Cinema: filme “Nínguém escreve ao Coronel”, de Arturo Ripstein.

OS  JARDINS  DE  TÂNATOS – Parte 2 / 2.

O aparente absurdo da história encontra o eco perfeito no nosso “avesso”. Batendo e rebatendo em nossos corações e nos conduzindo à tácita solidariedade. Basta recordar a dramática cena do coronel penteando o cabelo da faminta esposa. A meu ver, assemelha-se mais ao “teatro do absurdo”. E foi Antonin Artaud, fiel escudeiro e representante deste, que disse: “O teatro, como a peste, é uma crise cujo desenlace é a morte ou a cura!”
Ah, meus amigos, eu não sei dizer o que nos cura… Tão pouco o que nos mata. No entanto, desconfio que a primeira grande utopia, criada pelo homem, talvez tenha sido o Éden. O verdadeiro nirvana onde, segundo afirmam, não precisávamos fazer absolutamente nada. Tudo nos era ofertado pela mãe-gentil, a natureza. E assim, reza a lenda, vivíamos em paz!
Logo a seguir, veio a cobiça. E os consequentes resultados dela. O homem, então, trilhou caminhos conturbados e que promoveram diversos conflitos. Por conta disso, é bem possível que muitas crenças, misticismos e utopias tenham surgido como uma espécie de “compensação” às perdas. Tudo bem. No fundo, quem sabe, elas eram até necessárias?! Ou inerentes ao processo evolutivo. De toda forma, é bem melhor do que ficar sentando à beira da estrada “esperando Godot”, não acham? Provavelmente, o nosso querido Coronel não leu a antológica obra de Samuel Beckett e nem ouviu falar de Antonin Artaud. Talvez tenha sido melhor. Afinal, ele encontrou a “loucura” ao seu jeito e ao seu tempo. Revelada sob a mais perfeita das condições: o sonho recorrente! Podendo, muitas vezes, parecer cruel aos que de fora observam. Apesar de tudo, devemos reconhecer, foi por intermédio dos sonhos que a humanidade encontrou muitas verdades. E por conta das utopias, o homem ainda sobrevive. Caso contrário, a vaca já teria ido para brejo há mais tempo…
Então, minha gente, é preciso ter cuidado no trato dessas questões. É preciso não bani-las “a priori”, como teimosamente fazemos quando nos deparamos com o “diferente” ou com o “inusitado”. Como fez Antonin Artaud. Ele via como absurdo a ação de se defender uma cultura, quando se deveria defender a vida, particularmente quando essa cultura nunca coincidiu com a vida, sendo feita apenas para dirigir, quer dizer, sufocar a vida!
Os “Jardins do Éden” podem ter revelado bem mais do que as “inocentes maçãs”, ainda que seja imputada à serpente a nossa primeira “loucura”. De toda a forma, com ou sem “pecado”, a loucura teve o seu lado bom. É que ao estampar os desejos inconscientes, presentes em cada um de nós, ela libertou um sem número de almas inconformadas ou diferentes. Em todos nós. Com isso, os nossos “julgamentos” se tornaram mais condescendentes e pudemos, enfim, avançar em alguns aspectos da nossa humanidade, que tantos cuidados careciam. É… no fim das contas o Coronel tinha razão ao acreditar que o galo lhe traria aquilo que a carta não anunciava: a vitória do sonho! E com sorte, melhor do ninguém, ele poria fim na miséria, na dor e no desalento: os indecorosos vizinhos do coronel.

Nessa vida, por certo, muita gente já atestou um sonho. É bem verdade que muitos deles foram vividos apenas por quem o sonhou. Pouco importa. No fundo, o que mais vale é evitar os “jardins” de Tânatos. Estes, sim, são sombrios. Dão as costas aos sonhos e, implacavelmente, sentenciam o fim das utopias, determinando a morte em toda a sua extensão! Por tudo isso, eu prefiro, então, a loucura de Artaud, quando diz: “Não tenho nem teatro nem palco que não o teatro do meu inconsciente e de meu coração”.
Se preferirem, embalado pelo sonho, Chico Buarque nos traz outra resposta: “A novidade / Que tem no Brejo da Cruz / É a criançada se alimentar de luz / Alucinados, meninos ficando azuis… / Na rodoviária, assumem formas mil. / Uns vendem fumo, / tem uns que viram Jesus. / Muito sanfoneiro, / cego tocando blues. / Uns têm saudade e dançam maracatus. / Uns atiram pedras, / outros passeiam nus! / Mas há milhões desses seres / que se disfarçam tão bem, / que ninguém pergunta / de onde essa gente vem?!”

Ninguém escreve ao Coronel

 

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...