Cinema: filme “Parente… É serpente”, de Mário Monicelli.

Álbum de família   –   Parte  2 / 2.

Então, resolvi deixar o assunto de lado. “Melhor assim. Essas “coisas” só devem ser tratadas quando nos encontramos bem, nada estressados”. E, seguramente, não era o meu caso! Por isso, eu preferi espairecer e dar um pulinho na banca de jornal para ver as novidades. Acabei batendo os olhos nesse filme, “Parente… É serpente”, do fabuloso Mario Monicelli. “Ah, comédia! É tudo que necessito neste momento!” –  suspirei aliviado.

No entanto, como diz a minha irmã: “Não adianta insistir aqui ou acolá, Carlinhos. Basta deixar por conta do universo. E ele, sabiamente, se encarrega de conspirar e pôr as coisas na ordem certa”. Meu Deus, que sabedoria!

Assim, comecei a assistir ao filme, deliciando-me com a impecável condução de Monicelli e o belo desempenho dos atores.

Pois é. Um filme fabuloso, isso sim! Que originalidade! Que incrível “humor negro”! Mas, ao mesmo tempo, cá entre nós: que hora mais inoportuna! Pois eu nem havia absorvido toda aquela conversa com a amiga psicanalista e, ironicamente, fui “fulminado” pelo cáustico humor da história. Por mais que eu tentasse disfarçar, soltando inúmeras gargalhadas ao longo da comédia, percebia que não sairia ileso até o final do filme. É que o diretor, sabiamente, armou uma tremenda cilada para os espectadores, já que da metade da história em diante fica evidente a intenção dele. No fundo, é fácil intuir o final do filme, muito embora não acreditemos que ele, o diretor, tenha coragem de fazer “aquilo”… Ah, ele não será capaz disso, pensei perplexo durante a cena da “reunião” dos irmãos para tratar do “destino” dos pais. Quase desliguei o aparelho de DVD!

Olha, minha gente, já foi dito, por aí, que a arte imita a vida. O que eu não sabia, juro a vocês, é que a vida também imita a arte…  Quanta ironia!

Somente agora eu posso falar sobre o episódio, pois consegui me libertar do “Lexotan”, após seis meses de intensa terapia. É bem verdade que, no início, tive muitas dificuldades. Só eu sei! Para que vocês tenham uma ideia do aperto: mudei-me de cidade, arrumei um novo emprego, terminei o antigo noivado e, durante bom tempo, frequentei a “Igreja Arca da Fé”. De fato, tornei-me outra criatura. Feliz? Bem… aí, eu não saberia dizer! O importante é que fiquei aliviado: sem culpas ou remorsos. Mas, não foi nada fácil, creiam-me!

O processo penal ainda está em tramitação, que essas coisas levam muitos anos para serem julgadas. A capitania dos portos ainda não terminou o laudo do acidente do barco. Virgílio, meu advogado, garante que sairei vitorioso. Segundo ele diz: “ninguém conseguirá provar nada, Carlos. Há somente suspeitas. Algo sem consistência. No fundo, foi um lamentável acidente: apenas isso!”
Porém, junto à família a questão arrastou-se por um longo e sofrido tempo. Agora, tudo indica que os irmãos já absorveram o “trauma” e, lentamente, ensaiam uma aproximação. Conseguimos até celebrar o aniversário do caçula, no último dia 15, sem que pairasse no ar aquele clima pesado das outras vezes. Intimamente, devo confessar, tem sido prazeroso rever os irmãos e resgatar antigas lembranças da infância. Eu, meu irmão mais velho e a irmã do meio planejamos, inclusive, uma viagem à nossa terra natal. Iremos rever os parentes e desencaixotar, enfim, as últimas “tralhas” retidas no inconsciente familiar. Como bem recomendou a amiga psicanalista!

Se eu ainda frequentasse aquela igreja, certamente diria: “aleluia, irmãos, aleluia!”

 

PARENTE2

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...