Cinema: filme “Amnésia”, de Christopher Nolan.

UMA  VELHA  CANÇÃO – Parte 2 / 2 .

 Cena 7 – Abri os olhos e fiquei olhando para o teto. Longamente. Como que esperasse algumas respostas. E como elas não vieram, lembrei-me do comovido desabafo do romance “Luísa”, de Maria Adelaide Amaral, em que Luísa declara a Sérgio: “… eu devia me expor a você, sem reticências, sem jogos… mas, ao mesmo tempo, eu tinha medo de me dissolver, de me perder, de não ser mais eu, mas apenas um ser apaixonado… E tinha, principalmente, vergonha da minha ansiedade, da minha carência… se eu as exibisse, talvez você se assustasse e fugisse. Então, eu ocultava os meus excessos, me mostrava distante, forte, blasé… e o que acabava mostrando a você era apenas um arremedo de envolvimento, mesmo sabendo que isso nos fazia muito mal… Era como se você fosse Deus e tivesse o poder de decidir a minha felicidade ou a minha desgraça… Durante meses, ocultei a minha loucura, me contive, sufoquei, fui civilizada. Civilizada na minha fúria, civilizada na minha dor, civilizada em momentos que nunca deveria ter sido…”

Cena 8 – Eu tinha um colega, professor, que desenvolvia testes e provas para os alunos baseados em rígidos princípios: ou o estudante acertava a questão de ponta a ponta ou recebia grau “zero” na pergunta. Até que um dia eu lhe perguntei: “Ô, Paulo, o que você pretende: aproveitar o que o aluno sabe ou o puni-lo pelo que não sabe? Isto porque, companheiro, não há diferença alguma entre um menino que entregou a prova em branco e o que respondeu a todos os quesitos cometendo pequeníssimas falhas. Pelo seu critério, ambos receberão a mesma avaliação!” Até hoje, eu não obtive qualquer resposta dele…
“Ninguém é perfeito!”, dizia Leonard.

Última cena – Ao entrar no pequeno Café-Bar, deparei-me com o grupo de jazz, formado por amigos. Festejaram a minha chegada. Timidamente, percebi que outras pessoas me olharam com interesse e curiosidade. É que, no fundo, transcorrido tanto tempo sem sair de casa, enfim, eu me sentia “bonito”. Por dentro e por fora. Sentia-me até atraente. Meu Deus, que coisa boa é isso!

“Todos precisam de espelhos para se lembrarem de quem são. Não sou diferente!”, finalmente, admitiu Leonard.

Créditos finais – No momento, reconheço, eu não consigo me interessar por outra mulher, porquanto o meu coração ainda está voltado para ela. Mas… foi muito bom ter recebido os sinais de “saúde”. De toda forma, preferi voltar para casa mais cedo.
Abri o livro na página marcada e lá estava: “Eu vou ficar muito triste, mas vou matar você dentro de mim… e vou me vestir de luto e sofrer uma grande, uma enorme melancolia por essa perda… mas um dia, ao acordar, eu vou perceber que você não ocupa mais os espaços da minha memória afetiva de maneira tão insistente e que a sua presença finalmente se dissipou… E vou ser livre outra vez…”

Inconformado, joguei o livro em cima da mesa e acendi um cigarro. Junto com a fumaça, é verdade, eu também procurava exalar um pouco da angústia que me oprimia. Naquele momento, mais do que nunca, eu desejei estar acompanhado. Talvez por isso, tenha ligado o rádio na esperança do acalento. No entanto, para o meu infortúnio, a música que tocava era uma velha e conhecida canção: “Volta! / Vem viver outra vez ao meu lado. / Não consigo dormir sossegado, / Pois meu corpo está acostumado…”

amnesia2

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...