Artes Plásticas: a grande viagem de Jarina Menezes!

Olha, seu moço, eu gostaria de contar um ‘causo’. Creia-me, é um causo bem interessante. Singelo e raro, como convém. Contudo, devo alertar a todos: não se trata de grandes caçadas ou incríveis pescarias. Tão pouco contempla fato estranho ou toda sorte de proezas extraídas da fértil imaginação dos homens. Não, seu moço! A estória que vou relatar é simples feito um vestido de chita, mas, tenha a certeza, ela é cheia de riquezas outras. É a estória que narra a vida de uma corajosa nordestina, de nome Francisca Jarina. Foi uma tremenda ‘cabra da peste’, capaz de nos encher de orgulho. Sim, seu moço, hoje eu quero lembrar de Jarina Menezes: a mãe de seis filhos que saiu do distante Ceará rumo ao Sul e se tornou uma baita artista plástica.

Pois, então, eu conto. Ela nasceu num pequeno vilarejo, no velho Massapé, na primavera de 1927; quando criança, sob o céu do sertão, Jarina se punha a observar as nuvens, formando estranhas figuras que seu imaginário iria moldar. Foi ali, seu moço, que nasceu o universo ‘surrealista’ que acompanhou para sempre o destino e a arte dessa linda mulher.

Antes disso, porém, apesar da pouca idade, Jarina precisou se fazer ao mar. Empurrada pela perda da mãe, Carlinda, quando contava somente dezessete anos, Jarina viu-se obrigada a cuidar de outros dois “Franciscos”, seus irmãos caçulas: um de 9 e o outro com apenas 5 anos de idade. Ao juntar esforços com a irmã, ela alimentou, zelou pela saúde e semeou educação nos dois pequenos irmãos.

É bem verdade que naquele distante e conservador Ceará, não restava a Jarina muitas alternativas. Daí o casamento precoce, ainda no mesmo ano da morte da mãe. No entanto, o destino feriu mais forte quando um dos filhos de Jarina foi acometido por doença grave e ela teve que abandonar às pressas o seu velho Ceará. Carregando cinco dos seis rebentos debaixo das asas, ela veio ao Rio de Janeiro com a missão de “salvar” o menino “Zeo”, sem lograr o merecido êxito… Foi um duro e sofrido golpe!

A viagem para o Rio de Janeiro, naquela época, levava mais de dez horas pela Real Transportes Aéreos e parava em todos os aeroportos no caminho.

Já no Rio de Janeiro, após um prolongado luto pela perda do pequeno filho, teve início a terapia psicanalítica com vistas à recuperação emocional de Jarina. E foram precisos mais de dez anos de terapia para que surgisse a vida artística na trajetória dela. No Centro de Arte Contemporânea, ela teve os primeiros ensinamentos nas técnicas da pintura. A partir daí, seu moço, uma saudável ‘loucura’ tomou conta dessa brava mulher e nunca mais a deixou… Ainda bem.

Em 1982, Jarina veio morar em Florianópolis, onde residiu por mais de vinte anos na bela Lagoa da Conceição. Ali ela ampliou os conhecimentos nas técnicas da arte e se entregou de vez a esse maravilhoso universo. Faleceu em 2005, aos 78 anos de idade, deixando um belíssimo legado de vida e de arte.

 

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