Cinema: filme “Parente… É serpente”, de Mário Monicelli.

Álbum  de  família  –  Parte  1 / 2.

Eu bem sei que a história parecerá estranha, até mesmo absurda. Verdade é que tudo ocorreu de forma muito rápida e “explosiva”. Aliás, até hoje eu não consegui digerir completamente a sequência dos episódios. Por isso, então, vou apelar para a ajuda de vocês, amigos leitores. Rogo apenas para que sejam benevolentes comigo!

O “causo” começou a partir de uma conversa com uma amiga psicanalista. Deixe-me contar o “episódio”. Mas, por favor, somente depois me digam se eu “viajei” ou não na “fantasia” do filme…

A primeira frase que ela pronunciou foi bombástica: “Acredite no que vou dizer, Carlos: família é algo maravilhoso. Porém, creia-me, apenas em um álbum de fotografia!”
Céus, confesso que fiquei encabulado… Afinal, eu não sabia o que argumentar ou contrapor. O certo, minha gente, é que naquele momento eu aceitaria qualquer sugestão… menos o silêncio devastador que tomou conta de mim! “E agora, o que posso dizer?” – pensei inquieto.

Muito embora eu não seja mineiro e sim cearense, preferi não falar nada. Apenas balancei a cabeça, como se meditasse sobre a frase. Profundamente. Por sinal, eis aí uma boa dica: sempre que você não se sentir seguro para dar a réplica em uma acalorada discussão, opte pelo silêncio. Juro que funciona! Ao menos, deixamos o interlocutor “ensimesmado” e ganhamos algum tempo para nos recompor… e eu bem carecia… Ufa!

Mas, o diabo é que ela não parou por aí. Quando eu já comemorava o “armistício” da conversa, imaginando mudar de assunto, ela soltou mais um torpedo. Enfaticamente, disse: “O certo é que só a orfandade desenvolve plenamente a criatura. O que é preciso, Carlos, é poder viver essa condição, independente da “existência” dos pais e irmãos. Ou seja: cultivar a “individualização e, por conseguinte, permitir que as grandes diferenças possam aflorar nas relações da família. Sem medos ou hipocrisias. Pois só assim, evita-se o acúmulo de mágoas… já que estas, sim, são perigosas e nefastas”.
A amiga psicanalista ainda disse outras coisas. Mas, na altura do campeonato, eu já não conseguia ouvir mais nada direito. Estava atônito e, ao mesmo tempo, incrédulo. No fundo, talvez eu estivesse em pânico…

O melhor a fazer era ir para casa após aquele jantar, que nem conseguia descer direito… Pudera! Quem afirmara tudo aquilo era uma conceituada terapeuta lacaniana, extremamente preparada. Uma criatura que possui uma bagagem cultural e emocional de fazer inveja!

“Será que ela tem razão?” – pensei com os meus botões. Isto porque, convenhamos, até aquele momento eu seria capaz de apostar na beleza da família, na importância da união dos “entes queridos”, essas coisas… Sabe como é? O fato é que a minha postura sempre fora de “guardião” da família. Paciência!
Aí, surgiu uma inusitada voz, vinda não sei de onde. Parecia até coisa do “demônio”: “Dá um tempo, Carlos! Você não fala com seu irmão mais velho há três anos! Isso sem falar do distanciamento estabelecido com os outros…” Céus, é verdade! Ah, mas vai ver que é pelo fato dele ser uma pessoa difícil. Insuportável, até! Já com os outros é di-fe-ren… Hum, será?! Ou mais uma vez eu não quero enxergar a realidade?

O que sei dizer é que pela primeira vez na vida me senti com insônia. Juro. Só vendo o sufoco que passei. Rolava de um lado para o outro na cama e nada dos pensamentos darem trégua.

“A única solução é “encarar” a questão”, pensei com convicção. E aí, comecei a me dar conta de que a amiga psicanalista não estava “equivocada”. Afinal, a minha família não é lá “um exemplo de união”. Apesar de sermos muitos, verdade é que poucos se relacionam bem. Suportamo-nos, isso sim! Talvez, por conta de uma herança cultural que nos empurrava a manter as aparências. Na realidade, somente agora percebo, fomos unidos apenas na infância, que criança é muito pura e não se queixa de nada mesmo. Vocês já viram, por acaso, criança apontar os grandes defeitos dos pais?!

(  continua )

Parente é serpente

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...