Cinema: filme “O Expresso da meia-noite”, de Alan Parker.

SOMOS  TODOS  ESTRANGEIROS!

O filme de hoje é o magnífico “O Expresso da meia-noite”, produzido em 1978 por Alan Parker. O que eu posso afirmar a vocês é que a história do filme é impressionante e foi baseada em um caso real, ocorrido com um estudante norte-americano. O roteiro de Oliver Stone, ganhador do Oscar, conseguiu dar a medida das violências, torturas e os interrogatórios cruéis de que foi “vítima” o estudante. Com extraordinária sensibilidade, Oliver Stone penetrou na profunda desesperança em que mergulhara o jovem e conseguiu extrair dos personagens o “lado negro” de suas almas conflitadas. Em contrapartida, para a nossa sorte, ele foi recompensado com a brilhante estreia de Brad Davis e pelo magnífico desempenho de John Hurt. No meu entendimento, os dois atores mereciam ganhar o Oscar. Lá, isso sim!

Pelo visto, nem mesmo Camus ou Kafka, os mestres do absurdo, conseguiriam imaginar tal história. E olha que eles não foram os únicos que se sentiram “estrangeiros” nesse conturbado mundo. É o tal negócio: no fundo, há sempre um pouco desse sentimento presente em cada um de nós. Isto porque, convenhamos, quase todos nós já nos deparamos com situações profundamente “conflitantes”. Ainda que sejam repudiadas, devemos reconhecer que elas fazem parte da trajetória da gente. Afinal, quem não se sentiu perdido, injustiçado e sem perspectivas em algum momento da vida? Quem não experimentou fortes dores ao longo do percurso e, muitas vezes, provou o “pão que o diabo amassou”? Como se as razões extinguissem o bom senso e traíssem qualquer noção de humanismo. Como se o “absurdo” valesse bem mais do que tudo!

O processo desencadeado a partir da prisão do estudante não se compara, decerto, com O Processo – vivido por Josef K., de Franz Kafka. Não obstante, nós podemos observar idêntica degradação a que um homem pode ser submetido. Degradação essa, meus amigos, que nenhuma criatura desse mundo merece viver, por mais “abominável” que ela possa ser… E esta degradação foi muito bem representada na cena da marcha “silenciosa e louca” dentro do pátio interno da cadeia. É uma cena forte e angustiante, sem dúvida, mas impecável. Estarrecidos, vemos os presos caminhando “conformados” em um labirinto asfixiante. Com passos lentos, eles caminham sem nenhum motivo. Sem sentido algum. Simplesmente, caminham. Como se estivessem “Esperando Godot”… Meu Deus, por que “sempre pela direita?”

Verdade é que muitos pensadores já se reconheceram encurralados pelo mundo “normal”. E por certo, eles já devem ter se sentido “impotentes” diante dos acontecimentos da vida. Paciência! Fazer o quê?! Bertolt Brecht, por exemplo, foi um que declarou: “Eu vivo num tempo sombrio. / A inocente palavra é um despropósito. / Uma fonte sem ruga denota insensibilidade. / Quem está rindo é porque não recebeu ainda a terrível notícia!” Será isso loucura? Será absurdo? Nem sempre, minha gente… nem sempre!

Rainer Maria Rilke foi outro que se deparou com tais emoções. Em Cartas a um jovem poeta, ele nos aconselhava: “… mas não se importe. Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. O que é preciso é caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém – é a isto que é preciso chegar”. Pois é. Nós até podemos acalentar esse conselho, contudo, é extremamente complicado pôr em prática, não acham?!

Muito embora o filme esteja completando 40 anos, o que se percebe é que a linguagem adotada – texto, fotografia e roteiro – permanece extremamente atual. Por sinal, são raros os filmes antigos a que conseguimos assistir com igual prazer (ou dor!) tempos depois. É bem o caso do “O expresso da meia-noite”. Impiedosamente, ele se revela incisivo e corajoso, à medida que aborda uma história absurda e desumana, bastante presente em nossos dias. Talvez por isso, ele acabou se tornando um filme “emblemático”, capaz de seduzir e agradar a quase todos. Ao menos, os que se deixam emocionar!

Sabemos que a história da humanidade está repleta de exemplos de violências e castigos impostos aos semelhantes. Perversamente, quase todos são movidos por ódios ou fanatismos, ou seja, aqueles velhos e equivocados sentimentos que reduzem o “homem” a uma condição quase primitiva…

A despeito de tudo, eu sou um otimista incorrigível e conservo fortes esperanças na vida e no homem. Sim, minha gente! Apesar dos pesares, eu continuo a acreditar no “homem”, porque acredito na “arte” que está nele. E por sorte, arte é o que não falta nesse belíssimo filme!
Em momentos como esse, em que chegamos a duvidar do bom senso e quase perdermos as esperanças no homem, eu me lembro, então, de Alexander Solzhenitsyn: “Seus relógios estão atrasados. Fechem as cortinas de que tanto gostam, pois vocês sequer suspeitam que lá fora existe a luz do sol.”

 

Expresso

Literatura: Luís Fernando Veríssimo.

Eu estava organizando algumas fotos, novas e velhas, quando me deparei com uma série de imagens que havia feito ao visitar a Feira Cultural do colégio do meu filho. Lá, havia um grande painel, afixado na parede, contendo diversas frases de renomados escritores. É bem verdade que muitas delas eu já conhecia e admirava, mas houve uma que me chamou a atenção em especial: a do escritor Luís Fernando Veríssimo. Dizia no improvisado cartaz: “Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas!”

Céus…  Aquilo me bateu fundo! Senti até saudades das densas e ricas sessões de terapia com o solidário Alexandre Kahtalian porque, minha gente, estando próximo dos 67 anos de vida, inevitavelmente surge a pergunta: “Se mudarem as minhas perguntas, o que faço das respostas que garimpei até agora?!”

Pois é, meus amigos, queira ou não isso é algo que terei que encarar. E, por certo, haverei de responder às indagações que o mundo colocar em minha frente. Porquanto a vida, desafortunadamente, não pede intervalo para a pausa e tão pouco concede “salvo-conduto” aos inadimplentes…

Por outro lado, eu festejo a chegada dessas “novas” demandas, visto que somente assim eu terei, de fato, novas possibilidades nas respostas. E aí, que sabe, eu possa acertar algumas “coisinhas” que não soube responder adequadamente nas primeiras vezes, concordam comigo?!

Luis Fernando Veríssimo