Cinema: filme “O caminho para casa”, de Zhang Yimou.

MUITO  ALÉM  DA  PAIXÃO!

O filme de hoje é o belíssimo “O caminho para casa”, de Zhang Yimou, produzido em 1999, como uma verdadeira declaração de amor, bem ao estilo chinês.

O enredo se passa em um pequeno vilarejo no interior da China e narra a história de Zhao Di, a inocente camponesa, que entregou o seu amor ao professor Luo Changyu. É uma coisa linda, meus amigos! A relação que ela estabelece com o professor é tocante e delicada. Durante todo o filme, a linda história de amor é narrada pelo filho Yusheng. É que ao receber a notícia da morte do pai, Yusheng retorna à sua antiga aldeia e relembra o decantado romance dos pais, enquanto providencia o enterro. E ao narrar a história de amor deles, com orgulho e admiração, Yusheng consegue nos enfeitiçar. Inteiramente. Sem sombra de dúvida, não há criatura alguma nesse mundo que ao final do filme não se sinta melhor, visto que ele nos emociona e nos engrandece. Pudera! Como um bom filme oriental, ele herdou a sabedoria de não ter pressa. Com isso, as cenas se sucedem com uma impressionante placidez. Lindas. Irretocáveis. E amparado em magnífica fotografia, o enredo vai lentamente arrebatando as nossas almas sedentas de humanismo. Principalmente quando aborda o polêmico tema: a morte.

É, minha gente, o povo ocidental tem muito que aprender com os orientais no que diz respeito à forma de encarar a morte. Chega a ser comovente o diálogo entre Yusheng e o marceneiro, quando ele diz: “Carregar os mortos é um costume antigo. E nós gritamos com ele no caminho. Sabe o que dizemos? Dizemos que aquele é o caminho para casa. Assim, ele sempre se lembrará do caminho!” Ou então, na própria voz de Yusheng, que após relutar, acaba compreendendo o pedido da mãe e justifica o sacrifício de conduzir o corpo do pai pela longa estrada: “Esta estrada faz parte da história de amor de meu pai e minha mãe: o caminho que vai da cidade até a nossa aldeia. Talvez, por causa da esperança que representava quando ela esperava a volta de meu pai, ela queira percorrê-lo ao lado dele uma última vez…” E ele tinha razão, uma vez que um amor feito aquele merecia qualquer homenagem. Até mesmo sacrifício.

Yusheng nos diz mais sobre o amor deles: “Papai me contou que a primeira vez em que visitou minha mãe, ela ficou esperando na porta. Apoiada no batente, parecia uma pintura num quadro: uma imagem que ele jamais esqueceria!” Ou ainda: “Alguém me contou que no dia em que meu pai finalmente voltou, mamãe vestiu o casaco vermelho, o preferido de papai, e ficou esperando por ele no caminho. Desde aquele dia, meu pai nunca mais deixou a minha mãe…”

O que sei dizer é que a história de Zhao Di e do professor Luo Changyu não é apenas uma bela história de amor. Bem mais do que isso, ela revela tudo o que fica em nossa volta: amor, paixão, dignidade e respeito. E nada mais tem importância.
Zhao Di compreendeu tudo isso quando quis prestar ao marido a derradeira homenagem, reiterando o seu amor em meio a longa caminhada. No fundo, talvez fosse a caminhada para a grande morada espiritual: a imortalidade do amor que viveu.
Então, só nos resta torcer para que a vida nos ensine a encarar a morte com o mesmo respeito e dignidade que o filme aponta. Com sorte, poderemos até guardar na memória onde estão os nossos caminhos. E se isso ocorrer ainda em vida, melhor ainda, pois assim evitaremos ouvir os gritos dos que nos amam!

O caminho para casa

 

Disco: CD “We get request”, com Oscar Peterson.

Eu já escutara diversas vezes dos amigos que os filhos recebem de seus pais todas as atenções do mundo. Lá, isso é verdade! Para se ter uma ideia, quando soubemos que o Gabriel surgiria em nossas vidas, eu e minha esposa construímos toda sorte de planos para o “rebento”. E foi aí, nesse exato momento, que eu me dei conta de como eles “movem” nossas vidas… Logo de cara, podem acreditar, Gabriel me fez parar de fumar. Convenhamos, isso já se constituía em uma verdadeira “revolução” em minha vida, uma vez que eu já tentara mil planos que naufragaram muito ao fundo ao longo dos 30 anos de tabagismo!

Depois disso, diversas outras situações ocorreram e nem conseguiria descrever aqui. Lembro, ao menos, da mudança do sono, que até então era pesado e profundo e, após o nascimento dele, mudou completamente. Bastava um leve murmúrio do pequenino e eu já estava de prontidão ao lado do berço…  Impressionante!

O mundo, então, girou mais um bocado. Gabriel está crescendo e comemorou, em fevereiro, os seus primeiros quinze anos. O melhor de tudo é que ele nos enche de orgulho ao percebermos os traços do seu temperamento e caráter. Como “agravante”, diria o chefe de polícia, eu o “flagrei” esta semana escutando o CD “We get request”, de Oscar Peterson. Céus! Fiquei sem palavras. Atônito. Porquanto eu achava que somente o “rock pesado” fazia parte do seu cardápio.

De fato, meus amigos, o CD é maravilhoso. Peterson vem “beber” a água mais cristalina da nossa inesquecível “bossa-nova”. “Corcovado”, por exemplo, ficou deslumbrante. E ”My One And Only Love” adquiriu profunda emoção. Tocante!

Portanto, proponho hoje um grande brinde: ao meu querido filho Gabriel, pelo “despertar da força” (como diria “Obi-Wan Kenobi”, no Guerra nas Estrelas), ao maestro Tom Jobim que provou ao mundo o talento brasileiro e ao magnífico pianista Oscar Peterson, que referendou o talento…

Abençoados, sejam!

https://www.youtube.com/watch?v=QOEun-58N8o

 

OscarP