O certo mesmo é que Bárbara pode ter-se ido e até deixado saudades. Com ela, a Suíça também ficou na memória distante, que aos poucos vem se dissipando. No entanto, para minha sorte, “Porgy and Bess” até hoje permanecem ao meu lado…
Neste disco, em homenagem aos irmãos Gershwin (Ira e George), o nosso fabuloso pianista Herbie Hancock convidou diversos “ícones” da música. Joni Mitchell aparece “encantada” e nos brinda com comoventes interpretações em “The man I Love” e em “Summertime”. Coisa linda!
Tem mais coisa ainda, minha gente. Tem um vocal maravilhoso da Kathleen Battle. Tem Steve Wonder, Wayne Shorter, Chick Corea, Ira Coleman, Cyro Baptista e… ufa, quem mais? Ah, sim… claro, o cicerone, Herbie Hancock!
 
 
Herbie

Disco: CD “I remember Miles”, de Shirley Horn.

Ah, como eu gostaria de ser poeta! Só para poder criar uma canção como “My funny Valentine” e ouvi-la, quase recitada, pela abençoada garganta de Shirley Horn. Céus, seria a maior glória. Acudam-me, anjos da guarda! Volte cá, minha mãe querida! Ajude-me, meu “Padim” Padre Ciço! Seu filho está clamando! E ele não pede fortuna, saúde eterna, cargos “fantasmas” ou benesses do governo… Ele só quer poesia. Nada mais do que isso… Portanto, prometam-me que serei poeta, ao menos, por um dia. E se, de toda a forma, não puderem me atender, então, deem-me a felicidade de ter bons ouvidos. Apenas para me deliciar com a voz de Shirley cantando “Summertime”. Cantando também “Baby, won´t you please come home” com aquela intimidade peculiar, capaz de soltar um discreto sorriso após os aplausos calorosos.
E mais ainda: por favor, sejam generosos com esse seu filho. Afinal, o que ele pede não é muito. De mais a mais, meu Deus do Céu, o que custa?! Mas… pera aí… ouçam, ouçam: está tocando “This Hotel”. Que maravilha! Parem tudo! Esqueçam tudo! Deixem-me sonhar!
Olha, meus amigos, desculpem-me pelo exagero, pelo transe… É que esse disco, “I remember Miles”, acabou me pegando de jeito. Podem acreditar! Eu estava aqui no meu canto, bem quietinho… na minha… sem incomodar ninguém. Aí, vejam vocês: apareceram a voz da Shirley, o trompete de Roy Hargrove, a gaita de Toots, o baixo de Ron Carter e… a imensa saudade de minha mãe…
Céus, tudo desmoronou!
 
Shirley

Artes Plásticas: o legado de Jarina Menezes.

Ah, sim… Como eu havia escrito que o desenho era a maior paixão de minha mãe, trago aqui a imagem do seu premiado trabalho com a Medalha de Ouro, concedida pela Associação Brasileira de Desenho, no ano de 1975, no Rio de Janeiro.

Após esse ciclo de homenagens a minha mãe, aproveito para agradecer a todas as pessoas que manifestaram profundo carinho e respeito a memória dela. Muito obrigado, meus amigos!

PS. A imagem à direita é a que ilustra o meu livro “Jazz, Cinema & Utopia”, editado pela Editora DIOESC, em dezembro de 2010 e a imagem da esquerda é a do quadro que mereceu a Medalha de Ouro.

Artes Plásticas: a carreira artística de Jarina Menezes.

A vida artística de minha mãe iniciou-se no Rio de Janeiro. Ela foi autodidata e teve os primeiros ensinamentos nas técnicas da pintura no Centro de Arte Contemporânea. Lá, participou de diversos eventos.

Do Rio de Janeiro, Jarina veio morar em Florianópolis, onde residiu por mais de vinte anos na bela Lagoa da Conceição. E aqui ela ampliou os conhecimentos nas técnicas da arte que escolhera.

Pode-se dizer que Jarina foi essencialmente uma desenhista, embora trabalhasse com outras técnicas: óleo, acrílico e xilogravura. No entanto, todos reconhecemos, ela era especialmente amante do papel e com ele elaborou os melhores desenhos. Utilizava tinta Ecoline para fazer as manchas de forma aleatória nas diversas cores e, no segundo momento, construir as formas e seus contornos com o auxílio do nanquim e bico de pena.

Mamãe sempre foi uma forte admiradora de Picasso, Miró e do grande desenhista Hans Bellmer.

De modo geral, Jarina se sentia gratificada pelo reconhecimento que alcançou como artista. Expôs seus trabalhos na Espanha, Portugal e na Bélgica. E orgulhava-se de ter sido selecionada, dentre os 287 artistas do mundo, para participar do Museo Español de Arte Comteporaneo, em Madrid, no ano de 1981. Em Portugal participou da “Lis Internacional Show”, na Sale de Exposition de la Mairie Vila Real.

No Brasil, Jarina foi premiada com a Medalha de Ouro da Associação Brasileira de Desenho no ano de 1975, no Rio de Janeiro. A primeira Medalha de Bronze foi conquistada no Clube Militar do Rio de Janeiro em 1976 e a outra Medalha de Bronze recebeu da Associação Brasileira de Desenho do Ministério da Educação e Cultura em 1977. Recebeu, também, Menção Honrosa nas exposições do Clube Militar em 1975, na Sociedade Brasileira de Belas Artes em 1975, no XI Salão Feminino da Sociedade Brasileira de Belas Artes em 1975, entre outras.

Realizou diversas exposições individuais e participou de inúmeras coletivas em algumas cidades do Brasil.

Em Florianópolis, participou da Retrospectiva do Museu de Arte de Santa Catarina em 1990, com a curadoria de Harry Laus e dos 1º e 2º Indicador Catarinense das Artes Plásticas. Pertenceu ao Conselho Deliberativo da Fundação “O Mundo Ovo de Eli Heil” e foi Conselheira da Fundação Hassis.

No ano 2001, Jarina preparou os associados para receberem a nova diretoria da ACAP. Seu desejo era passar aos colegas jovens a experiência vivida na Instituição, bem como, a que acumulou durante o longo caminho da vida artística, iniciada em 1969.

Segundo Jarina, “…a arte deve ser levada a sério. Quando um artista se sente incompreendido, não deve repudiar aqueles que estão no seu entorno. Muito pelo contrário, deve procurar no seu interior as reais razões desse sentimento…”

(esteja onde estiver, minha mãe, receba o meu carinhoso beijo e o reconhecimento do seu enorme valor!)

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Artes Plásticas: a grande viagem de Jarina Menezes!

Olha, seu moço, eu gostaria de contar um ‘causo’. Creia-me, é um causo bem interessante. Singelo e raro, como convém. Contudo, devo alertar a todos: não se trata de grandes caçadas ou incríveis pescarias. Tão pouco contempla fato estranho ou toda sorte de proezas extraídas da fértil imaginação dos homens. Não, seu moço! A estória que vou relatar é simples feito um vestido de chita, mas, tenha a certeza, ela é cheia de riquezas outras. É a estória que narra a vida de uma corajosa nordestina, de nome Francisca Jarina. Foi uma tremenda ‘cabra da peste’, capaz de nos encher de orgulho. Sim, seu moço, hoje eu quero lembrar de Jarina Menezes: a mãe de seis filhos que saiu do distante Ceará rumo ao Sul e se tornou uma baita artista plástica.

Pois, então, eu conto. Ela nasceu num pequeno vilarejo, no velho Massapé, na primavera de 1927; quando criança, sob o céu do sertão, Jarina se punha a observar as nuvens, formando estranhas figuras que seu imaginário iria moldar. Foi ali, seu moço, que nasceu o universo ‘surrealista’ que acompanhou para sempre o destino e a arte dessa linda mulher.

Antes disso, porém, apesar da pouca idade, Jarina precisou se fazer ao mar. Empurrada pela perda da mãe, Carlinda, quando contava somente dezessete anos, Jarina viu-se obrigada a cuidar de outros dois “Franciscos”, seus irmãos caçulas: um de 9 e o outro com apenas 5 anos de idade. Ao juntar esforços com a irmã, ela alimentou, zelou pela saúde e semeou educação nos dois pequenos irmãos.

É bem verdade que naquele distante e conservador Ceará, não restava a Jarina muitas alternativas. Daí o casamento precoce, ainda no mesmo ano da morte da mãe. No entanto, o destino feriu mais forte quando um dos filhos de Jarina foi acometido por doença grave e ela teve que abandonar às pressas o seu velho Ceará. Carregando cinco dos seis rebentos debaixo das asas, ela veio ao Rio de Janeiro com a missão de “salvar” o menino “Zeo”, sem lograr o merecido êxito… Foi um duro e sofrido golpe!

A viagem para o Rio de Janeiro, naquela época, levava mais de dez horas pela Real Transportes Aéreos e parava em todos os aeroportos no caminho.

Já no Rio de Janeiro, após um prolongado luto pela perda do pequeno filho, teve início a terapia psicanalítica com vistas à recuperação emocional de Jarina. E foram precisos mais de dez anos de terapia para que surgisse a vida artística na trajetória dela. No Centro de Arte Contemporânea, ela teve os primeiros ensinamentos nas técnicas da pintura. A partir daí, seu moço, uma saudável ‘loucura’ tomou conta dessa brava mulher e nunca mais a deixou… Ainda bem.

Em 1982, Jarina veio morar em Florianópolis, onde residiu por mais de vinte anos na bela Lagoa da Conceição. Ali ela ampliou os conhecimentos nas técnicas da arte e se entregou de vez a esse maravilhoso universo. Faleceu em 2005, aos 78 anos de idade, deixando um belíssimo legado de vida e de arte.

 

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