Família: “João Pedro e os tomates”.

Cada um come o tomate do jeito que mais gosta, não é verdade? O meu neto João Pedro, por exemplo, está descobrindo o jeitinho dele… um pouco diferente, talvez… Mas, que é lindinho, lá, isso é! Uma maravilha!

Celebração: “Mercado Público de Florianópolis”.

Florianópolis está realmente de parabéns! Em novembro de 2017, eu fui ao Mercado Público de Florianópolis na hora do almoço. Ontem, eu repeti a dose. E novamente o que se contemplava era uma grande festa…  Confesso que há muito tempo eu não via tanta gente feliz, meus amigos. Gente celebrando o feriadão. Gente celebrando os amigos. Tudo era motivo de interação entre as pessoas presentes e a banda de rock que contagiava a todos.
De fato, havia ali uma multidão ávida por cantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima… Coisa linda!

Disco: ” Fine and Dandy”, com Stephane Grappelli.

Meus amigos, convenhamos, ele é a carinha mais simpática do mundo do jazz! E no meu imaginário, confesso: sempre sonhei com um “avô” assim… Meu Deus, como esse “endiabrado” velhinho tocava bem! Seu violino mais parecia o prolongamento do coração, que certamente não cabia no peito. Basta ouvir Stephane Grappelli tocar “Over the rainbow” e, imediatamente, sinto-me como uma criança em o “Mágico de Oz”: siderado! Sua música é tão mágica quanto o filme. Pura fantasia. Coisa linda!
O disco “Fine and Dandy” é mais uma dessas “adaptações brasileiras”, cujo objetivo é faturar em cima do nome do artista. Paguei apenas “cinco pratas” pelo meu, vejam vocês… No entanto, chego a acreditar que o nosso querido Grappelli ficaria feliz com a notícia, pois sempre foi irreverente e despojado!
Ouçam “I can´t get started” ou “Nature boy” e sentirão os acordes mais “soltos” que o violino consegue aceitar, sem queixas. Pudera! Grappelli desliza pelas cordas como se acariciasse o corpo da mulher amada…
Ah, eu sinto tantas saudades do som daquele violino, da leveza com que “passeava” pelas músicas… Por isso, envio um saudoso beijo ao meu querido e “adotado vovô Grappelli”. Sua bênção, vô!

Stephane

Disco: “The Essential”, com Billie Holiday.

O que se pode dizer a respeito de Billie Holiday? Céus… creio que quase tudo já foi dito. De imediato, é verdade, devemos reconhecer que ela é foi grande dama do “blues” e a voz mais “lamentosa” que ouvi nesta vida… Confesso a vocês: que a minha esposa não saiba, mas ninguém sussurrará nos meus ouvidos como Billie! Se você, amigo leitor, ainda não teve a felicidade de ouvir Billie Holiday cantar “Sophisticated Lady”, então, a sua vida está incompleta. Nada teve sentido e os seus olhos ainda não brilharam… O que é uma lástima!

O título deste CD não poderia ser melhor: “Songs of lost Love”. Portanto, não me culpe pela “dor de cotovelo” que se apossará de você ao ouvir o disco. É da vida, mano… Fazer o quê?!

Por conta disso, a minha sugestão é de que você faça como ela. Suplique: “Lover, come back to me”. Talvez você tenha mais sorte e quem sabe o seu sonho possa, enfim, acontecer?!

Para completar a seleção de craques do time, temos Oscar Peterson, Benny Carter, Ray Brown, Barney Kessel e Ben Webster. Formam as feras que acompanham a nossa Billie no disco. Céus… é brincadeira, bicho!

A remasterização feita nas gravações de 1952 a 1957 ficou impecável. Então, por tudo isso, tornou-se um disco antológico. “Love me or leave me”, entoava Billie com sofreguidão… Depois disso, quem terá coragem de deixar a nossa “deusa”?!

https://www.youtube.com/watch?v=hHksWjoGs0I

https://www.youtube.com/watch?v=–9aIYos4M8

Billie

Cinema: filme “Malena”, de Giuseppe Tornatore.

OS  “ESCONDERIJOS”  DA  MEMÓRIA.

Vejam como são as coisas: eu precisei esperar mais de três décadas para me dar conta de um terrível engano que cometi. E digo mais, meus amigos: tomara que eu tenha me redimido, pois só assim terei feito as pazes com o meu coração. Afinal, como dizia o poeta Fernando Pessoa: tudo vale a pena se alma não é pequena. Dito isso, peço que me deixem relatar os fatos. É que, no fundo, eu acredito que vocês me compreenderão, já que têm sido testemunhas e parceiros nas minhas “expiações”.

Na verdade, tudo começou quando assisti ao belíssimo filme Malena. Meus amigos, que filme encantador! Foi construído pelo mestre Giuseppe Tornatore, o mesmo diretor do antológico Cinema Paradiso. Ah, somente pelas mãos desse “artesão” poderíamos receber tal presente: uma viagem no imaginário da adolescência. Olha, confesso a vocês, eu mal consigo me conter, uma vez que são muitas as lembranças daquela época.

Para início de conversa, o “pecado” tinha um nome: chamava-se Isabel. Sem dúvida alguma, ela foi a mais linda morena que os meus olhos contemplaram. Mas, para mim, ela sempre se chamou Belinha. Céus, onde estará aquela menina? Que rumo terá seguido na vida? Terá sido feliz? Meu Deus, eu daria tudo para ter notícias dela. Quem sabe poder trocar uma prosa, um sorriso ou um simples olhar? Saber se os seus sonhos se realizaram, se a vida foi generosa com ela… essas coisas que o “destino” apronta!

O certo é que Belinha marcou para sempre a minha memória-afetiva, deixando um especial registro em meu coração. Por ironia, quis o destino que esse amor fosse interrompido pelos meus medos. Ah! Foi uma grande pena, isso sim, porquanto eu era jovem demais para saber lidar com os sonhos. E os sonhos, minha gente, também podem nos assustar. Lamentavelmente. Algumas vezes, reconheçamos, eles são capazes de nos acuar e promover profundas transformações nos caminhos da gente. Dessa forma, eles acabam selando a sorte de quem os viveu.

Hoje, eu reconheço: fui erroneamente “bem-comportado”. Talvez devesse me rebelar, romper com o mundo e queimar meus navios… No entanto, não lutei pelo afeto. Simplesmente aceitei o destino como se fosse uma sina. Sendo assim, acabei paralisado diante dos medos. E o que se sabe é que os medos são implacáveis com quem os sente. Sem remorsos ou piedade, os medos arrefecem os sonhos e tomam a desavisada criatura como refém, fazendo dela mais uma vítima. Com profundo lamento, eu declaro: foi o que me ocorreu.

É bem verdade que eu tinha apenas 15 anos e ainda era uma criança cheia de esperanças na vida. Na escola, eu frequentava o grêmio estudantil e me iniciava na luta contra a opressão do regime, a ditadura. Eram tempos difíceis! Havia muito “medo” pairando no ar. Em cada esquina, um desafio. Em cada empreitada, um temor. E dessa forma, nós seguíamos firmes junto à “causa”, tentando tornar o mundo mais justo e humano. Procurando abrir espaços para os jovens que, como eu, acreditavam nos ideais “socialistas”. Apesar dos inúmeros fantasmas que nos rondavam, aquele período foi muito rico em vivências. Lá, isso foi!

Naquela época, lembro bem, os militares mandavam e desmandavam nos destinos do país. Reiteradas atrocidades foram cometidas em nome da “ordem e do progresso”, lema equivocadamente furtado de nossa bandeira. Existia até um chavão: “Brasil, ame-o ou deixe-o!”. E se por acaso o nosso “amor” não era bem aquele que eles desejavam, então, éramos “convidados” a “deixar” o país. Muitas vezes, para sempre! Perdi diversos amigos. Alguns deles, verdade seja dita, eram somente estudantes “ingênuos” que nunca entraram no movimento, quer por medo, quer por cinismo ou mesmo divergência. Outros, caíram na clandestinidade e alguns foram até para a luta armada.

Desafortunadamente, o pai de Belinha era um general do exército, da chamada “linha dura”. Todas as vezes que o via, eu tremia dos pés à cabeça. E ele, como que adivinhando, olhava-me sempre com suspeição ou “rancor”. Certa vez, o general nos flagrou namorando nas escadas do prédio. Nossa! Nunca desci tão rápido uma escada na vida. Eu parecia até um atleta correndo 100 metros com barreira… Que sufoco!

Foi quando eu resolvi me afastar de Belinha, uma vez que me sentia “perseguido” pelo pai (ou, quem sabe, pelos temores que ele me desencadeava?). Contudo, foi o meu maior engano. Isto porque, um amor feito aquele não se acha duas vezes na vida, meus amigos. Seguramente.

Bem, aí o tempo foi passando e eu cada vez mais engajado no movimento estudantil. As manifestações de rua tomavam a cidade por todos os lados. Ora ocorria uma passeata de protesto na Praça Cinelândia, ora um comício-relâmpago no restaurante universitário. Como sempre, havia muita tensão e nervosismo no ar. E nos breves encontros, aproveitávamos para obter informações sobre os companheiros “desaparecidos”.

Até que um dia, sem nenhum aviso, Belinha mudou-se de bairro. E eu nunca mais tive notícias dela, apesar das incessantes buscas que empreendi. Num átimo, Belinha virou “passado”. Sofri muito, é verdade. Chorei por sua ausência durante bastante tempo e me culpei pela falta de coragem. Meu Deus, por que foi mais fácil lutar por uma causa do que por um afeto?! Por que sempre é mais fácil morrer por uma ideologia do que viver por um grande amor? Por quê?!

É, minha gente, por aí vocês podem avaliar como demorei a “reencontrar” os meus afetos. Perversamente, eles se extraviaram naquele dia em que abdiquei o amor de Belinha. E o mundo teve que girar um bocado para que eu pudesse ter de volta os meus afetos perdidos. Para tanto, precisei encontrar maravilhosas criaturas no percurso. E elas, ao me ofertarem abraços, foram responsáveis por essa recuperação. De alguma forma, esta crônica é dedicada a todas as pessoas que me estenderam a mão.

Também é verdade que precisei me comover com as belas histórias dos livros e filmes. Porquanto são capazes de revelar os sentimentos dos homens, restaurando os nossos pedaços. Felizmente, não faltaram talentos a nos brindar com extraordinárias obras. É bem o caso de Giuseppe Tornatore. Ele já nos deu o Cinema Paradiso, Estamos todos bem, Uma pura formalidade, A lenda do pianista do mar e, dessa vez, Malena.

A história de Malena nos remete ao Cinema Paradiso, uma vez que percebemos o mesmo tema e o desejo de fazer “expiações”. Tornatore retorna às antigas vilas da Itália. E se em Cinema Paradiso a vila Giancaldo foi o palco onde brilhou o menino “Totó”, em Castelcuto temos “Renato Amoroso” conhecendo as manhas da paixão. Ambos foram acolhidos com magníficas histórias, impecáveis fotografias e a soberba trilha sonora de Ennio Morricone.

A iniciação amorosa do menino Renato se dá em meio a Segunda Grande Guerra. Ao conhecer Malena, a belíssima musa de seus sonhos juvenis, Renato descobre bem mais do que o desejo ou a paixão: descobre a fidelidade. Por Malena, Renato foi capaz de conhecer o seu próprio corpo e aprendeu a respeitá-lo. E, precocemente, ele teve que desenvolver o sentido ético nas relações interpessoais. Sorte a dele. Sorte de Malena.

No entanto, as frenéticas manifestações de cobiça e inveja – respectivamente, empreendidas pelos homens e as mulheres de Castelcuto – sempre andaram lado a lado de Malena. Passando por terríveis provações, Malena amargou incontáveis dores, sem nunca perder a altivez. Talvez por isso, ela tenha recebido a tácita cumplicidade e a compreensão do menino Renato. Isso porque, quis o destino que somente ele estivesse ao lado dela em todos os momentos.

A bicicleta de Renato, em verdade, apontou bem mais do que os novos caminhos que a vida expectava. Montado nela, o garoto acompanhou e viveu o drama de Malena. Extraindo da inocente alma os confusos sentimentos que brotavam. Pior ainda: tendo que dar conta deles em tempo real, pois nada podia ser adiado. E assim, sentado no banco da bicicleta, Renato começou a compreender a vida e a travar com os sentimentos uma peleja que nunca mais findará!

Ao reencontrar Malena, quem sabe despedindo-se da paixão, ele nos deixou um belíssimo legado, narrado agora pelas lembranças de um “envelhecido” Renato: “Eu pedalava como se fugisse. E, na verdade, fugia: dela, daquelas emoções, dos sonhos, das recordações, de tudo enfim… E pensava que precisava esquecer. Eu tinha certeza de que conseguiria esquecer. Mas, agora que estou velho, que consumi banalmente minha vida, que conheci tantas mulheres que me disseram: lembre-se de mim, percebo que esqueci todas. Porém, até hoje, ela é a única mulher que jamais esqueci: Malena”.

 

Malena

Disco: ” John Coltrane & Johnny Hartman”.

Quantos encontros já ocorreram na história do jazz? Centenas… milhares? Sei lá! E, por acaso, seria esse apenas mais um? Ah, duvido muito, minha gente! Esse aconteceu em sete de março de 1963. Para a nossa sorte, devo reconhecer, lá estavam John Coltrane (sax tenor), Johnny Hartman (vocal), McCoy Tiner (piano), Elvin Jones (bateria) e Jimmy Garrison (contra-baixo). Um time de primeiríssima linhagem!
No fundo, o que eles conseguiram fazer não está no mapa. Acredito até que o intitulado disco bem que poderia se chamar “Dedicated to you”. Assim, por certo, ele daria sentido à nossa carente solidão. E o meu vizinho gaúcho, avesso ao jazz, haveria de reconhecer em alta voz: “Barbaridade, chê, que capacidade!”.
“My one and only love” é cantada bem ao estilo dos “crooners de boate”. (Aliás, eu fiquei apaixonado com a regravação desta melodia, na trilha sonora do filme “Despedida em Las Vegas”, interpretada pelo Sting. Que maravilha ficou!)
Outro “hit” que ninguém jamais esquece é “You are too beautiful”. Meu Deus do Céu, tem a cara daqueles bailes de debutantes, lembram?! A orquestra de “Ed Lincoln” arrebentando, lá pelos anos 60. Hummm… eu ali dançando de rosto colado com aquela maravilhosa moça… falando um “monte de coisas” no seu ouvido… e ela fingindo acreditar… Pois é. Apesar de toda ajuda, nem sempre deu certo. Ao menos, fiquei com a canção no coração. E isto me basta!
Coltrane

Literatura: o bom discurso!

A internet é um território muito rico e, com paciência, pode-se colher boas e belas postagens. Enriquecedoras, até. Basta saber “garimpar” os lugares corretos e separar o “joio do trigo”. Veja esse exemplo que encontrei no Jornal do Comércio, Recife – Pernambuco. Eu gostei tanto que me encorajei a publicar aqui. Espero que apreciem.

DISCURSO DO EMBAIXADOR MEXICANO

Um discurso feito pelo embaixador Guaicaípuro Cuatemoc, de descendência indígena, defendendo o pagamento da dívida externa do seu país, o México, embasbacou os principais chefes de Estado da Comunidade Europeia. A conferência dos chefes de Estado da União Europeia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002, em Madri, viveu um momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado europeus ouviram perplexos e calados um discurso irônico, cáustico e de exatidão histórica que lhes fez Guaicaípuro Cuatemoc.
Eis o discurso:
“Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a “descobriram” só há 500 anos. O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento -ao meu país- com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento.
Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no “Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais” que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento!
Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão. Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização europeia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas. Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos. Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano “MARSHALL MONTEZUMA”, para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, e de outras conquistas da civilização.
Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?
Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em Terceiros Reichs e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.
Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão
generosamente, temos demorado todos esses séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.
Nós nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.
Muito peso em ouro e prata… quanto pesariam se calculados em sangue?
Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.
Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica…”
Quando terminou o discurso, diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o Cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a Verdadeira Dívida Externa.
Agora resta que algum Governo Latino-americano tenha a dignidade e coragem suficiente para impor seus direitos perante os Tribunais Internacionais.
Os europeus teriam que pagar por toda a espoliação que aplicaram aos povos que aqui habitavam, com juros civilizados.

Ilustração: Wikipédia.

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