Disco: CD “Gershwin’s World”, com Herbie Hancock.

Lembro apenas que era verão e o ano, 1976. Eu estava deitado numa rede cearense naquele pequeno quarto, lendo “Jazz Panorama”, do invejado Jorginho Guinle. É um livro antigo, escrito em 1959 e, ainda assim, muito interessante. Foi quando a Bárbara me chamou e mostrou uma notícia do jornal. Olhei para ela e dei um leve e desconfiado sorriso. Afinal, o jornal era suíço e escrito em alemão. Para mim, era como se grego fosse. Porém, ela insistiu: “olha, Carlos, vão representar “Porgy & Bess” aqui no teatro da Universidade da Basiléia”. Céus! Fiquei excitado com a ideia, pois sempre gostara da obra dos irmãos Gershwin. Talvez seja a mais famosa tragédia, ópera jazzística ou o que queiram considerar. Verdade é que é belíssima, isso sim!
Então, passaram-se mais de 40 anos. Hoje, meus amigos, eu estou às véspera do inverno de 2018, em Florianópolis. O certo mesmo é que Bárbara pode ter-se ido e até deixado saudades. Com ela, a Suíça também ficou na memória distante, que aos poucos vem se dissipando. No entanto, para minha sorte, “Porgy and Bess” até hoje permanecem ao meu lado…
Neste disco, em homenagem aos irmãos Gershwin (Ira e George), o nosso fabuloso pianista Herbie Hancock convidou diversos “ícones” da música. Joni Mitchell aparece “encantada” e nos brinda com comoventes interpretações em “The man I Love” e em “Summertime”. Coisa linda!
Tem mais coisa ainda, minha gente. Tem um vocal maravilhoso da Kathleen Battle. Tem Steve Wonder, Wayne Shorter, Chick Corea, Ira Coleman, Cyro Baptista e… ufa, quem mais? Ah, sim… claro, o cicerone, Herbie Hancock!
 
 
Herbie

Disco: CD “I remember Miles”, de Shirley Horn.

Ah, como eu gostaria de ser poeta! Só para poder criar uma canção como “My funny Valentine” e ouvi-la, quase recitada, pela abençoada garganta de Shirley Horn. Céus, seria a maior glória. Acudam-me, anjos da guarda! Volte cá, minha mãe querida! Ajude-me, meu “Padim” Padre Ciço! Seu filho está clamando! E ele não pede fortuna, saúde eterna, cargos “fantasmas” ou benesses do governo… Ele só quer poesia. Nada mais do que isso… Portanto, prometam-me que serei poeta, ao menos, por um dia. E se, de toda a forma, não puderem me atender, então, deem-me a felicidade de ter bons ouvidos. Apenas para me deliciar com a voz de Shirley cantando “Summertime”. Cantando também “Baby, won´t you please come home” com aquela intimidade peculiar, capaz de soltar um discreto sorriso após os aplausos calorosos.
E mais ainda: por favor, sejam generosos com esse seu filho. Afinal, o que ele pede não é muito. De mais a mais, meu Deus do Céu, o que custa?! Mas… pera aí… ouçam, ouçam: está tocando “This Hotel”. Que maravilha! Parem tudo! Esqueçam tudo! Deixem-me sonhar!
Olha, meus amigos, desculpem-me pelo exagero, pelo transe… É que esse disco, “I remember Miles”, acabou me pegando de jeito. Podem acreditar! Eu estava aqui no meu canto, bem quietinho… na minha… sem incomodar ninguém. Aí, vejam vocês: apareceram a voz da Shirley, o trompete de Roy Hargrove, a gaita de Toots, o baixo de Ron Carter e… a imensa saudade de minha mãe…
Céus, tudo desmoronou!
 
Shirley