Literatura: livro “Ninguém escreve ao Coronel”, de Gabriel García Márquez

OS  JARDINS  DE  TÂNATOS – Parte 1 / 2.

Certa vez eu ouvi de um amigo a seguinte sentença: “Ah, Carlos, esse mundo insiste em não se ajuizar. Não demora muito e ele logo apronta alguma!” Pois é… Eis aí uma dessas frases que ouvimos de quando em quando. Daquelas que nos convocam à manutenção, a qualquer custo, do juízo perfeito e da harmonia. Para muitos, no entanto, isso é pura sandice!

É bem verdade que o conceito de juízo ou bom senso é algo bastante relativo, visto que depende da situação envolvida. O nosso estimado Caetano Veloso já nos disse que “de perto, ninguém é normal”. Isso porque, quando se está de fora, como um neutro observador, os atos e fatos da vida parecem assumir condições que enquadramos em rígidos parâmetros. De modo geral, costumamos julgar “as coisas” com base no senso comum. Até aí, tudo bem. O discernimento, seguramente, deve estar a serviço de uma vida equilibrada. Não obstante, a busca por esse equilíbrio é que constitui a grande peleja da vida. Também é verdade que o mundo não é tão perfeito como imaginamos ou desejamos. Por certo, iremos nos deparar com situações que escapam ao nosso “comando”. E quando isso ocorre, reconheçamos, é um verdadeiro “Deus nos acuda”. De fato, são incontáveis os momentos em que a vida nos põe frente a frente com o “crime”. Entendendo esse “crime”, é claro, apenas no sentido da perda do controle. Digo isso, minha gente, porquanto é fácil perceber a desenfreada necessidade que temos de “controlar” tudo ao nosso redor. Como se que a perda do controle significasse tão somente um atestado de incapacidade ou desespero em qualquer um de nós. Um verdadeiro sufoco!

É interessante perceber que ao lermos um belo romance ou ao assistirmos a um denso filme, em cuja história algum personagem “destrambelha”, sentimos imediatamente “pena”! É uma reação espontânea, como um ato falho, pois logo a seguir vem: …tadinho, ele perdeu o controle! Não é assim que acontece? É… sei bem que tudo isso é bastante complicado. Sei até que me pilho, vez por outra, “controlando” a mim ou os que me cercam. Paciência, fazer o quê? Pelo visto, os sete anos de terapia não me deram imunidades! Mas, será que precisamos controlar “as coisas” assim? E o que representa esse controle? Bem, aí é que mora o “x” do problema. E a razão deste artigo!

Sem nenhuma cerimônia, devo confessar que tudo isso é profundamente inquietante. Para qualquer um de nós. E mais ainda: no meu entendimento, esta é a grande questão a ser respondida. Agora, se conseguimos responder corretamente, aí já são outros quinhentos… ou, como queiram, uma outra “peleja”!

Como exemplo, tomemos o filme “Ninguém escreve ao coronel”, de Arturo Ripstein. Baseado na belíssima novela de Gabriel García Márquez, o filme é um retrato vivo do que começamos a abordar. Com muita propriedade, o texto da contracapa informa: “Semanas após semanas, o Coronel se veste solenemente e fica parado diante do cais aguardando a carta que anunciará a chegada de sua tão esperada pensão. Todos do vilarejo sabem que ele espera em vão, inclusive sua mulher, que há anos o vê preparar-se diante do espelho para receber a carta que nunca chega. Mas, o Coronel fecha seus olhos diante desta verdade tão evidente e se agarra ao seu sonho. Caso contrário o que lhe resta? Ninguém escreve ao Coronel é um filme tocante, adaptado do romance de Gabriel García Márquez e tem no elenco atuações extraordinárias de Fernando Luján e Marisa Paredes como o coronel e sua esposa”.

Voltando ao tema do artigo, meus amigos. Será o Coronel um sujeito “desequilibrado”? Sua história é puramente absurda, a ponto de nos indignarmos ao assisti-la? O que ele deveria ter feito?

Alguns poderão afirmar: meu prezado Carlos, somente o Coronel poderia dar conta do seu drama. Afinal, já se disse por aí que todo drama é sempre individual. É… Pode ser, meus amigos. Mas, basta que o nosso olhar esteja menos contaminado pelo propalado equilíbrio e perceberemos que o Coronel talvez tivesse poucas alternativas. Mais ainda: concluiremos que o “galo” do Coronel representava bem mais do que um estimado animal. Ao que tudo indica, o galo era o único daquela vila que o compreendia com exatidão. Talvez porque encarnasse o símbolo da “resistência” mantida por ele, junto ao “sistema”. Ou quem sabe o galo estabelecesse a fronteira da última utopia do Coronel e daquela gente?! O certo é que naquele vilarejo ninguém podia mais viver sem o galo. Assim como o coronel não podia viver sem as utopias, ainda que estivessem impiedosamente abaladas. Restava ao coronel, ao menos, o seu vitorioso galo de briga!
No entanto, é interessante perceber que o galo nunca brigou com um oponente, meus amigos. Apenas com o espelho. Ainda assim, o nosso estimado coronel atribuía a ele uma força transformadora. Força capaz de redimir as muitas dores dele e daquele povo. Implicitamente, a “força” estava com o galo! Força essa que religião alguma conseguiu oferecer a contento, apesar das inúmeras seitas. E tampouco o sonho socialista foi capaz de perdurar, uma vez que se esfarelou feito biscoito velho…

Coronel

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...