Disco: “Do the Bossa-Nova with Herbie Mann”, com Herbie Mann.

O ano era 1962 e muitas coisas “estranhas” ainda estavam para acontecer. Eu digo estranhas porque, no fundo, havia uma imensa nuvem negra pairando sobre o nosso Brasil. E, pela previsão, ela iria terminar numa longa “tempestade”…
De um lado, nós tínhamos um governo que já mostrava sinais de profundas dificuldades e sem oferecer a devida segurança nas proposições. É bem verdade que o legado recebido de Jânio Quadros foi caótico, deixando uma verdadeira “batata quente” na mão do sucessor. João Goulart podia até ter boas intenções, mas, convenhamos, isso era muito pouco para o incrível desafio que teria que encarar. Foi sabotado, sacaneado e, também, foi incompetente para o tamanho do desafio. Lamento, isso sim, pois simpatizava com muitas de suas bandeiras…
Por outro lado, é bom que se perceba, havia um país pronto para explodir em várias frentes. Como na música, rica e melódica, que grandes compositores e intérpretes fizeram acontecer, batizando-a como “bossa-nova”!
Caramba, este foi um movimento de extraordinário valor que, de tão sedutor, não segurou os muros e invadiu outras praias. Principalmente, nas terras do famigerado Tio Sam. Bem feito! Quem mandou dizer que o “Brazil” era só Carmem Miranda?!
Então, cá entre nós, os gringos foram obrigados a se curvarem frente ao nosso samba moderno, que não tinha o mesmo rebolado de outros carnavais, é verdade, mas tinha suingue para dar e vender… lá, isso tinha.
Para a banda dos “states” foram enviados os nossos cartões postais, assinados por Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Carlinhos Lira, João Gilberto e tantos outros. E eram bem diferente daqueles que o Zé Carioca quis caricaturar. Chupa, Tio Sam!
Herbie Mann foi um grande flautista do jazz que conheceu a nossa bossa-nova e se encantou. Perdidamente. Gravou diversos discos com convidados brasileiros, inclusive Tom Jobim. O CD que apresentamos hoje foi gravado no Rio de Janeiro, em outubro de 1962. Coisa linda!
“Batida diferente”, na faixa 3, tem a presença marcante de Sérgio Mendes. E o nosso imortal Tom Jobim surge como um anjo, interpretando “One note samba” (Samba de uma nota só). Que “tiro foi esse”, minha gente?!

Literatura: “Horóscopo”.

Mais uma vez você perderá o horário e chegará atrasado para as aulas desta manhã. O despertador, ao lado, anuncia que não foi corretamente programado e que, por isso, não cumpriu a missão a que estava destinado. É que você é de Leão e esqueceu que neste mês de agosto Júpiter atravessará a sua Casa Astral promovendo relaxamentos e descompromissos. Contudo, o mais difícil será o encontro, na porta da escola, com o vice-diretor. Como chefe de disciplina, notadamente ele não simpatiza com você. Afinal, ele é de Touro. Sendo assim, é muito exigente com tudo. E com isso, não admite nenhuma falha, por mais justificável que pudesse ser.
Então, só lhe resta cumprimentar discretamente o vice-diretor e subir bem rápido para a sala dos professores, a fim de pegar os diários de classe e a caixa de giz. No caminho para a sala de aula, é claro, você se recordará da suave e longa noite vivida, mas que, ainda assim, cobrará um alto preço… De todo modo, soltará um discreto sorriso e perceberá a presença do perfume dela presente em suas mãos.
Ao entrar na barulhenta sala de aula e pedir silêncio, sem muita confiança, perceberá que a aluna que se senta em frente à sua mesa, ofertará um sorriso de solidariedade e murmurará um elegante “bom-dia”. Ela é de Peixes. Por isso mesmo, está sempre disposta a carregar as “dores do mundo”, até mesmo as que não são suas.
Você, como um bom leonino, quando é apanhado de surpresa, age como Aquário, que é o signo do elemento ar, governado por Saturno e que tem como regente auxiliar o planeta Urano. Daí porque são tão positivos, com pensamentos humanitários e com a cabeça sempre voltada para o futuro. Talvez, por isso, você tenha alterado, pela primeira vez, o seu estilo de aula. E passará a manhã inteira com um ritmo frenético, achando que ninguém perceberá a diferença. Nem mesmo os colegas professores, no intervalo das aulas, o pouparão de alguns comentários. “Linda morena, professor”, sussurrará a colega de Inglês. Você nada retrucará. Apenas um leve sorriso e a certeza de que ela tem razão… Muita razão!
O retorno para as aulas após o intervalo lhe dará a falsa impressão de “armistício”. Todavia, ele será breve. Muito breve mesmo, pois logo na primeira aula após o intervalo você voltará à sala daquela aluna, cujo “bom-dia” desencadeou essa tormenta de culpas e remorsos. Então, abrirá o seu coração e começará a falar para a turma sobre as dores do mundo. Dirá que muitas vezes o ser humano perde oportunidades de ampliar a sua humanidade porque não consegue se abrir para o novo e diferente. Dirá muitas coisas mais, porém, os alunos, atônitos, oferecerão apenas o silêncio como única recompensa pelo desabafo.
Ao tocar o sinal, anunciando a hora da saída, um a um, eles sairão acelerados e circunspectos, com um lacônico e sem graça “até amanhã, professor!”.
Você permanecerá sentado, arrumando lentamente os diários e tentando se recompor da “expiação” que ocorrera fora do seu controle.
Na saída da sala, receberá um aperto de mãos da aluna que, sem querer, provocara aquele forte desabafo. É que neste final de agosto a Lua transita em Sagitário e predispõe às concórdias. Você não dirá uma só palavra de agradecimento, mas, no fundo, sentirá que não está sozinho naquela escola. E de que vale a pena ser Leão!

Disco: “The soul of Ben Webster”, com Ben Webster.

O título do CD, “A alma de Ben Webster”, gravado em 1957, convenhamos, é muito apropriado. Até porque ele revela a essência de um belo trabalho. Ben Webster foi um maravilhoso saxofonista e tinha um bom gosto a toda prova. Sempre muito elegante no suave sopro e no fraseado rico e melódico, Ben era conhecido como “O bruto” na famosa orquestra de Duke Ellington nos anos de ouro do jazz. Ao lado de Coleman Hawkins e Lester Young, Ben Webster produziu as melhores páginas da Era do Swing.
Ainda assim, quando eu penso no título do CD, confesso, sinto um profundo arrepio. Não tanto pela riqueza de suas interpretações, que são impecáveis, mas pelo sentimento de que a “alma” é o bem mais precioso que o ser humano pode ter. E, ao que tudo indica, segundo os estudiosos: a palavra alma é uma tradução da palavra hebraica “néfesh”, que literalmente significa “criatura que respira”, e da palavra grega “psykhé”, que significa “um ser vivente”. Portanto, minha gente, a “alma” é a criatura inteira e não algo dentro do corpo que sobrevive à morte. Desse modo, nós podemos desfrutar do talento desse monstro sagrado que, seguramente, respirava com a alma de um anjo…
O álbum duplo em questão contém o que há de melhor no cancioneiro norte-americano e nele podemos ouvir melodias suaves, como grande patrimônio deixado por Ben Webster, mas também algumas inquietas composições, plenas de improvisos e variações melódicas. Afinal de contas, Fernando Pessoa já nos disse uma vez que “tudo vale a pena se a alma não é pequena!”

Disco: “Live at the house of tribes”, com Wynton Marsalis.

Wynton Marsalis é um músico de altíssima qualidade, seja por sua refinada técnica ou mesmo pelas extraordinárias escolhas que tem feito ao longo da carreira. Eu conheci a música de Marsalis lá pelos idos dos anos 80, quando meu pai me apresentou ao produtor musical, Roberto Quartin, falecido em 2004.
Quartin era um homem extremamente elegante e possuía um incrível bom gosto musical. Produziu o que havia de melhor na música nacional (bossa-nova, jazz e até mesmo trilhas sonoras para o cinema). E foi o grande responsável pelo o registro completo, 21 músicas, das sessões de gravação do antológico disco de Tom Jobim e Frank Sinatra.
Com o passar dos anos, eu e Roberto Quartin estreitamos a amizade e por seu intermédio, adquiri dezenas de “LaserDiscs”, que era o DVD daquela época. Por serem discos americanos, havia uma enorme oferta de shows musicais, filmes e documentários. Lembro bem que custavam, no início dos anos 80, a bagatela de 20 dólares a cópia em VHS ou 50 dólares o disco a laser original. Cheguei a ter mais de sessenta discos e acima de cem fitas de vídeo. Foi uma época de ouro, minha gente, pois assisti aos melhores shows de Chet Baker, Wynton Marsalis, Sarah Vaughan e o que havia de mais interessante como, por exemplo, a série original de Carl Sagan, intitulada “Cosmos”. Céus… bons tempos!
O mais interessante de tudo é que o nosso estimado Roberto Quartin desenvolvera uma tremenda “psicologia de vendedor”, uma vez que convencia até mesmo esquimó a adquirir uma geladeira, sabe como é?! Quando ele me ligava, inevitavelmente, eu sabia que não iria “escapar ileso”. Começava a conversa falando com entusiasmo sobre o último LaserDisc do Chet Baker. Algo assim: “Carlos, meu querido, você já ouviu a interpretação que o Chet Baker fez em Tóquio? É coisa do outro mundo… linda… arrebatadora, eu diria!” E aí, meus amigos, só me restava perguntar se ele me parcelaria o pagamento em duas ou três vezes… Já era!
O que sei dizer é que até hoje eu sou tremendamente grato ao querido Roberto Quartin por ter me apresentado aos melhores espetáculos musicais. Shows que me propiciaram inúmeras descobertas musicais. Como foi o caso do “Dueto Barroco”, gravado em 1992, por Kathleen Battle e Wynton Marsalis, uma verdadeira obra de arte.
Resta-me ouvir Wynton Marsalis e seu maravilhoso trompete, bebendo uma boa cerveja (já que é verão) e brindar ao amigo Roberto Quartin. Saravá, irmão!

Literatura: o gosto pelo conto.

Se há um estilo literário que me agrada muitíssimo, este, por certo, é o conto. Justifico: é que o conto tem em sua estrutura uma grande dose de complexidade. Isto porque, sendo mais curto que o romance, o conto precisa criar com dinamismo e em pouco tempo a atmosfera que pretende ensejar. Para tanto, o começo, o meio e o fim da história têm que estar bem delineados desde o início, pois não haverá muito espaço para grandes devaneios, como ocorre nos romances. Aliás, há que afirme que o conto nada mais é do que síntese do romance ou, de outro modo, a retrospectiva dos melhores momentos do romance.
Bem… Na verdade, confesso, eu não concordo com essas afirmativas. Porquanto elas reduzem a importância do conto. Eu prefiro dizer que são apenas gêneros literários diferentes. Tão somente! Até porque, ao querer enquadrar os estilos literários em fórmulas mágicas, creio, corre-se o risco de produzir frágeis conceitos e definições. Além de empobrecer o entendimento, é óbvio…
Eu encontrei na internet um artigo assinado por Luiz Ruffato, que escreveu: “Ocorre com o conto um curioso fenômeno. Talvez, dos gêneros literários, seja o mais visitado por candidatos a escritor. Devido a pouca extensão e, por consequência, a falsa sensação de simplicidade, muitos se iniciam pela narrativa curta como uma espécie de exercício formal para o romance – o que se trata de um enorme equívoco, pois seria como alguém se preparar para correr 50 metros rasos acreditando habilitar-se para uma maratona. Narrativas curtas e longas pertencem a distintas naturezas.” Corretíssimo, meu caro!
Aliás, como grande admirador do conto, eu tive a oportunidade de ler alguns mestres na arte de construir curtas histórias. Cito alguns: Tchecov, Joyce, Julio Cortázar, Vargas Llosa, Machado de Assis, Rubem Fonseca e tantos outros que aparecem nas antologias dos melhores contos de todos os tempos.
No entanto, peço licença a todos para lembrar o nome do meu querido tio, Holdemar Menezes. A meu ver, ele foi um baita contista! E com muita justiça, mereceu o prêmio Jabuti, em 1972, da Câmara Brasileira do Livro, como o melhor livro de contos, “A Coleira de Peggy”.
Holdemar publicou oito livros, sendo dois romances (A macã triangular e Os residentes), três livros de contos (A coleira de Peggy, A sonda uretral e Os eleitos para o sacrifício), dois de crônicas (O barco naufragado e A vida vivida) e um de ensaio (Kafka, o Outro). Contudo, foi no conto que o “nego velho” se encontrou. Completamente! É que no conto Holdemar se sentia à vontade no processo de criação, pois mantinha nas mãos às rédeas da história, trabalhando as palavras e o clima com profundo talento e arte. De certo modo, posso dizer que sempre me inspirei na literatura do meu tio. Ele foi, além de meu “guru” intelectual, o grande incentivador do meu discreto percurso literário. Como prova disso, há na orelha do meu primeiro livro, “Jazz, Cinema & Utopia”, o seguinte texto: “Nas minhas crônicas há um aspecto bem marcado: opto sempre pela primeira pessoa do singular. Porquanto é mais íntimo e convidativo. Com isso, quebra-se o constrangimento, estabelece-se a tácita cumplicidade e o “rapto” é concedido afinal.”
Gabriel, meu querido filho, ao ler este texto, sentenciou: “Pai, fique tranquilo. A “força” está do seu lado…”

(Na foto: eu, Gabriel e os sorvetes de Tapioca, em Fortaleza!)

tapioca

 

Disco: “New York – Lounge jazz”

Eu até posso imaginar que já tenha gente torcendo o nariz e pensando: “pô, esse Carlos é um bocado exigente. Vive reclamando de pequenos detalhes, uma coisinha aqui e outra acolá…” Pior ainda se for algum conterrâneo cearense, pois certamente vai dizer: “larga de ser prosa, abestado!”
Mas… calma aí, minha gente. Afinal, esse é o meu ofício. Mas se estou exigente demais, bem, aí são outros quinhentos… prometo que vou me cuidar. O fato é que eu me especializei em jazz, não em samba, tango ou “rock and roll”. Por isso, após 50 anos ouvindo jazz, a gente acaba aprimorando o gosto e, ao mesmo tempo, apurando o ouvido. Além disso, eu sempre convivi com extraordinários músicos e, de certa forma, eles me ensinaram a usar a régua da boa qualidade deles para medir a qualidade dos outros. E é por isso que eu me sinto à vontade para tecer determinados comentários. No fundo, convenhamos, o objetivo é enriquecer a análise dos comentários sobre os discos de jazz. E de mais a mais, tenho procurado ser imparcial e não faço campanha contra ninguém!
Portanto, aparadas as arestas, vamos em frente. Hoje eu quero comentar sobre um trabalho recente do grupo “Manhattan Jazz Quartett”. Neste disco, os músicos estão acompanhados pela vocalista e convidada especial, Debby Davis. O trabalho faz parte do projeto “Jazz & Blues Experience”, e circula pelas redes musicais por meio do álbum “New York Lounge Jazz – Vocal Classics”.
O que eu posso dizer é que desde o início do álbum fica evidenciado que o público alvo é o voraz consumidor das “play-list do Spotify” ou semelhantes. Talvez, por isso, a gente perceba um jazz agradável e muito aveludado, sem comprometer. Por outro lado, também é verdade que após ouvir algumas canções, eu cheguei a conclusão de que não compraria o CD. É o tal negócio: a audição é bem comportada demais, sem emoção e sem carisma… E aí, meus amigos, nós corremos o risco de ao chegarmos no final do CD, nem lembramos mais como era a primeira faixa ou a terceira ou a sexta… Assim é duro, né?!

Disco: “Jazz + Bossa”, com Delicatessen.

Há na dramaturgia um termo utilizado para quando o ator (ou atriz) “ultrapassa” o ponto de dramatização da cena. Os grandes diretores de teatros e televisão costumam denominar tal comportamento como o erro de “sobreatuar”. E isso é bem mais comum de ocorrer do que supomos, minha gente. Pois o ponto certo na dramatização da cena é, na verdade, algo bastante difícil de se encontrar e, não raro, os atores e atrizes ou passam ou ficam devendo a necessária impostação. Para o grande público, muitas vezes, isso passa desapercebido e os aplausos no final acabam acontecendo. Porém, para o diretor ou para um seleto grupo do público isso incomoda bastante, a ponto de prejudicar a cena ou até mesmo a peça…
Sim. E o que isso tem a ver com o disco “Jazz + Bossa”, do grupo Delicatessen, perguntarão os leitores? Eu explico. É que esse grupo vocal tem muitas qualidades. Tem bom gosto na escolha do repertório e soube mesclar no primeiro trabalho fonográfico o jazz com a bossa-nova. O resultado é quase primoroso, não fosse, em parte, empanado o brilho por conta de alguns “exageros” da vocalista. “Angel Eyes”, por exemplo, que é uma belíssima canção e que já foi interpretada por diversos “monstros” do jazz e do pop, acabou escorregando e ficou “chocha”. É o tal negócio: às vezes, no intuito de querer imprimir um selo autoral na interpretação, o cantor ou a cantora, perdem o diapasão e ficam tentando “reiventar a roda”, perdidos no meio do caminho…
Como nem tudo foi ruim, no conjunto da obra, devo reconhecer que o grupo musical é bem-vindo e tem tudo para brilhar no cenário musical. Basta um pouquinho mais de estrada e eles encontrarão o ponto certo. E torço para isso!