Literatura: Rubem Braga, o cronista.

Em 1976, meu tio Holdemar Menezes publicou o primeiro livro de crônicas dele, intitulado “O Barco Naufragado”. Era uma coletânea de trinta e quatro crônicas, divididas em duas partes: a primeira foi denominada como “do quase riso” e a segunda como “da quase angústia”. Na época, eu havia achado muito interessante esta abordagem entre o humor e a angústia. De fato, se pensarmos bem, veremos que quase tudo ao nosso redor possui tais aspectos. Aliás, para nos provocar, logo na apresentação do livro há uma frase de Ney Messias com esse nítido propósito. Segundo ele, “a crônica é uma oportunidade única para se fazer de tudo: poesia, sociologia, religião e besteira. Não prefiro a crônica por outro motivo, senão pela oportunidade de variar, incontrolavelmente”. Maravilha, minha gente!
Realmente, a crônica é um gênero literário que parece consagrar esses aspectos como primordiais: o humor e a angústia. Contudo, convenhamos, isso não envolve apenas o “dualismo” literário e, sim, da vida. E foi René Descartes, filósofo, físico e matemático francês quem desenhou essa perspectiva. Segundo ele, o pensamento e a matéria são substâncias independentes e incompatíveis. Mas, até que ponto isso é perene e universal?! Afinal, muitas vezes, ao voltarmos o nosso olhar para um sem número de episódios, ficamos com a impressão de que quase tudo é relativo e depende da situação e dos fatores que envolvem o próprio episódio…
Se observarmos pelo prisma emocional, sem dúvida, haveremos de aceitar a forte influência que os nossos afetos proporcionam. Algumas vezes, eles até determinam as chances e os destinos da criatura…
Ainda assim, indiferente a tudo isso, Rubem Braga, o grande mestre do gênero, certa vez escreveu uma antológica crônica, intitulada “Ai de ti, Copacabana”. Nela, está gravada uma apoteótica previsão do cronista, que surge entre o temor e a culpa, amaldiçoando os destinos do bairro carioca. Eis um pequeno trecho:
“Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.
Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.
Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia.”
Abençoado seja, Rubem Braga!

Rubem Braga

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...

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