Disco: CD “I remember Miles”, de Shirley Horn.

Ah, como eu gostaria de ser poeta! Só para poder criar uma canção como “My funny Valentine” e ouvi-la, quase recitada, pela abençoada garganta de Shirley Horn. Céus, seria a maior glória. Acudam-me, anjos da guarda! Volte cá, minha mãe querida! Ajude-me, meu “Padim” Padre Ciço! Seu filho está clamando! E ele não pede fortuna, saúde eterna, cargos “fantasmas” ou benesses do governo… Ele só quer poesia. Nada mais do que isso… Portanto, prometam-me que serei poeta, ao menos, por um dia. E se, de toda a forma, não puderem me atender, então, deem-me a felicidade de ter bons ouvidos. Apenas para me deliciar com a voz de Shirley cantando “Summertime”. Cantando também “Baby, won´t you please come home” com aquela intimidade peculiar, capaz de soltar um discreto sorriso após os aplausos calorosos.
E mais ainda: por favor, sejam generosos com esse seu filho. Afinal, o que ele pede não é muito. De mais a mais, meu Deus do Céu, o que custa?! Mas… pera aí… ouçam, ouçam: está tocando “This Hotel”. Que maravilha! Parem tudo! Esqueçam tudo! Deixem-me sonhar!
Olha, meus amigos, desculpem-me pelo exagero, pelo transe… É que esse disco, “I remember Miles”, acabou me pegando de jeito. Podem acreditar! Eu estava aqui no meu canto, bem quietinho… na minha… sem incomodar ninguém. Aí, vejam vocês: apareceram a voz da Shirley, o trompete de Roy Hargrove, a gaita de Toots, o baixo de Ron Carter e… a imensa saudade de minha mãe…
Céus, tudo desmoronou!
 
Shirley

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...