Disco: “The Essential”, com Billie Holiday.

O que se pode dizer a respeito de Billie Holiday? Céus… creio que quase tudo já foi dito. De imediato, é verdade, devemos reconhecer que ela é foi grande dama do “blues” e a voz mais “lamentosa” que ouvi nesta vida… Confesso a vocês: que a minha esposa não saiba, mas ninguém sussurrará nos meus ouvidos como Billie! Se você, amigo leitor, ainda não teve a felicidade de ouvir Billie Holiday cantar “Sophisticated Lady”, então, a sua vida está incompleta. Nada teve sentido e os seus olhos ainda não brilharam… O que é uma lástima!

O título deste CD não poderia ser melhor: “Songs of lost Love”. Portanto, não me culpe pela “dor de cotovelo” que se apossará de você ao ouvir o disco. É da vida, mano… Fazer o quê?!

Por conta disso, a minha sugestão é de que você faça como ela. Suplique: “Lover, come back to me”. Talvez você tenha mais sorte e quem sabe o seu sonho possa, enfim, acontecer?!

Para completar a seleção de craques do time, temos Oscar Peterson, Benny Carter, Ray Brown, Barney Kessel e Ben Webster. Formam as feras que acompanham a nossa Billie no disco. Céus… é brincadeira, bicho!

A remasterização feita nas gravações de 1952 a 1957 ficou impecável. Então, por tudo isso, tornou-se um disco antológico. “Love me or leave me”, entoava Billie com sofreguidão… Depois disso, quem terá coragem de deixar a nossa “deusa”?!

https://www.youtube.com/watch?v=hHksWjoGs0I

https://www.youtube.com/watch?v=–9aIYos4M8

Billie

Cinema: filme “Malena”, de Giuseppe Tornatore.

OS  “ESCONDERIJOS”  DA  MEMÓRIA.

Vejam como são as coisas: eu precisei esperar mais de três décadas para me dar conta de um terrível engano que cometi. E digo mais, meus amigos: tomara que eu tenha me redimido, pois só assim terei feito as pazes com o meu coração. Afinal, como dizia o poeta Fernando Pessoa: tudo vale a pena se alma não é pequena. Dito isso, peço que me deixem relatar os fatos. É que, no fundo, eu acredito que vocês me compreenderão, já que têm sido testemunhas e parceiros nas minhas “expiações”.

Na verdade, tudo começou quando assisti ao belíssimo filme Malena. Meus amigos, que filme encantador! Foi construído pelo mestre Giuseppe Tornatore, o mesmo diretor do antológico Cinema Paradiso. Ah, somente pelas mãos desse “artesão” poderíamos receber tal presente: uma viagem no imaginário da adolescência. Olha, confesso a vocês, eu mal consigo me conter, uma vez que são muitas as lembranças daquela época.

Para início de conversa, o “pecado” tinha um nome: chamava-se Isabel. Sem dúvida alguma, ela foi a mais linda morena que os meus olhos contemplaram. Mas, para mim, ela sempre se chamou Belinha. Céus, onde estará aquela menina? Que rumo terá seguido na vida? Terá sido feliz? Meu Deus, eu daria tudo para ter notícias dela. Quem sabe poder trocar uma prosa, um sorriso ou um simples olhar? Saber se os seus sonhos se realizaram, se a vida foi generosa com ela… essas coisas que o “destino” apronta!

O certo é que Belinha marcou para sempre a minha memória-afetiva, deixando um especial registro em meu coração. Por ironia, quis o destino que esse amor fosse interrompido pelos meus medos. Ah! Foi uma grande pena, isso sim, porquanto eu era jovem demais para saber lidar com os sonhos. E os sonhos, minha gente, também podem nos assustar. Lamentavelmente. Algumas vezes, reconheçamos, eles são capazes de nos acuar e promover profundas transformações nos caminhos da gente. Dessa forma, eles acabam selando a sorte de quem os viveu.

Hoje, eu reconheço: fui erroneamente “bem-comportado”. Talvez devesse me rebelar, romper com o mundo e queimar meus navios… No entanto, não lutei pelo afeto. Simplesmente aceitei o destino como se fosse uma sina. Sendo assim, acabei paralisado diante dos medos. E o que se sabe é que os medos são implacáveis com quem os sente. Sem remorsos ou piedade, os medos arrefecem os sonhos e tomam a desavisada criatura como refém, fazendo dela mais uma vítima. Com profundo lamento, eu declaro: foi o que me ocorreu.

É bem verdade que eu tinha apenas 15 anos e ainda era uma criança cheia de esperanças na vida. Na escola, eu frequentava o grêmio estudantil e me iniciava na luta contra a opressão do regime, a ditadura. Eram tempos difíceis! Havia muito “medo” pairando no ar. Em cada esquina, um desafio. Em cada empreitada, um temor. E dessa forma, nós seguíamos firmes junto à “causa”, tentando tornar o mundo mais justo e humano. Procurando abrir espaços para os jovens que, como eu, acreditavam nos ideais “socialistas”. Apesar dos inúmeros fantasmas que nos rondavam, aquele período foi muito rico em vivências. Lá, isso foi!

Naquela época, lembro bem, os militares mandavam e desmandavam nos destinos do país. Reiteradas atrocidades foram cometidas em nome da “ordem e do progresso”, lema equivocadamente furtado de nossa bandeira. Existia até um chavão: “Brasil, ame-o ou deixe-o!”. E se por acaso o nosso “amor” não era bem aquele que eles desejavam, então, éramos “convidados” a “deixar” o país. Muitas vezes, para sempre! Perdi diversos amigos. Alguns deles, verdade seja dita, eram somente estudantes “ingênuos” que nunca entraram no movimento, quer por medo, quer por cinismo ou mesmo divergência. Outros, caíram na clandestinidade e alguns foram até para a luta armada.

Desafortunadamente, o pai de Belinha era um general do exército, da chamada “linha dura”. Todas as vezes que o via, eu tremia dos pés à cabeça. E ele, como que adivinhando, olhava-me sempre com suspeição ou “rancor”. Certa vez, o general nos flagrou namorando nas escadas do prédio. Nossa! Nunca desci tão rápido uma escada na vida. Eu parecia até um atleta correndo 100 metros com barreira… Que sufoco!

Foi quando eu resolvi me afastar de Belinha, uma vez que me sentia “perseguido” pelo pai (ou, quem sabe, pelos temores que ele me desencadeava?). Contudo, foi o meu maior engano. Isto porque, um amor feito aquele não se acha duas vezes na vida, meus amigos. Seguramente.

Bem, aí o tempo foi passando e eu cada vez mais engajado no movimento estudantil. As manifestações de rua tomavam a cidade por todos os lados. Ora ocorria uma passeata de protesto na Praça Cinelândia, ora um comício-relâmpago no restaurante universitário. Como sempre, havia muita tensão e nervosismo no ar. E nos breves encontros, aproveitávamos para obter informações sobre os companheiros “desaparecidos”.

Até que um dia, sem nenhum aviso, Belinha mudou-se de bairro. E eu nunca mais tive notícias dela, apesar das incessantes buscas que empreendi. Num átimo, Belinha virou “passado”. Sofri muito, é verdade. Chorei por sua ausência durante bastante tempo e me culpei pela falta de coragem. Meu Deus, por que foi mais fácil lutar por uma causa do que por um afeto?! Por que sempre é mais fácil morrer por uma ideologia do que viver por um grande amor? Por quê?!

É, minha gente, por aí vocês podem avaliar como demorei a “reencontrar” os meus afetos. Perversamente, eles se extraviaram naquele dia em que abdiquei o amor de Belinha. E o mundo teve que girar um bocado para que eu pudesse ter de volta os meus afetos perdidos. Para tanto, precisei encontrar maravilhosas criaturas no percurso. E elas, ao me ofertarem abraços, foram responsáveis por essa recuperação. De alguma forma, esta crônica é dedicada a todas as pessoas que me estenderam a mão.

Também é verdade que precisei me comover com as belas histórias dos livros e filmes. Porquanto são capazes de revelar os sentimentos dos homens, restaurando os nossos pedaços. Felizmente, não faltaram talentos a nos brindar com extraordinárias obras. É bem o caso de Giuseppe Tornatore. Ele já nos deu o Cinema Paradiso, Estamos todos bem, Uma pura formalidade, A lenda do pianista do mar e, dessa vez, Malena.

A história de Malena nos remete ao Cinema Paradiso, uma vez que percebemos o mesmo tema e o desejo de fazer “expiações”. Tornatore retorna às antigas vilas da Itália. E se em Cinema Paradiso a vila Giancaldo foi o palco onde brilhou o menino “Totó”, em Castelcuto temos “Renato Amoroso” conhecendo as manhas da paixão. Ambos foram acolhidos com magníficas histórias, impecáveis fotografias e a soberba trilha sonora de Ennio Morricone.

A iniciação amorosa do menino Renato se dá em meio a Segunda Grande Guerra. Ao conhecer Malena, a belíssima musa de seus sonhos juvenis, Renato descobre bem mais do que o desejo ou a paixão: descobre a fidelidade. Por Malena, Renato foi capaz de conhecer o seu próprio corpo e aprendeu a respeitá-lo. E, precocemente, ele teve que desenvolver o sentido ético nas relações interpessoais. Sorte a dele. Sorte de Malena.

No entanto, as frenéticas manifestações de cobiça e inveja – respectivamente, empreendidas pelos homens e as mulheres de Castelcuto – sempre andaram lado a lado de Malena. Passando por terríveis provações, Malena amargou incontáveis dores, sem nunca perder a altivez. Talvez por isso, ela tenha recebido a tácita cumplicidade e a compreensão do menino Renato. Isso porque, quis o destino que somente ele estivesse ao lado dela em todos os momentos.

A bicicleta de Renato, em verdade, apontou bem mais do que os novos caminhos que a vida expectava. Montado nela, o garoto acompanhou e viveu o drama de Malena. Extraindo da inocente alma os confusos sentimentos que brotavam. Pior ainda: tendo que dar conta deles em tempo real, pois nada podia ser adiado. E assim, sentado no banco da bicicleta, Renato começou a compreender a vida e a travar com os sentimentos uma peleja que nunca mais findará!

Ao reencontrar Malena, quem sabe despedindo-se da paixão, ele nos deixou um belíssimo legado, narrado agora pelas lembranças de um “envelhecido” Renato: “Eu pedalava como se fugisse. E, na verdade, fugia: dela, daquelas emoções, dos sonhos, das recordações, de tudo enfim… E pensava que precisava esquecer. Eu tinha certeza de que conseguiria esquecer. Mas, agora que estou velho, que consumi banalmente minha vida, que conheci tantas mulheres que me disseram: lembre-se de mim, percebo que esqueci todas. Porém, até hoje, ela é a única mulher que jamais esqueci: Malena”.

 

Malena

Disco: ” John Coltrane & Johnny Hartman”.

Quantos encontros já ocorreram na história do jazz? Centenas… milhares? Sei lá! E, por acaso, seria esse apenas mais um? Ah, duvido muito, minha gente! Esse aconteceu em sete de março de 1963. Para a nossa sorte, devo reconhecer, lá estavam John Coltrane (sax tenor), Johnny Hartman (vocal), McCoy Tiner (piano), Elvin Jones (bateria) e Jimmy Garrison (contra-baixo). Um time de primeiríssima linhagem!
No fundo, o que eles conseguiram fazer não está no mapa. Acredito até que o intitulado disco bem que poderia se chamar “Dedicated to you”. Assim, por certo, ele daria sentido à nossa carente solidão. E o meu vizinho gaúcho, avesso ao jazz, haveria de reconhecer em alta voz: “Barbaridade, chê, que capacidade!”.
“My one and only love” é cantada bem ao estilo dos “crooners de boate”. (Aliás, eu fiquei apaixonado com a regravação desta melodia, na trilha sonora do filme “Despedida em Las Vegas”, interpretada pelo Sting. Que maravilha ficou!)
Outro “hit” que ninguém jamais esquece é “You are too beautiful”. Meu Deus do Céu, tem a cara daqueles bailes de debutantes, lembram?! A orquestra de “Ed Lincoln” arrebentando, lá pelos anos 60. Hummm… eu ali dançando de rosto colado com aquela maravilhosa moça… falando um “monte de coisas” no seu ouvido… e ela fingindo acreditar… Pois é. Apesar de toda ajuda, nem sempre deu certo. Ao menos, fiquei com a canção no coração. E isto me basta!
Coltrane

Literatura: o bom discurso!

A internet é um território muito rico e, com paciência, pode-se colher boas e belas postagens. Enriquecedoras, até. Basta saber “garimpar” os lugares corretos e separar o “joio do trigo”. Veja esse exemplo que encontrei no Jornal do Comércio, Recife – Pernambuco. Eu gostei tanto que me encorajei a publicar aqui. Espero que apreciem.

DISCURSO DO EMBAIXADOR MEXICANO

Um discurso feito pelo embaixador Guaicaípuro Cuatemoc, de descendência indígena, defendendo o pagamento da dívida externa do seu país, o México, embasbacou os principais chefes de Estado da Comunidade Europeia. A conferência dos chefes de Estado da União Europeia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002, em Madri, viveu um momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado europeus ouviram perplexos e calados um discurso irônico, cáustico e de exatidão histórica que lhes fez Guaicaípuro Cuatemoc.
Eis o discurso:
“Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a “descobriram” só há 500 anos. O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento -ao meu país- com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento.
Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no “Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais” que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento!
Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão. Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização europeia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas. Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos. Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano “MARSHALL MONTEZUMA”, para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, e de outras conquistas da civilização.
Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?
Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em Terceiros Reichs e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.
Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão
generosamente, temos demorado todos esses séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.
Nós nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.
Muito peso em ouro e prata… quanto pesariam se calculados em sangue?
Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.
Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica…”
Quando terminou o discurso, diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o Cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a Verdadeira Dívida Externa.
Agora resta que algum Governo Latino-americano tenha a dignidade e coragem suficiente para impor seus direitos perante os Tribunais Internacionais.
Os europeus teriam que pagar por toda a espoliação que aplicaram aos povos que aqui habitavam, com juros civilizados.

Ilustração: Wikipédia.

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Literatura: a prosa de Chico Buarque – Parte 1.

Celebrando Chico Buarque de Holanda

Eu ainda me encontro sob a forte influência do show de Antônio Zambujo. Meu Deus do Céu, que coisa linda foi aquilo!
Então, resolvi revisitar a obra do mestre Chico para matar as saudades. Verdade é que em outro país, meus amigos, Chico Buarque já teria estátuas em todas as praças, tal a importância que tem para a literatura e para o cancioneiro nacional. Ao lado de Tom Jobim, Caetano Veloso e outros mais, por certo, Chico Buarque ocupa lugar de destaque nessa galeria…
“Pra mim, basta um dia / Não mais que um dia /… E eu faço desatar / A minha fantasia”.
Sim, meu caro Chico. Sei bem disso. Sei também que a exemplo de você, “Quando nasci veio um anjo safado / O chato dum querubim / E decretou que eu tava predestinado / A ser errado assim. / Já de saída a minha estrada entortou / Mas vou até o fim!”
De certo que a vida da gente tem muitos caminhos. Por isso, “Arrisquei muita braçada / Na esperança de outro mar / Hoje sou carta marcada / Hoje sou jogo de azar…”
E pouco importa o juízo que fazem de mim… pois, afinal, quem sabe de mim sou eu. E “Ninguém, ninguém vai me segurar / Ninguém há de me fechar / As portas do coração / …Eu não / Eu não vou desesperar / Eu não vou renunciar… / Enquanto eu puder cantar / Enquanto eu puder sorrir…”
Se pensarmos bem, veremos que há tanta gente que passa por nossas vidas e, no fundo, sem que a gente saiba de onde essa gente vem e o que trazem no peito… “Uns vendem fumo / tem uns que viram Jesus! / Muito sanfoneiro, cego tocando “blues” / Uns têm saudade e dançam maracatus… / Mas, há milhões desses seres / que se disfarçam tão bem / que ninguém pergunta / de onde essa gente vem?!”
Há quem diga que o melhor aliado do homem é a memória. Porquanto é o único patrimônio verdadeiramente intransferível. E se isso for verdade, eu lhe direi: “Não se afobe não / que nada é pra já / o amor não tem pressa / ele pode esperar / em silêncio / Num fundo de armário / na posta-restante / Milênios, milênios no ar…”
Contudo, e se essa memória for apenas um sonho? “Um sonho em que eu era o rei / era o bedel e era também juiz / E pela minha lei / a gente era obrigado a ser feliz / E você era a princesa que eu fiz coroar / e era tão linda de se admirar / que andava nua pelo meu país…”
O que sei dizer é que “hoje eu acordei com saudades de você”, meu querido João Pedro!

 

 

Literatura: a prosa de Chico Buarque – Parte 2.

Celebrando Chico Buarque de Holanda

Sem nenhum constrangimento, eu devo confessar: ainda que eu seja um “errante” e que a vida me diga que “na bagunça do teu coração / meu sangue errou de veia e se perdeu…”, ainda assim, continuarei acreditando que o afeto mora ao lado. E por mais que a realidade seja uma incômoda conselheira, algumas vezes, por certo, é preciso ousar. Até porque, sei bem que diversas vezes agi como na canção: “dei pra sonhar / fiz tantos desvarios / rompi com o mundo / queimei meus navios / me diz pra onde que inda posso ir…”
Então, alguém me pergunta: onde está a saída, Carlos? E eu respondo: não sei! O que sei é que “nessas tortuosas trilhas / a viola me redime / Creia, ilustre cavalheiro: contra fel / moléstia, crime / use Dorival Caymmi / Vá de Jackson do Pandeiro”. E olha que eu já “vi cidades, vi dinheiro / bandoleiros / vi hospícios! / Moças feito passarinho / avoando de edifícios…”
O mais importante é que estamos aqui, nesta festa, celebrando este momento. E que cada um de vocês possa também dizer: “Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / e ainda guardo, renitente / um velho cravo para mim / Já murcharam a tua festa, pá / Mas, certamente, esqueceram uma semente / Nalgum canto do jardim! / Sei que há léguas a nos separar / tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá / navegar, navegar…”
O fato é que a vida da gente não caminha em linha reta. E será que deveria?! Creio que não. Para a nossa sorte, os dias são sempre diferentes e, assim, temos mais oportunidades, não acham? Afinal, “tem dias que a gente se sente / como quem partiu ou morreu. / A gente estancou de repente / ou foi então o mundo que cresceu. / A gente que ter voz ativa / no nosso destino mandar / mas eis que chega a roda viva / e carrega o destino pra lá…”
Ah, meu caro Chico, eu agradeço por toda poesia que nos presenteou. Ela jamais será esquecida, creia-me. E, por justiça, nós devemos a você essa capacidade de, muitas vezes, dar sentido àquilo que não tem… Não importa nem mesmo se alguém disser: “diz que eu não sou de respeito. / Diz que não dá jeito / de jeito nenhum / Diz que eu sou subversivo / Um elemento ativo / Feroz e nocivo / ao bem-estar comum…”

 

chico1

Memórias: a vida se repete. Sempre!

Uma das lembranças mais ternas que eu guardo do meu querido filho Gabriel, ainda recém-nascido, era quando ele estava dormindo. Meu Deus, o que era aquilo, minha gente? Para mim, mais parecia a figura de um “anjo”. O anjo Gabriel!
Deitadinho naquele berço, ele parecia ter sempre um sono sereno. Enquanto isso, eu e a mãe dele não cansávamos de ficar ao lado do berço admirando aquela coisinha linda.
Então, quis o destino que a história se renovasse. E mais uma vez temos a feliz oportunidade de reviver esta cena, agora com o nosso netinho, João Pedro, entregue ao sono restaurador.
Nessas horas, por via das dúvidas, não custa evitar a visita de algum “Lobo Mau”, rondando os seus sonhos…  Para tanto, nada melhor do que a companhia do amigo “Tigrão” para zelar por seu soninho.
Abençoados sejam: Gabriel e João Pedro!

Cinema: filme “Chet Baker – A lenda do Jazz” (2015).

É sabido que a vida de Chet Baker foi bastante conturbada. Nela, sempre houve um complicado dualismo: ou aparecia o doce e terno Chet Baker, com seu maravilhoso trompete e delicada voz ou surgia o “dependente químico” da heroína que, a partir daí, desencadeava uma sucessão de brigas, confusões e violências de todas as ordens. Talvez, alguns leitores poderão perguntar: mas, como pode isso acontecer, Carlos?! É, minha gente… a natureza humana revela mais contradições do que somos capazes de atinar. Em parte, isso representa grande lástima mas, por outro lado, também é verdade que essas “almas conflitadas” têm nos ofertado momentos de raro prazer. Talvez por isso, nós nos tornamos benevolentes e “perdoamos” muitos “deslizes” desses monstros sagrados…
Nascido em Oklahoma e criado em um subúrbio de Los Angeles, Califórnia, Chet Baker sofreu bastante na infância. Ainda muito jovem, ele perdeu um dente em uma brincadeira na rua com outros meninos (anos depois, perderia quase todos eles em brigas na rua, supostamente com traficantes que vinham lhe cobrar dívidas). Herdou do seu pai, um guitarrista amador (e alcoólatra), o amor pela música. E aos treze anos de idade recebeu de presente o primeiro trompete.
No entanto, Chet não era um estudioso da música e a sua facilidade de executar maravilhosos solos, ele atribuía ao excelente ouvido que possuía.
Aos dezessete anos, ele sai da escola. Entra para o exército, onde em pouco tempo é transferido para Berlim, para tocar na banda. Foi nesse período na Europa que, pela primeira vez, Chet ouviu jazz: eram as canções de Stan Kenton e Dizzy Gillespie, transmitidas pela rádio.
Aos 22 anos de idade, Chet já se apresentava regularmente por toda Los Angeles. Soube, então, que Charlie Parker estava à procura de um trompetista para acompanhá-lo em sua turnê pela costa oeste dos Estados Unidos e Canadá, iniciando ali uma nova etapa em sua vida.
Por certo, o grande reconhecimento ao talento de Chet só surgiu em 1952, quando Gerry Mulligan começou a formar seu famoso quarteto sem piano e escolheu Baker, com quem já havia tocado em algumas “jam sessions”. O sucesso foi extraordinário e ele se apresentou em diversos clubes por cerca de um ano, antes de Mulligan pegar noventa dias na prisão (por posse de heroína). Depois disso, Chet viajou para a Europa e começou a ganhar prêmios e aplausos.
De volta aos EUA, começou a consumir heroína e a ser preso frequentemente. Sem a autorização para tocar em lugares que servissem bebidas, Chet resolveu voltar para a Europa. Viveu na Itália por quatro anos, onde também foi preso por drogas. Lá, casou-se e teve um filho.
Em 1964, novamente voltou aos EUA, agora dominados pelo “rock” dos Beatles. Daí, como restava pouco espaço para os músicos de jazz, passou a gravar discos comerciais de baixo valor artístico. Nessa mesma época, ele perdeu diversos dentes em consequência de uma briga envolvendo a negociação de heroína. Praticamente, foi obrigado a abandonar o instrumento de 1970 a 1973, quando tentou retomar sua carreira. Em viagem pelo Colorado para visitar um velho amigo, ouviu Dizzy Gillespie tocar em um clube. Foi o início do seu retorno. Quando Gillespie ficou sabendo do esforço de Baker para voltar à cena, ligou para o gerente do famoso “Half Note Club”, arrumando-lhe uma temporada de três semanas em Nova Iorque.
No Brasil, ao se apresentar na primeira edição do “Free Jazz”, em 1985, Baker sofreu uma “overdose” no quarto do hotel e quase morreu. De certo, era o prenúncio. Três anos depois, em um pequeno hotel de Amsterdã, Chet “caiu” do segundo andar do prédio… Nunca se soube, ao certo, se ele cometeu suicídio ou se foi uma queda acidental. O que sei dizer, meus amigos, é que de um modo ou de outro, todos nós ficamos órfãos!

Disco: “Sonny side up”, com Sonny Rollins.

Dizem que Ariano Suassuna gostava de uma boa prosa. Certa vez, em 2013, ele esteve aqui em Florianópolis para uma daquelas memoráveis palestras, regadas com o maravilhoso senso de humor nordestino. Pois, então, em dado momento ele falou do fascínio que tem pelos “loucos”, uma vez que estes veem a vida por um prisma particular e diferente. Segundo Suassuna, os escritores também são assim, ou seja, ao enveredarem na ficção, acabam adquirindo olhares e percepções peculiares. Sim! De fato, tem ele razão, meus amigos, uma vez que a “loucura” desencadeia a subversão do “senso comum” e estabelece parâmetros próprios de comportamentos e manifestações.
Tudo isso me lembrou o “causo” que Ariano contou durante a palestra. Segundo ele, ao caminhar pela praça principal de uma pequena cidade no interior pernambucano, Suassuna deparou-se com um sujeito que estava com a cabeça encostada no muro já por um longo tempo, como se tivesse escutando algo. Então, curioso, Ariano sentiu-se tentado a encostar a cabeça no intrigante muro. Ficou um bom tempo aguardando alguma resposta e nada. Voltou ao muro, deu mais um tempinho e, daí, comentou com o sujeito: “ué… eu não estou ouvindo nada!” E o sujeito, de bate-pronto, retrucou: “pois é… está assim desde ontem…”
Sendo assim, movido por essas lembranças, eu me deparei com esse disco, “Sonny Side Up”, de Sonny Rollins, Dizzy Gillespie e Sonny Stitt. Afinal, são três “fios desencapados”, capazes de muitas travessuras no jazz… E agora, José?!
 
Sonny

Jazz: encerramento do Curso “Uma breve história do Jazz”.

Ao encerrarmos o curso “Uma breve história do Jazz”, no Cinema do CIC, lembrei-me da crônica que deu origem a essa ideia. Com ela, assim espero, eu quero prestar algumas homenagens. Aos alunos que frequentaram o curso, aos maravilhosos amigos músicos que nos deliciaram com uma tremenda “canja” e, obviamente, aos imortais gênios do jazz que justificam tudo isso..

É sabido que a música sempre ocupou um lugar de destaque no reino das artes. Em especial, o jazz, que pode ser considerado como o mais “erudito” dos ritmos populares, tal a riqueza melódica. Isto porque o jazz possui, em sua estrutura, arranjos tão sofisticados que somente músicos de qualidade são capazes de criar ou executar. Até então, somente a música erudita era reconhecida como “nobre” e, por conseguinte, a única que adquiria o “passaporte” da imortalidade. Os criadores dos famosos “clássicos” se perpetuaram e atravessaram a história com justa notoriedade. Não há quem desconheça as obras de Bach, Beethoven, Wagner e tantos outros gênios. No entanto, verdade seja dita: quase todos viveram ou frequentaram os burgueses salões das realezas. Bem diferente do nosso jazz, cuja origem foi escrava. Além disso, o nosso jazz serviu, inicialmente, apenas como canção de lamento. Ou seja, um pranto contra a dura opressão imposta pela burguesia. O verdadeiro canto dos “excluídos”…
Não quero, com isso, desmerecer o valor da música erudita. Seria insano. Todavia, acredito que o jazz possua mais legitimidade na sua história. Pelo simples fato de retratar a dor da alma. E dor, amigos, é o signo que mais atesta a condição humana. Seja ele branco ou preto, nobre ou plebeu. Nada disso importa. No fundo, o que vale mesmo é que o jazz sempre esteve acessível a todos. Sim! A todos que se deixam emocionar. Com dor ou paixão!

breve história