Literatura: a prosa de Chico Buarque – Parte 2.

Celebrando Chico Buarque de Holanda

Sem nenhum constrangimento, eu devo confessar: ainda que eu seja um “errante” e que a vida me diga que “na bagunça do teu coração / meu sangue errou de veia e se perdeu…”, ainda assim, continuarei acreditando que o afeto mora ao lado. E por mais que a realidade seja uma incômoda conselheira, algumas vezes, por certo, é preciso ousar. Até porque, sei bem que diversas vezes agi como na canção: “dei pra sonhar / fiz tantos desvarios / rompi com o mundo / queimei meus navios / me diz pra onde que inda posso ir…”
Então, alguém me pergunta: onde está a saída, Carlos? E eu respondo: não sei! O que sei é que “nessas tortuosas trilhas / a viola me redime / Creia, ilustre cavalheiro: contra fel / moléstia, crime / use Dorival Caymmi / Vá de Jackson do Pandeiro”. E olha que eu já “vi cidades, vi dinheiro / bandoleiros / vi hospícios! / Moças feito passarinho / avoando de edifícios…”
O mais importante é que estamos aqui, nesta festa, celebrando este momento. E que cada um de vocês possa também dizer: “Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / e ainda guardo, renitente / um velho cravo para mim / Já murcharam a tua festa, pá / Mas, certamente, esqueceram uma semente / Nalgum canto do jardim! / Sei que há léguas a nos separar / tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá / navegar, navegar…”
O fato é que a vida da gente não caminha em linha reta. E será que deveria?! Creio que não. Para a nossa sorte, os dias são sempre diferentes e, assim, temos mais oportunidades, não acham? Afinal, “tem dias que a gente se sente / como quem partiu ou morreu. / A gente estancou de repente / ou foi então o mundo que cresceu. / A gente que ter voz ativa / no nosso destino mandar / mas eis que chega a roda viva / e carrega o destino pra lá…”
Ah, meu caro Chico, eu agradeço por toda poesia que nos presenteou. Ela jamais será esquecida, creia-me. E, por justiça, nós devemos a você essa capacidade de, muitas vezes, dar sentido àquilo que não tem… Não importa nem mesmo se alguém disser: “diz que eu não sou de respeito. / Diz que não dá jeito / de jeito nenhum / Diz que eu sou subversivo / Um elemento ativo / Feroz e nocivo / ao bem-estar comum…”

 

chico1

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...