Memórias: a vida se repete. Sempre!

Uma das lembranças mais ternas que eu guardo do meu querido filho Gabriel, ainda recém-nascido, era quando ele estava dormindo. Meu Deus, o que era aquilo, minha gente? Para mim, mais parecia a figura de um “anjo”. O anjo Gabriel!
Deitadinho naquele berço, ele parecia ter sempre um sono sereno. Enquanto isso, eu e a mãe dele não cansávamos de ficar ao lado do berço admirando aquela coisinha linda.
Então, quis o destino que a história se renovasse. E mais uma vez temos a feliz oportunidade de reviver esta cena, agora com o nosso netinho, João Pedro, entregue ao sono restaurador.
Nessas horas, por via das dúvidas, não custa evitar a visita de algum “Lobo Mau”, rondando os seus sonhos…  Para tanto, nada melhor do que a companhia do amigo “Tigrão” para zelar por seu soninho.
Abençoados sejam: Gabriel e João Pedro!

Cinema: filme “Chet Baker – A lenda do Jazz” (2015).

É sabido que a vida de Chet Baker foi bastante conturbada. Nela, sempre houve um complicado dualismo: ou aparecia o doce e terno Chet Baker, com seu maravilhoso trompete e delicada voz ou surgia o “dependente químico” da heroína que, a partir daí, desencadeava uma sucessão de brigas, confusões e violências de todas as ordens. Talvez, alguns leitores poderão perguntar: mas, como pode isso acontecer, Carlos?! É, minha gente… a natureza humana revela mais contradições do que somos capazes de atinar. Em parte, isso representa grande lástima mas, por outro lado, também é verdade que essas “almas conflitadas” têm nos ofertado momentos de raro prazer. Talvez por isso, nós nos tornamos benevolentes e “perdoamos” muitos “deslizes” desses monstros sagrados…
Nascido em Oklahoma e criado em um subúrbio de Los Angeles, Califórnia, Chet Baker sofreu bastante na infância. Ainda muito jovem, ele perdeu um dente em uma brincadeira na rua com outros meninos (anos depois, perderia quase todos eles em brigas na rua, supostamente com traficantes que vinham lhe cobrar dívidas). Herdou do seu pai, um guitarrista amador (e alcoólatra), o amor pela música. E aos treze anos de idade recebeu de presente o primeiro trompete.
No entanto, Chet não era um estudioso da música e a sua facilidade de executar maravilhosos solos, ele atribuía ao excelente ouvido que possuía.
Aos dezessete anos, ele sai da escola. Entra para o exército, onde em pouco tempo é transferido para Berlim, para tocar na banda. Foi nesse período na Europa que, pela primeira vez, Chet ouviu jazz: eram as canções de Stan Kenton e Dizzy Gillespie, transmitidas pela rádio.
Aos 22 anos de idade, Chet já se apresentava regularmente por toda Los Angeles. Soube, então, que Charlie Parker estava à procura de um trompetista para acompanhá-lo em sua turnê pela costa oeste dos Estados Unidos e Canadá, iniciando ali uma nova etapa em sua vida.
Por certo, o grande reconhecimento ao talento de Chet só surgiu em 1952, quando Gerry Mulligan começou a formar seu famoso quarteto sem piano e escolheu Baker, com quem já havia tocado em algumas “jam sessions”. O sucesso foi extraordinário e ele se apresentou em diversos clubes por cerca de um ano, antes de Mulligan pegar noventa dias na prisão (por posse de heroína). Depois disso, Chet viajou para a Europa e começou a ganhar prêmios e aplausos.
De volta aos EUA, começou a consumir heroína e a ser preso frequentemente. Sem a autorização para tocar em lugares que servissem bebidas, Chet resolveu voltar para a Europa. Viveu na Itália por quatro anos, onde também foi preso por drogas. Lá, casou-se e teve um filho.
Em 1964, novamente voltou aos EUA, agora dominados pelo “rock” dos Beatles. Daí, como restava pouco espaço para os músicos de jazz, passou a gravar discos comerciais de baixo valor artístico. Nessa mesma época, ele perdeu diversos dentes em consequência de uma briga envolvendo a negociação de heroína. Praticamente, foi obrigado a abandonar o instrumento de 1970 a 1973, quando tentou retomar sua carreira. Em viagem pelo Colorado para visitar um velho amigo, ouviu Dizzy Gillespie tocar em um clube. Foi o início do seu retorno. Quando Gillespie ficou sabendo do esforço de Baker para voltar à cena, ligou para o gerente do famoso “Half Note Club”, arrumando-lhe uma temporada de três semanas em Nova Iorque.
No Brasil, ao se apresentar na primeira edição do “Free Jazz”, em 1985, Baker sofreu uma “overdose” no quarto do hotel e quase morreu. De certo, era o prenúncio. Três anos depois, em um pequeno hotel de Amsterdã, Chet “caiu” do segundo andar do prédio… Nunca se soube, ao certo, se ele cometeu suicídio ou se foi uma queda acidental. O que sei dizer, meus amigos, é que de um modo ou de outro, todos nós ficamos órfãos!