Cinema: filme “Amores brutos”, de Alejandro Gonzalez Iñarritu.

APENAS  UMA  HISTÓRIA…   –  Parte  2 / 2.

Canelau me disse que estava ali para visitar a família e “quitar” antigas pendências. Com sorte, quem sabe, conseguiria ele se desatrelar de antigas “bolas de prisioneiro” que arrastara por muito tempo, sem culpas, mágoas ou remorsos?

Tempos depois, vejam vocês, não é que eu descubro que ele virara um cineasta consagrado e que os cursos que nunca quis declarar quais eram, foram todos ligados à sétima arte. Ah, só vendo a cara de espanto que fiz quando vi o seu nome no letreiro do cinema do bairro: “Amores brutos”, de Alejandro Gonzalez Inarritu, o meu querido Canelau!
A história do seu primeiro filme é “impactante”. Impiedosa, até. Visto que as linguagens cênicas, aliadas ao forte texto, são brutalmente extraídas do “submundo” do inconsciente coletivo. Ou, sabe-se lá, tenha emergido do recorrente “desconsolo” presente na memória afetiva de Canelau. Quem pode garantir?! E será que isso realmente importa?

Para Alejandro, sim! Porquanto pôde “expiar” o passado, utilizando as ferramentas acumuladas ao longo da vida. Em vista disso, ele agora não se sente mais perseguido pelos antigos fantasmas. Canelau, minha gente, adquiriu o direito de remir o “maldito estrangeiro” que carregava no peito, como bem descreveu Albert Camus. De agora em diante, Canelau é um cidadão do mundo!

Aliás, faço aqui um reparo: não foi do romance “O estrangeiro”, de Camus – que me lembrei quando assisti ao filme. Na verdade, o filme me remeteu a outro livro do escritor argelino: “A queda”. Este, sim, é o retrato mais duro do “universo do absurdo”, de Camus. Em cada cena do filme, parecia até que eu relia aquela consagrada novela: “O meu acordo com a vida era total: eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões”.
Pois é… Se por um lado o filme nos deixa acuados pela forte temática, por outro, ele redime alguns “pecados íntimos”. Mas, quem há de confessar qualquer “desvio”? Quem admite destampar o porão da memória? Quem?!

Alejandro conseguiu isso à medida que trouxe de volta as “conversas” com o falecido irmão, Luciano. Acredito até que tenham sido diálogos difíceis. Mas, pelo visto, ele soube tirar proveito. A prova disso está no impecável trabalho produzido. Com talento e arte, ele soube expressar as tantas perdas ocorridas em sua vida. Tanto é verdade que ao final do filme ele dedica a história ao irmão ausente. Investido de coragem e respeito, reconhece: “A Luciano, porque também somos o que perdemos…”

Canelau       Zeo

Canelau                              e                                 Luciano

 

 

 

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...