Disco: ” John Coltrane & Johnny Hartman”.

Quantos encontros já ocorreram na história do jazz? Centenas… milhares? Sei lá! E, por acaso, seria esse apenas mais um? Ah, duvido muito, minha gente! Esse aconteceu em sete de março de 1963. Para a nossa sorte, devo reconhecer, lá estavam John Coltrane (sax tenor), Johnny Hartman (vocal), McCoy Tiner (piano), Elvin Jones (bateria) e Jimmy Garrison (contra-baixo). Um time de primeiríssima linhagem!
No fundo, o que eles conseguiram fazer não está no mapa. Acredito até que o intitulado disco bem que poderia se chamar “Dedicated to you”. Assim, por certo, ele daria sentido à nossa carente solidão. E o meu vizinho gaúcho, avesso ao jazz, haveria de reconhecer em alta voz: “Barbaridade, chê, que capacidade!”.
“My one and only love” é cantada bem ao estilo dos “crooners de boate”. (Aliás, eu fiquei apaixonado com a regravação desta melodia, na trilha sonora do filme “Despedida em Las Vegas”, interpretada pelo Sting. Que maravilha ficou!)
Outro “hit” que ninguém jamais esquece é “You are too beautiful”. Meu Deus do Céu, tem a cara daqueles bailes de debutantes, lembram?! A orquestra de “Ed Lincoln” arrebentando, lá pelos anos 60. Hummm… eu ali dançando de rosto colado com aquela maravilhosa moça… falando um “monte de coisas” no seu ouvido… e ela fingindo acreditar… Pois é. Apesar de toda ajuda, nem sempre deu certo. Ao menos, fiquei com a canção no coração. E isto me basta!
Coltrane

Literatura: o bom discurso!

A internet é um território muito rico e, com paciência, pode-se colher boas e belas postagens. Enriquecedoras, até. Basta saber “garimpar” os lugares corretos e separar o “joio do trigo”. Veja esse exemplo que encontrei no Jornal do Comércio, Recife – Pernambuco. Eu gostei tanto que me encorajei a publicar aqui. Espero que apreciem.

DISCURSO DO EMBAIXADOR MEXICANO

Um discurso feito pelo embaixador Guaicaípuro Cuatemoc, de descendência indígena, defendendo o pagamento da dívida externa do seu país, o México, embasbacou os principais chefes de Estado da Comunidade Europeia. A conferência dos chefes de Estado da União Europeia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002, em Madri, viveu um momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado europeus ouviram perplexos e calados um discurso irônico, cáustico e de exatidão histórica que lhes fez Guaicaípuro Cuatemoc.
Eis o discurso:
“Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a “descobriram” só há 500 anos. O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento -ao meu país- com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento.
Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no “Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais” que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento!
Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão. Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização europeia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas. Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos. Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano “MARSHALL MONTEZUMA”, para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, e de outras conquistas da civilização.
Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?
Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em Terceiros Reichs e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.
Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão
generosamente, temos demorado todos esses séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.
Nós nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.
Muito peso em ouro e prata… quanto pesariam se calculados em sangue?
Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.
Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica…”
Quando terminou o discurso, diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o Cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a Verdadeira Dívida Externa.
Agora resta que algum Governo Latino-americano tenha a dignidade e coragem suficiente para impor seus direitos perante os Tribunais Internacionais.
Os europeus teriam que pagar por toda a espoliação que aplicaram aos povos que aqui habitavam, com juros civilizados.

Ilustração: Wikipédia.

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