Cinema: filme “Cinema Paradiso”, um lugar fora do mundo…

Ah, minha gente… Há quem afirme que por trás da “criação” não há nada mais importante do que a paixão. Sim, paixão! Esse doce e lindo sentimento que impulsiona a humanidade, que arrebata espíritos inquietos e que, talvez por isso, acaba nos fazendo acreditar em tudo… De fato, o que seria do homem sem a paixão? Para muitos, ela é uma manifestação doentia, seja por “desvio” ou por obsessão! E aí, como você se situa, amigo leitor?! E onde é o nosso lugar nisso tudo?! Pois é. Para os céticos, por certo, o que existe é “tão-somente” técnica e conhecimento. Ou, quando muito, o que conta é a “sorte” ou até mesmo a incompreensível “persistência”… Será?!

Sabemos que o ser humano é capaz de se sensibilizar diante da arte. Mas, arte, convenhamos, é algo subjetivo. Algo que suscita diferentes reações em cada criatura, e que depende do momento vivido. É bem possível que, frente à arte, tenhamos comportamentos diferentes: o que para uns se traduz em “desafio”, para outros é motivo de certa resistência. O que eu sei dizer, minha gente, é que a arte é capaz de nos transportar. É capaz de subverter a ordem e até mesmo efetuar significativas “expiações”. Tudo depende da gente, ou seja, do quanto somos capazes de permitir que ela nos conduza por “mares nunca dantes navegados…”

Quando eu assisti, pela primeira vez, ao extraordinário “Cinema Paradiso”, confesso a vocês: fiquei profundamente comovido. Tão emocionado que me senti “paralisado” diante de tamanha beleza. Meu Deus do Céu, como pode um simples mortal produzir tanta poesia em apenas 123 minutos de filme? Como pode alguém ser capaz de fazer o espectador “viajar” na linguagem mais sensível da espécie humana: o olhar para dentro? Talvez alguns novamente respondam: técnica e conhecimento! E eu refuto: não bastam! Com toda certeza, reconheçamos, é preciso bem mais do que um bom enquadramento, diálogos impecavelmente produzidos, interpretações corretas e uma soberba trilha sonora para se fazer uma “obra-prima”. Pela simples razão de que é preciso tudo isso “junto”! E em dose perfeita!

De uma coisa eu tenho certeza: no “Cinema Paradiso”, ocorre exatamente assim. É que a nostálgica atmosfera, criada desde os primeiros minutos, sugere sempre um contato íntimo com o espectador. E pelas mãos de Giuseppe Tornatore, diretor do filme, os personagens vão ganhando vida. Vão assumindo o espectro da dor, mas com profunda poesia. Revelando as frustrações presentes em cada um de nós, sim, mas com suavidade e encantamento. O sentimento desencadeado pelo toque de Alfredo na vida de Totó, por exemplo, só pode ser comparado à linguagem materna, que é divina e universal.

Sabemos que o “conhecimento” é o bem mais almejado na vida. Pelo menos, deveria ser, uma vez que representa a busca mais incessante empreendida pelo homem! É algo extraordinário e, muitas vezes, constitui o seu verdadeiro objeto de desejo. A verdade é que, por ele, temos sido capazes de buscar soluções, de criar um sem número de técnicas e, até mesmo, de pagar um bom preço para lográ-lo. Tudo isso para que tenhamos atendido a nossa ânsia de “desenvolvimento”. No entanto, amigos, eu falo de paixão. Sim! Aquilo que nos dá a capacidade de sonhar, sonhar e sonhar. E, quem sabe, sonhando, possamos aplacar nossos recalcados desejos de imitar a vida por intermédio da arte?!

No filme, foram muitos os “beijos proibidos” a que Totó não pode assistir na tela do Cinema Paradiso. Como consequência, quando ele se tornou um homem maduro e bem-sucedido, passou a ser algo extremamente importante “recuperar” esses beijos. Não restando a Totó outra escolha senão retornar à sua cidade natal e enterrar os seus mortos. Tudo isso para poder, enfim, ressuscitar “outras vidas” dentro dele. Afinal, como representante de uma raça dotada de emoção, Totó seguidamente viu-se enredado por doídas lembranças. E ao se ver paralisado por essas insidiosas memórias, ele percebeu que era preciso desatar os tantos “nós” que a vida foi aprontando. Ao que tudo indica, ele conseguiu!

Quanto a nós, “desavisados náufragos”, quem sabe se um dia poderemos conquistar o conhecimento, sem perder de vista a paixão que nos domina? Sem que viremos às costas ao humanismo em nome do desenvolvimento! Com sorte, talvez possamos dar ao conhecimento novas formas e novos ambientes que atendam as individualidades de cada um. Com isso, devolveríamos a quem de direito o extraviado “selo de autoria”. Essa mesma autoria que fez Giuseppe Tornatore buscar em Ennio Morricone a trilha sonora perfeita para soltar suavemente o enredo dessa belíssima história. Ah! Tomara que isso aconteça, minha gente. Tomara!

Cinema Paradiso

Memórias: Bocaina, um sonho da infância distante…

Dizem que o melhor aliado do homem é a “memória”, porquanto é o único patrimônio verdadeiramente intransferível. Tudo o mais é efêmero e não redime o coração de quem quer que seja. Sim! Eis aí uma verdade que concordo. Plenamente.

Muitas vezes, meus amigos, observa-se que o destino de uma criatura sofre bruscas mudanças e subverte os caminhos do coração. Ainda que seja injusto, convenhamos, são incontáveis os casos em que a “roda da vida” manipulou os acontecimentos. Seja atropelando sentimentos, seja cerceando talentos ou mesmo modificando o rumo de algumas histórias. Pois é. Sabemos também que o ser humano é detentor de fortes contradições e que a sua busca por uma vida melhor nem sempre logrou êxito. Mário Quintana, o nosso encantado poeta, declarou um dia: “Ah! se exigirem documentos aí do “Outro Lado”, extintas as outras memórias, só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens: aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado ou uma nuvem perdida, perdida… Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!”

Por sinal, foi por conta de umas fotos antigas que tudo isso me veio à cabeça. Bocaina, esse era o nome da minha pequena “Macondo”! Por certo, não tinha a dimensão da Macondo de Gabriel Garcia Marquez. Contudo, estejam certos, ela não era apenas uma colônia de férias como outra qualquer. Bem mais do que isso, Bocaina foi o grande laboratório que desvendou o imaginário de muitos que ali estiveram. Lá, isso sim! E como estou atravessando uma fase de “inventariar” as muitas passagens que já tive, não poderia deixar este registro passar em brancas nuvens. Afinal, cada um de nós tem lá a sua “Macondo”. E o mais importante é como fazer uso dela junto ao seu imaginário!

 

Fotos: Colônia de Férias da Bocaina, nos anos 60.

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