Jazz: CD “You gotta pay the band”, com Abbey Lincoln.

A voz é um tanto rouca, quase displicente. E sem muito alarde, lentamente ela penetra em nossa alma, envolvendo-nos com uma intimidade permitida apenas àquelas pessoas especiais. Assim pode ser descrita a fabulosa Abbey Lincoln.

Aqui, neste disco, ela aparece acompanhada por Stan Getz, outro grande mestre do jazz. Está, também, ao lado do velho e bom Hank Jones no piano, do talentoso Charlie Haden no contrabaixo, Mark Johnson na bateria e de Maxine Roach na viola. Ou seja, só nego bamba!

“Bird Alone” é abertura para ninguém botar defeito. A letra e a melodia são da própria Abbey. Por sinal, eu considero impecável a cumplicidade alcançada com Stan Getz nessa faixa. Meus Deus, que sinergia!

Já em “When I´m called home”, ocorre algo bem interessante. Vejam vocês: até o momento do solo de Getz, nós sentimos uma Abbey tímida, quase contida. Mas, logo a seguir, explode toda a sua emoção. Coisa linda!

“Summer wishes, winter dreams” tem a atmosfera daquelas tristes das canções de Billie, de quem Abbey é fã incondicional. Inclusive, ela já gravou dois discos só com as canções de Billie. Vale a pena conferir.

Para fechar de forma triunfal, Abbey escolheu “A time for love”, onde consegue derramar toda a dramaticidade da canção. Emoção pura… Só ouvindo!

https://www.youtube.com/watch?v=f4oM5oh6-kk

Abbey Lincoln

Literatura: a “Macondo” que habita em nós!

Estamos comemorando os 50 anos da publicação do extraordinário romance de Gabriel Garcia Márquez, “Cem anos de solidão”. Para além de ser um marco na literatura mundial, temos a nosso favor o fato de ser uma obra perene e de ser latina. Dessas poucas obras que atravessam as gerações com a mesma capacidade de arrebatamento!
Por certo, minha gente, muita coisa já foi escrita sobre Gabriel Garcia e pouco se pode acrescentar. No entanto, houve uma matéria publicada na “Folha de São Paulo”, em abril de 2014, que eu gostaria de compartilhar com os amantes da boa escrita. Afinal, trata-se de um belo texto e que revela preciosas informações sobre o nosso estimado “Gabo”. Confiram!

Cidade natal inspirou a Macondo mágica de CEM ANOS DE SOLIDÃO.

( SYLVIA COLOMBO, DA FOLHA DE SÃO PAULO – 18/04/2014 )

Nas ruas de chão batido da ensolarada Aracataca, as crianças jogam bola, as mulheres caminham com olhar cansado e os homens vão, resignadamente, ao trabalho.
Na praça principal, o padre conversa com fiéis na frente da igreja, e o comércio está agitado nos mercados, enquanto o prefeito da vez faz campanha para reeleger-se.
Sim, a colombiana Aracataca é como tantas pequenas cidades espalhadas pela América Latina. E o visitante que passa por ali desavisadamente não percebe no local nada de mágico ou sobrenatural.

Mas um menino colombiano que ali cresceu nos anos 1930 a viu de modo diferente. Nas crianças que brincavam, enxergou a si mesmo e a garotos que tocavam com fascínio o gelo e sonhavam com um mundo distante; nas mulheres cansadas, figuras encantadas que podiam sair voando a qualquer momento ou devorar a cal das paredes rasgadas com as próprias unhas.

Nos homens, gerações de personalidades que se repetem ao longo do tempo até se transformarem em pó.

O menino era Gabriel García Márquez, nas mãos de quem Aracataca virou nada menos que Macondo, a cidade imaginária que virou capital do realismo mágico, gênero latino-americano que se popularizou nos anos 1970, dando projeção ao mundo a nomes como o argentino Julio Cortázar (1914-1984), o peruano Manuel Scorza (1928-1983) e uma legião de sucessores.

Foi ali, em Macondo, que se desenvolveu a linha genealógica dos Buendía, protagonistas do romance “Cem Anos de Solidão” (1967).

Em agosto de 2007, 20 anos depois de sua última visita a Aracataca, García Márquez voltou à sua cidade natal, numa festa que comemorava seus 80 anos e os 40 de “Cem Anos de Solidão”. Apesar de a estação local estar fora de uso, foi reabilitada para receber um trem temático que trouxe o Nobel para cumprimentar seus conterrâneos.
Visitei Aracataca na ocasião, quando o prefeito realizou um plebiscito para saber se os moradores aceitariam mudar o nome do local para Macondo, uma vez que a cidade recebia muitos visitantes estrangeiros todos os anos, que buscavam conhecê-la por ser onde se originara o famoso livro. A mudança de nome foi rejeitada.
A casa onde Gabo cresceu com a avó e as tias é simples, mas ampla, cheia de quartos, e com um jardim interno modesto. Vizinhos reclamavam que a família de Gabo gastava dinheiro para mantê-la, mas nunca tinha ajudado a construir pontes ou escolas em Aracataca.
Há poucas referências a ele e à sua obra ali. Um pequeno museu reúne artigos de jornal e objetos que pertenceram à sua família. A maior relíquia é um telégrafo, que era usado pelo pai de Gabo quando tinha essa função. Na praça principal há um bar que se chama “Liberal” e faz referências aos Buendía e à cisão da Colômbia entre conservadores e liberais, pano de fundo de “Cem Anos de Solidão”.

Gabo foi um típico garoto da costa colombiana. Filho de um romance proibido entre o telegrafista Gabriel Eligio e Luísa Iguarán, moça de distinta família, foi deixado em Aracataca, com os avós, quando tinha apenas dois anos. Com dificuldades financeiras, os pais haviam se mudado para Barranquilla para abrir uma farmácia.
Em sua autobiografia “Viver Para Contar” (2002), Gabo relata que os fundamentos para as histórias fantásticas com as quais povoaria sua obra vieram da convivência com essas fortes e supersticiosas mulheres interioranas.

SEMPRE JORNALISTA

Nos anos 40, Gabo foi enviado para terminar o secundário num rigoroso liceu da conservadora Bogotá. Ali, viu aflorar em si os primeiros sinais de revolta contra o “establishment”, que o fariam um obstinado esquerdista.

Foi no fim dos anos 40 que Gabo passou a exercer o jornalismo, primeiro em jornais de Barranquilla e Cartagena, depois para o “El Espectador”, de Bogotá. Definiu-se até o fim da vida como jornalista, profissão que considerava a “melhor do mundo”.
Além de uma extensa obra jornalística, que vai de críticas de cinema a relatos de crimes, Gabo escreveu dois livros essenciais do gênero –”Relato de um Náufrago” (1955), crônicas baseadas em entrevistas com Luis Alejandro Velasco, jovem marinheiro que sobreviveu a um naufrágio, e “Notícia de um Sequestro” (1996), sobre o cartel de Medellín e o líder do narcotráfico Pablo Escobar.

Cem anos de solidão