Memórias: o “Tempero de Dona Maria”.

O  TEMPERO  DE  DONA  MARIA

 Vocês conhecem aqueles “aromas especiais”, que de algum modo nos remetem às lembranças de criança? Pois é. Hoje eu acordei um pouco mais cedo e fui preparar o meu café da manhã, procurando não fazer barulhos, já que minha mulher e o meu filho ainda dormiam. Sentei-me no sofá da sala, acompanhado pela caneca de café e um punhado de bolachas Maria. Curiosamente, parei para observar o desenho em relevo da deliciosa bolacha. Foi quando me deu vontade de saber a origem dela com a ajuda do Professor Google: “A bolacha Maria foi criada em 1874 por um padeiro inglês para comemorar o casamento da grã-duquesa Maria Alexandrovna da Rússia com o Duque de Edinburgo. Foi muito popular na Guerra Civil Espanhola, durante a qual foi considerada símbolo da prosperidade da economia ao ser produzida com os excedentes de trigo…”

Fechei os olhos por um instante, sentindo o aroma delicioso do café. Aí, juro a vocês, foi a vez de eu receber uma inesperada visita: as lembranças de Dona Maria de Piabetá, a cozinheira da minha infância distante. Meu Deus do Céu! Que saudade me bateu no peito ao lembrar daquele sorriso largo, estampado em um rosto mais largo ainda. Dona Maria, meus amigos, mais parecia uma baiana, daquelas que vendem acarajé em frente à igreja do Nosso Senhor do Bonfim. Com um invejável senso de humor, Dona Maria chegava a nossa casa bem antes das sete da manhã, embora morasse em outro município: Piabetá, próximo a Magé, no Rio de Janeiro!

Bem… já se passaram mais cinquenta anos desde que aprendi a saborear as melhores “especiarias” de Dona Maria de Piabetá. Seu rosto, confesso, eu já tenho dificuldades para resgatar da memória. Mas os aromas que ela esparramou ao meu redor, estes, ah!, jamais esqueci…

Abençoada seja, Dona Maria.

O tempero de Dona Maria

Jazz: CD “Ella abraça Jobim”, com Ella Fitzgerald.

Se há uma verdade aceita por quase todos, sem dúvida, é aquela que considera o inesquecível Tom Jobim como o músico brasileiro mais reverenciado no mundo. Por sinal, com muita justiça. Afinal, a obra que ele nos deixou é belíssima e imortal! Até mesmo os consagrados músicos do mundo inteiro já tiraram, literalmente, o chapéu para ele. Eu já perdi a conta das homenagens feitas ao nosso Tom Jobim em shows, entrevistas e gravações… Ella Fitzgerald não poderia ficar para trás. Para tanto, a grande dama reuniu uma turma de primeira linha e botou o bloco na rua. Neste imperdível disco, “Ella abraça Jobim”, a cantora apresenta-se acompanhada por feras, como Clark Terry, Zoots Sims, Oscar Castro Neves, Joe Pass, Toots Thielemans e Paulinho da Costa. O resultado não podia ser outro: saíram maravilhosas canções desse encontro. Revelando todo o suingue da grande dama no melhor momento da carreira. Impecável. “Wave” deve ter sido o ponto de partida do projeto, uma vez que Zoots Sims, Joe Pass e Paulinho da Costa soltam os cachorros! Há, também, Toots abençoando o nosso “Corcovado”. Só vendo. Ou melhor, só ouvindo! Ah, sim… ia me esquecendo: Bonita ficou “deslumbrante” na voz de Ella!

https://www.youtube.com/watch?v=a9I9yxXnmpc

Ella_Jobim

Memórias: Aurélia Nattir, a “alma gêmea” de minha mãe, Jarina Menezes.

Não faz muito tempo que eu, minha esposa e meu filho fomos almoçar em Coqueiros, um bairro lindíssimo da Florianópolis continental. Ao sairmos do restaurante, eu tive a ideia de ligar para Dona Aurélia Nattir, uma baita artista plástica, que foi a melhor amiga de minha falecida mãe. Além da forte emoção que tivemos ao nos abraçarmos demorada e carinhosamente, ficamos lembrando a figura sorridente e doce de Dona Jarina Menezes. É que Dona Aurélia possuía na sala de visitas algumas peças que foram presenteadas por minha mãe. E ela narrava tudo aquilo com profundo orgulho e gratidão.

Da ampla varanda de sua casa, nós admirávamos a belíssima paisagem da enseada de Coqueiros, que é um verdadeiro cartão postal. Mostrei ao Gabriel, meu filho, os maravilhosos quadros de Dona Aurélia, expostos na sua grande sala. E comentei com ela sobre o quadro que me presenteara, há alguns anos, que ocupa o lugar de destaque na minha sala de estar.

Ao final, mais uma vez nos abraçamos com carinho e nos despedimos. Quando voltávamos para casa, sem que ninguém comentasse, tivemos aquela sensação de que havia ali no carro alguém mais feliz do que eu, Zelândia e Gabriel. Sim, meus amigos…  Por certo, era minha mãe!

Quadro: Aurélia Nattir

Aurélia Nattir

Jazz: CD “You gotta pay the band”, com Abbey Lincoln.

A voz é um tanto rouca, quase displicente. E sem muito alarde, lentamente ela penetra em nossa alma, envolvendo-nos com uma intimidade permitida apenas àquelas pessoas especiais. Assim pode ser descrita a fabulosa Abbey Lincoln.

Aqui, neste disco, ela aparece acompanhada por Stan Getz, outro grande mestre do jazz. Está, também, ao lado do velho e bom Hank Jones no piano, do talentoso Charlie Haden no contrabaixo, Mark Johnson na bateria e de Maxine Roach na viola. Ou seja, só nego bamba!

“Bird Alone” é abertura para ninguém botar defeito. A letra e a melodia são da própria Abbey. Por sinal, eu considero impecável a cumplicidade alcançada com Stan Getz nessa faixa. Meus Deus, que sinergia!

Já em “When I´m called home”, ocorre algo bem interessante. Vejam vocês: até o momento do solo de Getz, nós sentimos uma Abbey tímida, quase contida. Mas, logo a seguir, explode toda a sua emoção. Coisa linda!

“Summer wishes, winter dreams” tem a atmosfera daquelas tristes das canções de Billie, de quem Abbey é fã incondicional. Inclusive, ela já gravou dois discos só com as canções de Billie. Vale a pena conferir.

Para fechar de forma triunfal, Abbey escolheu “A time for love”, onde consegue derramar toda a dramaticidade da canção. Emoção pura… Só ouvindo!

https://www.youtube.com/watch?v=f4oM5oh6-kk

Abbey Lincoln

Literatura: a “Macondo” que habita em nós!

Estamos comemorando os 50 anos da publicação do extraordinário romance de Gabriel Garcia Márquez, “Cem anos de solidão”. Para além de ser um marco na literatura mundial, temos a nosso favor o fato de ser uma obra perene e de ser latina. Dessas poucas obras que atravessam as gerações com a mesma capacidade de arrebatamento!
Por certo, minha gente, muita coisa já foi escrita sobre Gabriel Garcia e pouco se pode acrescentar. No entanto, houve uma matéria publicada na “Folha de São Paulo”, em abril de 2014, que eu gostaria de compartilhar com os amantes da boa escrita. Afinal, trata-se de um belo texto e que revela preciosas informações sobre o nosso estimado “Gabo”. Confiram!

Cidade natal inspirou a Macondo mágica de CEM ANOS DE SOLIDÃO.

( SYLVIA COLOMBO, DA FOLHA DE SÃO PAULO – 18/04/2014 )

Nas ruas de chão batido da ensolarada Aracataca, as crianças jogam bola, as mulheres caminham com olhar cansado e os homens vão, resignadamente, ao trabalho.
Na praça principal, o padre conversa com fiéis na frente da igreja, e o comércio está agitado nos mercados, enquanto o prefeito da vez faz campanha para reeleger-se.
Sim, a colombiana Aracataca é como tantas pequenas cidades espalhadas pela América Latina. E o visitante que passa por ali desavisadamente não percebe no local nada de mágico ou sobrenatural.

Mas um menino colombiano que ali cresceu nos anos 1930 a viu de modo diferente. Nas crianças que brincavam, enxergou a si mesmo e a garotos que tocavam com fascínio o gelo e sonhavam com um mundo distante; nas mulheres cansadas, figuras encantadas que podiam sair voando a qualquer momento ou devorar a cal das paredes rasgadas com as próprias unhas.

Nos homens, gerações de personalidades que se repetem ao longo do tempo até se transformarem em pó.

O menino era Gabriel García Márquez, nas mãos de quem Aracataca virou nada menos que Macondo, a cidade imaginária que virou capital do realismo mágico, gênero latino-americano que se popularizou nos anos 1970, dando projeção ao mundo a nomes como o argentino Julio Cortázar (1914-1984), o peruano Manuel Scorza (1928-1983) e uma legião de sucessores.

Foi ali, em Macondo, que se desenvolveu a linha genealógica dos Buendía, protagonistas do romance “Cem Anos de Solidão” (1967).

Em agosto de 2007, 20 anos depois de sua última visita a Aracataca, García Márquez voltou à sua cidade natal, numa festa que comemorava seus 80 anos e os 40 de “Cem Anos de Solidão”. Apesar de a estação local estar fora de uso, foi reabilitada para receber um trem temático que trouxe o Nobel para cumprimentar seus conterrâneos.
Visitei Aracataca na ocasião, quando o prefeito realizou um plebiscito para saber se os moradores aceitariam mudar o nome do local para Macondo, uma vez que a cidade recebia muitos visitantes estrangeiros todos os anos, que buscavam conhecê-la por ser onde se originara o famoso livro. A mudança de nome foi rejeitada.
A casa onde Gabo cresceu com a avó e as tias é simples, mas ampla, cheia de quartos, e com um jardim interno modesto. Vizinhos reclamavam que a família de Gabo gastava dinheiro para mantê-la, mas nunca tinha ajudado a construir pontes ou escolas em Aracataca.
Há poucas referências a ele e à sua obra ali. Um pequeno museu reúne artigos de jornal e objetos que pertenceram à sua família. A maior relíquia é um telégrafo, que era usado pelo pai de Gabo quando tinha essa função. Na praça principal há um bar que se chama “Liberal” e faz referências aos Buendía e à cisão da Colômbia entre conservadores e liberais, pano de fundo de “Cem Anos de Solidão”.

Gabo foi um típico garoto da costa colombiana. Filho de um romance proibido entre o telegrafista Gabriel Eligio e Luísa Iguarán, moça de distinta família, foi deixado em Aracataca, com os avós, quando tinha apenas dois anos. Com dificuldades financeiras, os pais haviam se mudado para Barranquilla para abrir uma farmácia.
Em sua autobiografia “Viver Para Contar” (2002), Gabo relata que os fundamentos para as histórias fantásticas com as quais povoaria sua obra vieram da convivência com essas fortes e supersticiosas mulheres interioranas.

SEMPRE JORNALISTA

Nos anos 40, Gabo foi enviado para terminar o secundário num rigoroso liceu da conservadora Bogotá. Ali, viu aflorar em si os primeiros sinais de revolta contra o “establishment”, que o fariam um obstinado esquerdista.

Foi no fim dos anos 40 que Gabo passou a exercer o jornalismo, primeiro em jornais de Barranquilla e Cartagena, depois para o “El Espectador”, de Bogotá. Definiu-se até o fim da vida como jornalista, profissão que considerava a “melhor do mundo”.
Além de uma extensa obra jornalística, que vai de críticas de cinema a relatos de crimes, Gabo escreveu dois livros essenciais do gênero –”Relato de um Náufrago” (1955), crônicas baseadas em entrevistas com Luis Alejandro Velasco, jovem marinheiro que sobreviveu a um naufrágio, e “Notícia de um Sequestro” (1996), sobre o cartel de Medellín e o líder do narcotráfico Pablo Escobar.

Cem anos de solidão

Jazz: CD “When I look in your eyes”, com Diana Krall.

Lembro bem que eu já havia dito ao Edson Busch: parceiro, você precisa conhecer a canadense Diana Krall. O que ela está produzindo de excelente jazz não está no mapa! Além de boa pianista, tem uma belíssima voz. Até parece uma americana de New Orleans, tal a intimidade com que passeia pelos “blues” e baladas. E é interessante perceber a trajetória dessa turma. Diana começou estudando piano clássico na “Berklee College of Music” e teve a influência, segundo ela mesma, de Fats Waller, Peggy Lee, Julie London e Nat King Cole. Precisa mais?!

Sim, eu dizendo, então, ao Edson: olha, amigo, esse CD que ela gravou é algo antológico. A quarta faixa do disco, que dá título ao álbum, “When I look in your eyes” é definitiva, alcançando extraordinária “dramaticidade”. Confesso: há muito tempo não me emocionava tanto com uma canção! Dessas de que somos capazes de repetir algumas vezes, sem nenhuma cerimônia!

“I’ve got you under my skin” é outra conhecida melodia que adquire especial interpretação na voz de Diana Krall. Ao ouvir a melodia pela primeira vez, lembrei-me de quando era rapazinho. Ah, vocês nem imaginam: época de dureza, no velho fusca 63. Eu e ela, ali, abraçadinhos no banco detrás do carro. Falando muito pouco. Apenas um som ofegante e alguns murmúrios… “Não é que dás um banho!”, diria o amigo Batista, manezinho aqui da ilha…

https://www.youtube.com/watch?v=K-CDqURnOdI

 

Diana Krall

Disco: CD “The Köln Concert”, com Keith Jarrett.

Dizem que com o tempo a gente se acostuma com tudo. Que a natureza humana é eclética o suficiente para lidar com as adversidades, visto que até “sogra intrometida” a gente é capaz de aguentar… Sim! Pode até ser verdade. Mas, cá entre nós: “curtir” o piano de Keith Jarrett não é para qualquer um. Lá, isso não! Porquanto a sua música parecerá “intragável” nas primeiras audições. Para a maioria das pessoas, reconheço, o estilo de Keith soa “complicado demais” e, por vezes, muito “cerebral”. Assemelhando-se bastante aos herméticos músicos de “Berklee” ou “Juilliard”. E digo isso sem nenhum preconceito. É que lá, meus amigos, há uma turma profundamente técnica e afinada, executando um jazz muito certinho… porém, pouco criativo. No entanto, não é o caso de Keith Jarrett. Muito ao contrário, pois criatividade é o que não falta a ele. Criatividade e talento!
Neste disco, gravado ao vivo no teatro Opera – em Köln, Alemanha -, Keith nos brinda com um show solo de 66 minutos, com um fôlego de fazer inveja. A primeira faixa é um verdadeiro espetáculo. O piano aparece bem marcado, com as melodias “sincopadas” do início ao fim. Para algumas pessoas isso causa fadiga. Para mim, confesso, o talento de Keith encontra-se exatamente aí! Viajando nas suas emoções, o piano tanto mergulha em espaçosos e perfeitos “silêncios” quanto é capaz de gemer de forma frenética…
Bem… eu não sei dizer se o disco vai ou não lhe agradar, amigo leitor. Ainda que eu considere o disco maravilhoso, reconheço que Keith Jarrett gera polêmica… Por isso, talvez seja um CD indicado apenas para os aficionados. Então, basta conferir!

 

Keith_Jarrett

Jazz: a música “libertadora”!

Boa parte das raízes do jazz surgiu na religião. Talvez por ser uma música reveladora da alma. Talvez por ter nascido na aspereza da dor. O certo é que o jazz sempre andou de braços dados com a espiritualidade e, por isso, cativa e acalenta nossas esperanças. E esperança, meus amigos, é algo “mágico”. Algo que somente as criaturas dotadas de imaginação e sensibilidade são capazes de perpetuar. Sorte a nossa, então, termos recebido esse fabuloso legado. Assim, podemos dar sentido àquilo que acreditamos e, em última análise, às nossas vidas!

Muitas pessoas consideram o “blues” uma espécie de música triste, marcada pela sofreguidão. É bem possível que seja. Afinal, os autores dos memoráveis blues tiveram momentos difíceis em suas vidas. O cego Lemon Jefferson, por exemplo, foi um típico representante dos primitivos cantores de blues, que “erravam” pelo Sul dos EUA na primeira metade do século passado. Filho de lavrador, nascido no Texas, em 1897, Lemon aprendeu desde cedo que a música era a única esperança capaz de fazê-lo escapar da amarga pobreza e conformar-se com a cegueira. Por isso, aprendeu sozinho a tocar guitarra e cantar nas ruas de Dallas para ganhar alguns poucos “cents”. Uma dura realidade. Muitos outros exemplos, como esse, poderiam ser lembrados. Provariam apenas que o jazz, assim como a religião, só adquire “significado” se consegue libertar almas. Portanto, bendito seja o jazz. Bendita seja a esperança. Benditas sejam todas as libertações!

JAZZ: as “canções de trabalho”, onde tudo começou!

Recentemente assistimos nos cinemas ao filme intitulado AMISTAD. O tema tratado era o racismo. Como pano de fundo, o filme alardeava a “democracia” americana. Víamos um navio veleiro chegando aos Estados Unidos na segunda metade do século XIX. Traziam negros africanos que seriam vendidos como escravos. Todavia, o exemplo citado acima não era novo. Muito antes disso, em 1619, aportou em Jamestown, Virgínia, o primeiro navio carregado de escravos negros. Era a mão de obra barata na qual se desenvolveria toda a economia dos estados do sul. Embora o governo norte-americano tivesse proibido, em 1808, o tráfico de escravos, o que se viu foi o contrário disso. Os escravos eram tratados de forma desumana: acorrentados e levados aos campos de lavoura para uma dura jornada de trabalhos forçados. Ironicamente, a mais bela e vigorosa música do cancioneiro norte-americano surge nesse exato momento. Foram as “canções de trabalho”. Nascidas na aspereza da vida. Nascidas na perda da liberdade. O tema central sempre foi o “lamento”. Foi a forma encontrada pelos negros de sublimarem a dor. Cantavam os seus “prantos”, cantavam a sua desesperança… simplesmente, cantavam. Assim é o jazz!

Memórias: a vida de “Canelau”!

Quando uma criança(*) chega ao mundo, convenhamos, ela vem impregnada de pureza angelical. Logo a seguir, passa a receber a forte carga emocional dos pais que, por vezes, aparece de modo instável e complicado. Então, começa aí a “via-crúcis” do novo indivíduo, que pode enveredar por caminhos imprevisíveis. Aliás, se olharmos bem, veremos que tudo isso é profundamente injusto. Afinal de contas, o inocente “rebento” nem bem adquiriu imunidades e já é bombardeado por um monte de insanidades. Paciência, fazer o quê?!

O problema é que daí pra frente a “batalha” não mais findará. Porquanto esses filhos estão sujeitos a toda sorte de frustrações e violências. De tal monta, meus amigos, que se não criarem rapidamente mecanismos “sadios” de autodefesa, a coisa vai longe. E como!

Por ironia, é nesse exato momento que se dá início a formação do caráter de uma pessoa. E digo isso de forma consternada, pois acredito que seria bem melhor se tivessem mais tempo para depurar a “herança” recebida. Por conta disso, muito precocemente, eles são obrigados a fazer uma infinidade de escolhas. Escolhas do tipo: “quero isso” e não “aquilo” ou “gosto disso”, mas não “daquilo”…

De qualquer forma, indiferente aos nossos problemas, o mundo segue o caminho dele. Lentamente, ele vai nos apresentando às “encruzilhadas”, oferecendo “tentações” e nos empurrando aos becos sem saída. Céus, que vida complicada, não?! O que fazer, então?!
Sinceramente, não sei. Eu juro a vocês. Sei apenas que o destino de cada criatura a ela pertence. Lá, isso sim! E ao que tudo indica, não há “receita de bolo”. Tampouco o “dever de casa” pode ser antecipado. Pois é, meus amigos, pelo visto, o jeito é arregaçar as mangas e ir à luta. Da melhor maneira que puder. Ou souber. Quanto ao restante, bem… aí ficará por conta de outros fatores: talento, sensibilidade, determinação… e, até mesmo, sorte.
O que posso dizer é que comigo não foi diferente. Ainda que a tarefa seja interminável, eu também tive que desbravar os meus “caminhos” e muitas “voltas” fui obrigado a dar. Não posso garantir que eu tenha alcançado grande êxito, mas que estou feliz, lá, isso é verdade.
Por tudo isso, quando vejo meu filho com quinze anos e meu adotado neto com 1 ano e meio, confesso que sinto um aperto no estômago. Sim, é verdade. Sinto medo por eles, pelos percalços que ainda terão que enfrentar, em um mundo mais conturbado do que nunca!

Com isso, resta-me apenas torcer para que o “anjinho da guarda” de cada um deles seja gentil e prestativo, desses que não se cansam de permanecer de prontidão à espera de eventual “servicinho extra”… Meu Deus, oxalá, seja assim!

(*) Como um bom cearense, informo que a foto está aqui apenas para comprovar que um dia eu já fui criança  ou, como dizem naquelas bandas, fui “canelau”!

A vida a ser vivida